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Artigo

A longevidade floresce nos encontros e no amor

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Autor: Walmir Luiz Becker*

No Dia dos Avós (26/07), celebramos muito mais do que um laço de parentesco. Celebramos a sabedoria que o tempo oferece, o carinho que atravessa gerações e a oportunidade de compartilhar a vida com aqueles que representam, ao mesmo tempo, nossa história e o nosso futuro.

Quando somos jovens, acreditamos que a vida se mede pelos anos que ainda temos pela frente. Com o tempo, descobrimos que ela passa a ser medida pelas lembranças que construímos e pelas pessoas que permanecem ao nosso lado. É nesse momento que os netos deixam de ser apenas uma continuação da família para se tornarem um presente que a própria vida nos oferece.

Há quem pense que envelhecer é perder. Perdem-se algumas forças, a agilidade já não é a mesma, os dias parecem correr mais depressa e o espelho insiste em nos lembrar da passagem do tempo. Mas a velhice também concede um privilégio raro: ela nos ensina a enxergar o essencial. E poucas coisas são mais essenciais do que ver um neto crescer.

Os netos têm a curiosa capacidade de devolver cor ao cotidiano. Um simples abraço deles parece diminuir o peso dos anos. Talvez isso aconteça porque os avós já não carregam a urgência que acompanha a juventude. Os pais vivem cercados por responsabilidades, horários e preocupações. Aos avós, muitas vezes, cabe o privilégio de viver o encontro. Basta estar presentes.

A longevidade não deveria ser celebrada apenas pelo número de anos alcançados. Viver muito só faz sentido quando ainda somos capazes de cultivar afeto, curiosidade e encantamento. Não é a idade que nos torna verdadeiramente velhos, mas a incapacidade de continuar aprendendo com a vida. E, curiosamente, poucas pessoas nos ensinam tanto quanto uma criança.

A vida é feita de muitos caminhos, encontros e despedidas. Há sonhos realizados e outros que ficaram pelo caminho. Há alegrias que permaneceram e dores que o tempo tratou de suavizar. Mas, se pudesse resumir aquilo que realmente permanece, diria que são os vínculos. No fim das contas, não levamos conosco os bens que acumulamos, mas o amor que conseguimos semear.

Os netos representam essa continuidade silenciosa. São a prova de que a vida segue seu curso, renovando esperanças mesmo quando já imaginávamos conhecer todas as respostas. Neles existe um pouco de nós, mas também muito do futuro que jamais veremos por inteiro. E isso basta para nos confortar.

*Walmir Luiz Becker é poeta e autor dos livros “Fragmentos de Poesias – Desvivências” e “Entrelinhas”.

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Artigos

A violência contra a pessoa idosa também acontece no bolso

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Autora: Valéria Lima*

O Brasil está envelhecendo, e essa transformação exige um olhar cada vez mais atento para a proteção da pessoa idosa. Além do acesso à saúde e à previdência, é preciso assegurar que milhões de brasileiros envelheçam com autonomia, segurança e respeito aos seus direitos. Nesse contexto, a violência patrimonial e financeira tornou-se um dos desafios mais preocupantes da atualidade.

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ajudam a dimensionar esse desafio. O Censo Demográfico de 2022 identificou 32,1 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população. Em comparação com 2010, esse contingente cresceu 56%, reforçando a necessidade de ampliar políticas públicas e mecanismos de proteção voltados à população idosa.

O crescimento dessa população também evidencia outro desafio: o aumento dos casos de violência contra pessoas idosas. Em 2025, a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos registrou 59.134 denúncias envolvendo esse público, sendo 66% das vítimas mulheres. Entre as diversas formas de violência, a patrimonial e financeira merece atenção especial por comprometer justamente a renda que garanta a subsistência, a autonomia e a qualidade de vida de milhares de aposentados e pensionistas.

A violência patrimonial ocorre quando terceiros utilizam o patrimônio ou a renda da pessoa idosa de forma indevida, mediante fraude, abuso de confiança, coação ou aproveitamento de sua condição de vulnerabilidade. Isso pode ocorrer por meio de empréstimos consignados não autorizados, descontos indevidos em benefícios previdenciários, golpes bancários, falsificação de assinaturas ou, ainda, pela atuação abusiva de familiares ou pessoas próximas.

A legislação brasileira reconhece essa vulnerabilidade. A Constituição Federal assegura proteção especial à pessoa idosa, enquanto o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) estabelece garantias voltadas à preservação de sua dignidade, autonomia e patrimônio. O aumento desses casos tem motivado, inclusive, a discussão de novas medidas legislativas para fortalecer a prevenção, a identificação e o enfrentamento da violência patrimonial.

Na prática, muitos idosos só descobrem que foram vítimas quando percebem a redução inesperada do valor da aposentadoria ou da pensão. Em outros casos, desconhecem completamente a existência de contratos de empréstimos ou de descontos realizados em seus benefícios. Situações como essas não devem ser tratadas como algo “normal” ou inevitável. Ao contrário, exigem apuração e providências imediatas.

Algumas medidas simples podem fazer a diferença: acompanhar regularmente o extrato do benefício previdenciário, desconfiar de ligações oferecendo crédito fácil, nunca fornecer senhas ou códigos de confirmação por telefone e buscar esclarecimentos sempre que surgir qualquer movimentação financeira desconhecida. A informação continua sendo uma das principais formas de prevenção.

Quando a fraude já ocorreu, o ordenamento jurídico oferece mecanismos para proteger a pessoa idosa. Dependendo do caso, é possível contestar administrativamente descontos indevidos, buscar a nulidade de contratos firmados sem consentimento, responsabilizar instituições financeiras e pleitear judicialmente a reparação dos prejuízos sofridos.

Na advocacia previdenciária, muitas vezes o processo vai além da discussão sobre um contrato ou um benefício. Em inúmeros casos, o que se busca preservar é a tranquilidade financeira de pessoas que trabalharam durante décadas e dependem dessa renda para custear medicamentos, alimentação, moradia e outras despesas essenciais.

Neste Dia dos Avós, talvez o melhor presente não esteja apenas nas homenagens, mas também na atenção. Conversar sobre golpes, acompanhar os extratos dos benefícios, orientar sobre cuidados nas relações financeiras e buscar auxílio jurídico diante de qualquer irregularidade são atitudes que demonstram respeito e responsabilidade.

Envelhecer com dignidade é um direito assegurado pela Constituição e pela legislação brasileira. Mais do que reparar prejuízos, proteger a pessoa idosa significa preservar sua autonomia, sua segurança e o respeito à história construída ao longo de uma vida inteira. Afinal, cuidar de quem sempre cuidou de nós também é garantir que seus direitos sejam efetivamente respeitados.

*Valéria Lima, advogada especialista em Direito Previdenciário, Regime Geral (iniciativa privada) e Próprio (servidores públicos), MBA em Gestão de Pessoas e membro do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP).

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