Artigo
Quando a máscara cai
Autora: Kamila Garcia* –
Vivemos em um tempo em que a imagem ocupa um espaço cada vez maior na construção da nossa identidade. Nunca foi tão fácil mostrar ao mundo uma versão cuidadosamente editada de quem somos. As redes sociais exibem conquistas, viagens e momentos felizes, enquanto o ambiente profissional exige produtividade constante e controle emocional. Em todos os espaços, aprendemos rapidamente quais comportamentos geram aprovação e quais devem permanecer ocultos. O resultado é que passamos boa parte da vida administrando percepções.
Carl Gustav Jung chamou de Persona a máscara social que desenvolvemos para nos relacionar com o mundo. Ela é necessária e desempenha uma função importante na convivência humana. O problema surge quando nos confundimos com ela. Enquanto fortalecemos aquilo que consideramos admirável, empurramos para a inconsciência tudo o que ameaça essa imagem idealizada. Medos, ressentimentos, fragilidades e impulsos contraditórios são silenciados. Jung chamou esse território psíquico de Sombra.
A Sombra não é composta apenas por defeitos. Ela abriga tudo aquilo que foi rejeitado ao longo da vida: nossas fragilidades, mas também potenciais adormecidos, talentos esquecidos e partes autênticas sacrificadas para atender às expectativas de aceitação. O problema é que o que reprimimos não desaparece. Permanece vivo, aguardando uma oportunidade para se manifestar.
No cotidiano, costumamos manter certo equilíbrio. As relações seguem fluxos previsíveis e os conflitos parecem administráveis. É relativamente fácil ser gentil e paciente quando nada ameaça nossas certezas. Mas a vida não permanece para sempre em águas calmas. Em algum momento, somos confrontados por experiências que testam nossa estrutura interna. Uma perda significativa, uma crise financeira, uma doença ou uma profunda decepção podem abalar aquilo que acreditávamos ser.
Curiosamente, o sucesso também pode produzir esse efeito. O poder, o reconhecimento e a influência funcionam como um sol a pino: seu calor intenso derrete a Persona e revela aspectos antes ocultos.
É sob essa luz impiedosa que a máscara começa a ceder. Aquilo que permanecia escondido encontra espaço para emergir. A agressividade aparece onde havia cordialidade. O medo surge por trás da autoconfiança. Descobrimos que algumas virtudes talvez fossem apenas circunstanciais. As crises e os privilégios revelam quem somos quando os recursos habituais deixam de funcionar.
Embora desconfortável, esse encontro pode ser profundamente transformador. O amadurecimento não acontece quando eliminamos nossas sombras, mas quando nos tornamos conscientes delas. O que permanece inconsciente conduz nossas escolhas — o que é reconhecido pode ser compreendido e transformado. Em uma cultura que valoriza a felicidade constante e a performance impecável, admitir vulnerabilidades parece um fracasso. No entanto, a maturidade começa justamente quando acolhemos nossos contrastes.
O autoconhecimento não nasce da perfeição, mas da coragem de olhar para aquilo que existe além das aparências. Quando a máscara cai, não encontramos apenas limitações. Encontramos também a possibilidade de sermos inteiros. E é somente quando acolhemos o que escondemos que nos aproximamos de quem realmente somos.
*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.
Artigos
6a Jornada Mundial dos avós e das Pessoas Idosas 2026
Autor: Juacy da Silva* –
“A celebração do Dia Mundial dos Avós e dos Idosos é uma oportunidade para redescobrir que a Igreja é chamada a ser mãe de todos e que é sempre possível, em qualquer idade, descobrir-se filhos e filhas de Deus. Que este Dia seja, portanto, um estímulo para todos, em particular para os mais jovens, retomarem o bom hábito de visitar os seus avós, os idosos da família e também aqueles que não recebem nenhuma visita. Levai-lhes, com esta mensagem e com a vossa presença, a proximidade e o carinho do Papa“.
Trecho da mensagem do Papa Leão XIV, PARA O VI DIA MUNDIAL DOS AVÓS E DOS IDOSOS, a ser celebrado neste domingo 26 de Julho de 2026.
Diante dos desafios demográficos que o envelhecimento representa para todos os países e também para a Igreja Católica, em 31 de Janeiro de 2021, o Papa Francisco, sensibilizado pelo drama em que viviam ( e ainda vivem) milhões de pessoas idosas, instituiu o DIA MUNDIAL DOS AVÓS E DAS PESSOAS IDOSAS, a ser celebrado, tanto pela Igreja quanto por outras organizações e países no quarto domingo de Julho de cada ano.
A motivação para a criação deste DIA ESPECIAL, teve como base combater a cultura do descarte, quando as pessoas idosas são abandonadas, maltratadas, excluídas, discriminadas e consideradas um peso, um fardo para as famílias e para a sociedade e, diante disso, descartadas como objetos inservíveis.
Além disso, ao criar este dia também nos exortou a valorizar a sabedoria, a experiência e as realizações das pessoas idosas ao longo de suas vidas, na verdade Francisco também enfatizou a importância do encontro entre gerações tanto na Igreja quanto na sociedade, criando uma “cultura do encontro” em substituição `a “cultura do abandono e do descarte”.
Assim, o Dia Mundial dos avós e das pessoas idosas que no Brasil passou a ser uma jornada, com duração de um mês inteiro (Julho), teve como objetivos específicos a união e encontro das diferentes gerações, a valorização da família, evitar que cada vez mais as pessoas idosas vivam em situação de abandono e solidão, principalmente nos centros urbanos e ressaltar/destacar o papel dos avós na transmissão de valores éticos, morais, culturais e espirituais, bem como na sustentação da família como núcleo central da vida humana.
A Igreja, ao longo de séculos e milênios sempre esteve voltada para o cuidado dos pobres, dos excluídos, dos vulneráveis, dos injustiçados e, o grupo demográfico que mais tem sido excluído ao longo da história, principalmente nas últimas décadas, marcadas pela cultura de massa e pela era do mundo virtual e da inteligência artificial, tem sido as pessoas idosas, com 60 anos e mais, em decorrência de fatores econômicos, culturais, educacionais, financeiros ou de saúde, tendo em vista que o envelhecimento reproduz as mesmas estruturas sociais, políticas e econômicas que geram violência, miséria, fome e exclusão, em uma dimensão bem mais cruel.
Com certeza, para tomar esta decisão o Papa Francisco seguiu o Método da Igreja: Ver, Julgar/Iluminar e Agir. Analisar a realidade das pessoas idosas, iluminar este diagnóstico com a sabedoria divina dos textos sagrados e da experiência milenar da Igreja e propor ações concretas para resgatar a cidadania e a dignidade desta população fragilizada.
Analisando a realidade, com certeza percebeu que de um lado nos últimos 50 anos, mesmo que os índices de crescimento populacional tenham sido reduzidos, em função da queda dos índices de fecundidade e fertilidade, alguns segmentos demográficos tem crescido de forma mais significativa. Sendo este o caso da população idosa com 60 anos e mais.
Por exemplo, nas últimas cinco décadas, entre 1974 e 2024, o número de pessoas com mais de 60 anos praticamente triplicou, passou de aproximadamente de 320 milhões de pessoas em 1974, para aproximadamente 1,2 bilhão em 2024, de acordo com estimativas das Nações Unidas.
As projeções indicam um crescimento mais acelerado deste grupo demográfico nos próximos anos e décadas. Em 2030, a população mundial com 60 anos ou mais alcançará cerca de 1,3 bilhão de pessoas e em 2040 mais de 1,5 bilhão. Sendo que em alguns países a população idosa poderá representar mais de 40% do total populacional. Convenhamos, um enorme desafio para todos/todas.
Por exemplo, o Brasil, segundo projeções demográficas, em 2030 indicam que o nosso país estará entre os países com as maiores populações idosas do mundo, superior a 34 milhões de pessoas nessa faixa etária, podendo chegar a 55 milhões de pessoas com 60 anos e mais em 2040, ou seja, 25% da população total naquele ano.
Neste grupo, o número de pessoas com mais de 80 anos ou mais e também os centenários, tem apresentado um crescimento bem maior, demonstrando o tamanho deste desafio para as famílias, para os governos, para a sociedade e, claro, para a Igreja também.
Os maiores desafios serão, com certeza, o previdenciário e a saúde, que serão agravados com o abandono, o isolamento, a miséria e a falta de cuidado para este imenso contingente populacional. Enfim, um desafio ético e moral também.
Apenas para exemplificar, em 1974 o número de pessoas centenárias no mundo não chegava a 50 mil e em 2024 atingiu 576 mil pessoas, uma verdadeira “explosão” demográfica.
Diante desta realidade, a instituição deste Dia e Jornada Mundial também teve como objetivos a superação dos preconceitos e discriminação, o eterismo ou seja, como as pessoas idosas geralmente tem sido tratadas; esclarecer e combater estereótipos, estigmas e preconceitos etários presentes nas diversas culturas e ambientes e nas estruturas sociais, inclusive dentro da própria Igreja. Enfim, desenvolver uma “cultura do cuidado” em relação este enorme contingente populacional, como um ato de amor e de reconhecimento.
A Igreja no Brasil também, há algumas décadas, vem enfatizando a importância dos desafios socioambientais e também demográficos e, diante das transformações econômicas, sociais, políticas, culturais e religiosas a questão do envelhecimento e a situação das pessoas idosas, incluindo dos/das avós, tem sido objeto de reflexão e de ação por parte da mesma.
Esta foi a razão maior para a definição da Campanha da Fraternidade de 2003 cujo tema oficial foi “Fraternidade e as Pessoas Idosas” e o lema escolhido foi “Vida, Dignidade e Esperança”, tendo como objetivo principal despertar a Igreja, os fiéis, a sociedade e as comunidades de fé, inclusive em uma dimensão ecumênica e inter-religiosa para a necessidade da valorização integral da pessoa idosa, combatendo a invisibilidade, o abandono, os maus tratos, a exclusão, a violência contra idosos/idosas, além de promover o respeito aos seus direitos em um contexto de envelhecimento populacional com dignidade e cidadania.
Como ato concreto, ou seja, como resultado desta Campanha da Fraternidade de 2003, no ano seguinte, 2004 foi criada a Pastoral da Pessoa Idosa (PPI), aprovada pela Assembleia Geral da CNBB, no contexto da Ação Sociotransformadora da Igreja, hoje presente na grande maioria dos territórios eclesiais (Arquidioceses, Dioceses e Paróquias).
Voltando ao Dia e Jornada Mundial dos avós e das pessoas idosas, desde a primeira celebração até esta 6ª em 2026, para aprofundar as reflexões e orientar as ações voltadas para promover a defesa dos direitos e resgatar a dignidade dessa parcela da população que mais tem crescido e continua crescendo nas últimas décadas tem sido instituídos temas básicos.
Vejamos esses temas: 2021: “Eu estou contigo todos os dias“ (cf. Mt 28) focado na proximidade de Deus e da Igreja durante a pandemia; 2022: “Dão fruto mesmo na velhice“ (cf. Sl 92,15), sobre o valor e a fecundidade contínua dos idosos; 2023: “A sua misericórdia se estende de geração em geração“ (cf Lc 1,50), destacando a ligação entre jovens e idosos; 2024 “Na velhice não me abandones; (cf Sl 71,9); 2025: “Bem-aventurado aquele que não perdeu a esperança” (cf. Sir 14,2), voltado para o Ano Jubilar.
E, neste ano de 2026, o tema escolhido pelo Papa Leão XIV é “Eu nunca te esquecerei“ (Is 49,15), que enfatiza o amor fiel de Deus perante a fragilidade humana.
Para finalizar, transcrevo mais um trecho da mensagem do Papa Leão XIV, uma verdadeira exortação a todos/todas fiéis e também a hierarquia da Igreja, e a população mundial como um todo, para que não abandonemos nossos avós, e também todas as pessoas idosas, seja através de nossas ações pessoais, institucionais e também através da luta por políticas públicas, inclusivas, justas e transparentes, como formas concretas de resgatarmos a cidadania e a dignidade das pessoas idosas, inclusive dos avós, merecidamente, por tudo o que as mesmas já fizeram ao longo de suas existências.
Assim, nos exorta Leão XIV, “A Igreja conhece e reconhece o sofrimento dos seus filhos mais idosos, sabe bem que demasiadas vezes se olha para eles com preconceitos e são considerados um fardo; está ciente de que uma economia centrada no lucro, na ganância enfraquece os laços familiares; sabe que muitos idosos são maltratados, abandonados pelos filhos e pela família, obrigados a migrar ou, nalguns casos, a combater na guerra. Por cada uma destas razões, alegra-se em anunciar a promessa do Senhor: “Eu nunca te esquecerei!“.
Quero crer, também, que ao lutarmos pela construção da cultura da paz e da civilização do amor, precisamos reservar um lugar especial para nossos avós e para as pessoas idosas, este é mais um desafio para todas as nossas ações pastorais, principalmente na dimensão sociotransformadora.
Oxalá, jamais esqueçamos nossos avós e as pessoas idosas de nossas comunidades, nosso país, nossa Igreja, sejamos gratos pelo amor, pelo carinho, pela atenção e pelo cuidado, enfim, pelo exemplo que deles recebemos ao longo de nossas vidas.
*Juacy da Silva, 84 anos, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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