Artigo
A Igreja no Brasil 2026 – 2022 e a Pastoral de Conjunto
Autor: Juacy da Silva* –
Tendo em vista a publicação recente do DOC 114 pela CNBB, fruto da Aprovação da última Assembleia dos Bispos do Brasil, em Abril passado em Aparecida, seguindo exortações dos magistério dos Papas Francisco, Leão XIV e outros líderes espirituais da Igreja, bem como os fundamentos e diretrizes também aprovados pelo Concílio Vaticano II, e diversos documentos do CELAM (Puebla, Medellin, Santo Domingo e Aparecida), imaginamos que é imperioso e urgente aprofundarmos nosso entendimento de tais diretrizes, visando, principalmente ações sociotransformadoras, no contexto de uma pastoral de Conjunto.
Importante também é compreendermos os impactos produzidos na Igreja, principalmente na América do Sul e no Brasil em particular, pelo Sínodo dos Bispos da Pan Amazônia e a Exortação Querida Amazônia, do Papa Francisco; do Documento de Santarém (1992 e também 2022); das Encíclicas Laudato Si, Fratelli Tutti, Magnifica Humanista e das Exortações Apostólicas Laudate Deum (Papa Francisco) e Dilexi Te (Papa Leão XIV), verdadeiros faróis a iluminar a caminhada da Igreja em nosso país, pelos próximos seis anos.
Recentemente, o Padre Deudédist, Vigário Geral e também Administrador Apostólico da Arquidiocese de Cuiabá presidiu uma reunião com representantes de todas as pastorais sociais, organismos e movimentos de nossa Arquidiocese, visando este aprofundamento e o repensar de nossas ações pastorais, na dimensão de uma pastoral de Conjunto.
Vale dizer que o principal documento da CNBB sobre a pastoral de conjunto é o Plano de Pastoral de Conjunto (1966–1970), republicado no Plano Pastoral de Conjunto 1966-1970 – Edições CNBB (Documento da CNBB nº 77) que deveria ser um valioso subsídio nesta nova etapa da Caminhada da Igreja no Brasil, diante dos ensinamentos e exortação do Magistério do Papa Leão XIV e das Novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil para o período de 2026 – 2032, aprovadas pelos Bispos do Brasil, cabendo a todas as Arquidioceses, Dioceses, Paróquias e Comunidades Eclesiais ajustarem-se a esta nova jornada, atendendo e entendendo os sinais do tempo presente.
Estou coletando material para leitura e melhor compreensão desses assuntos e, em breve, pretendo escrever uma reflexão/artigo sobre como podemos avançar nesta caminhada.
Para tanto, elaborei uma arte, tendo como foco central o papel da Iniciação `a vida cristã, incluindo a Catequese e a importância de incluirmos nesses processos alguns temas importantes que, direta ou indiretamente, estão mencionadas de maneira explícita ou implícita nas DGAE da Igreja no Brasil.
Tais temas são, em princípio, os seguintes: Doutrina Social da Igreja, Justiça Social, Direitos Humanos, Ecologia Integral, Justiça climática e justiça intergeracional, cultura da Paz e Civilização do amor.
E, finalmente, como este processo de iniciação da vida cristão e da catequese, podem contribuir para uma fé engajada e libertadora, entre discípulos missionários, em uma Igreja Sinodal, Em saída e Profética, cujo símbolo desta Igreja é uma Tenda, que não comporta paredes e divisórias ou divisões e pode ser alargada para abrigar toda a humanidade, no contexto do ecumenismo e do diálogo inter-religioso e não apenas alguns que se julgam escolhidos.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste.
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Artigos
Somos muito mais do que as barreiras que enfrentamos
Autora: Iracema Paulino de Alencar* –
Nossa história como mulheres é marcada por resistência, coragem e conquistas. Sabemos que nenhum dos direitos que hoje exercemos surgiu por acaso. Cada espaço que ocupamos, cada oportunidade conquistada e cada avanço em direção à igualdade são resultados da luta de gerações de mulheres que vieram antes de nós e se recusaram a aceitar que nossos destinos fossem determinados por preconceitos, convenções sociais ou limitações impostas pela sociedade.
Essa luta continua e fazemos parte dela. Apesar dos avanços, ainda convivemos com o machismo, o racismo, a homofobia e tantas outras formas de discriminação que restringem oportunidades e ferem a dignidade humana. Reconhecer essas desigualdades, denunciá-las e combatê-las é indispensável. Mas acredito que existe outra dimensão dessa história que merece ser valorizada: somos muito mais do que as barreiras que enfrentamos. Somos mulheres que trabalham, estudam, amam, cuidam, lideram, fazem escolhas e transformam a realidade todos os dias.
O empoderamento feminino, reconhecido internacionalmente como um compromisso para o desenvolvimento das sociedades, não pode permanecer apenas no campo das declarações. Desde os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio até a Agenda 2030 das Nações Unidas, a igualdade de gênero ocupa lugar central na construção de um mundo mais justo. E essa igualdade se concretiza quando temos liberdade para fazer nossas escolhas, condições para desenvolver nossas capacidades e oportunidades reais de participar das decisões que afetam nossas vidas.
Falo disso não apenas como uma reflexão sobre a sociedade, mas a partir da minha própria história. Sou mulher negra, enfermeira e há 27 anos compartilho minha vida com outra mulher. Construí minha trajetória pessoal, familiar e profissional sabendo que vivemos em uma sociedade na qual o preconceito ainda está presente. Sei da importância de resistir, de defender direitos e de enfrentar as discriminações. Mas acredito que nossa existência não pode ser definida exclusivamente pelas dificuldades que encontramos pelo caminho.
Ao longo da vida, compreendi que resistir é necessário e que essa resistência se manifesta de muitas maneiras. Está na coragem de assumir nossas escolhas, na dedicação ao trabalho, na construção de uma família, na busca pelo conhecimento, na disposição de ocupar espaços e na responsabilidade com aquilo que fazemos. Não se trata de provar nosso valor a ninguém. Trata-se de exercer plenamente o direito de sermos quem somos, com dignidade, honestidade e liberdade.
Na enfermagem, profissão à qual dedico minha trajetória, essa reflexão encontra um significado especial. Somos uma categoria formada majoritariamente por mulheres, que historicamente desempenham um papel fundamental no cuidado à saúde da população. Mulheres que conciliam responsabilidades familiares, jornadas exigentes e desafios profissionais, muitas vezes sem o reconhecimento e as condições de trabalho que merecem.
A luta pela valorização da enfermagem é, portanto, parte dessa história mais ampla de busca por direitos e igualdade. Precisamos continuar enfrentando as desigualdades, defendendo condições dignas de trabalho, reconhecimento profissional e oportunidades de participação nos espaços de decisão. Mas precisamos igualmente reconhecer a capacidade técnica, o conhecimento, a liderança e o protagonismo das mulheres que fazem dessa profissão uma atividade essencial à sociedade.
Não acredito que exista uma única maneira de enfrentar as adversidades. Cada mulher carrega sua história, suas experiências e suas próprias formas de resistência. O que nos aproxima é o direito de sermos respeitadas em nossa diversidade e de encontrarmos oportunidades para construir nossos caminhos sem que nossa identidade seja transformada em obstáculo.
A verdadeira transformação social exige mais do que reconhecer as injustiças. Exige compromisso permanente para combatê-las, atitudes coerentes com os valores que defendemos e disposição para construir uma realidade na qual outras mulheres encontrem menos barreiras do que aquelas enfrentadas pelas gerações anteriores.
Continuarei acreditando na força da resistência, porque ela faz parte de quem somos e da história que nos trouxe até aqui. Mas acredito igualmente na força do trabalho, do conhecimento, do afeto, da solidariedade e da participação coletiva.
Somos muito mais do que as barreiras que enfrentamos. Somos as histórias que construímos, os direitos que defendemos e os caminhos que ajudamos a abrir para outras mulheres.
*Iracema Paulino de Alencar é enfermeira e obstetra, mestre e doutoranda em Saúde Coletiva pela UFMT, com trajetória na gestão pública, assistência, docência e formação em saúde.
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