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Dor na região anal: outro tabu que deve ser bem explicado

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Autor: Fernando Bray* –

Quando surge uma dor incômoda ou aguda na região anal, a reação quase automática de grande parte dos pacientes é culpar as hemorroidas. No entanto, a prática clínica mostra uma realidade bem diferente. Ao contrário do que se imagina, na maioria das vezes a dor anal não é causada por hemorroidas. O incômodo tem uma causa mais comum, que é a fissura anal.

A fissura anal funciona como um pequeno corte ou ferida localizada na transição entre a pele e a mucosa do canal anal. Por se tratar de uma região extremamente sensível e com muitos nervos, a lesão provoca dores intensas. A condição pode se apresentar de forma aguda ou evoluir para um quadro crônico.

Os fatores desencadeadores da fissura anal são diversos, mas entre os principais estão as fezes endurecidas ou volumosas, que exigem esforço excessivo durante a evacuação e acabam lesionando o canal. Outros três fatores recorrentes são as diarreias crônicas, uma vez que o excesso de atrito e a acidez das evacuações frequentes causam irritação e machucados; a higienização repetitiva com papel higiênico rígido, que agride a pele sensível da região; além de traumas locais, incluindo práticas como o sexo anal sem a devida lubrificação ou preparo.

Agora, todo e qualquer sinal de desconforto ou dor na região anal deve servir de alerta. E há diferenças no incômodo da fissura anal com o incômodo da hemorroida. Embora elas sejam muito populares, costumam causar dor apenas em situações específicas, como quando estão inflamadas ou acompanhadas de uma trombose hemorroidária externa, situação em que se forma um pequeno nódulo doloroso na borda do ânus. Assim, na ausência de qualquer caroço ou saliência palpável, a hipótese de fissura anal torna-se ainda mais provável.

Além das fissuras e da trombose hemorroidária, a dor anal é um sintoma comum a outras condições de saúde que necessitam de avaliação médica especializada. Nessa lista, estão o abscesso anal, uma infecção aguda em uma das glândulas do canal anal, que gera acúmulo de pus e dor pulsátil; a fístula anal, quando um canal anormal se forma ligando a parte interna do reto ou do canal anal à pele externa e, mais grave, os tumores do canal anal. Embora menos frequentes, lesões tumorais também podem se manifestar por meio do desconforto e devem ser diagnosticadas precocemente.

Feita a abordagem e explanação dos sintomas, falemos de tratamentos. Se sentir dor ao evacuar após um episódio de fezes ressecadas é um evento relativamente comum na vida de muitas pessoas, a boa notícia é que a medicina evoluiu significativamente no manejo dessas condições.

Atualmente, a prioridade nos consultórios é a adoção de tratamentos menos invasivos. O objetivo é garantir uma recuperação rápida e confortável, permitindo que o paciente retorne às suas atividades diárias e de trabalho sem interrupções ou períodos prolongados de repouso.

Ao notar dor persistente ou desconforto na região anal, o recomendável é evitar a automedicação e procurar um médico coloproctologista para obter o diagnóstico correto e indicar a melhor conduta terapêutica. Na prática médica não há tabus e não há necessidade de o paciente adiar a busca por tratamentos, especialmente com os recursos viabilizados com a evolução da medicina. O que está em jogo é sua qualidade de vida.

*Fernando Bray é médico, especialista em gastroenterologia cirúrgica e coloproctologia em São Paulo. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde

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Do piso ao descanso digno: os direitos da Enfermagem precisam ser respeitados

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Autor: Celso Silva dos Santos* –

Trabalhar na Enfermagem é conhecer de perto uma rotina de muita responsabilidade. Estamos ao lado dos pacientes durante todo o cuidado, em plantões que exigem atenção permanente, preparo técnico, equilíbrio emocional e disposição física. Por isso, quando falamos em valorização da Enfermagem, não podemos falar apenas de reconhecimento. Precisamos falar de direitos — e, principalmente, do cumprimento deles.

A criação do piso salarial nacional foi uma conquista histórica da categoria. A Lei nº 14.434/2022 estabeleceu o piso de R$ 4.750 para enfermeiros, com o equivalente a 70% desse valor para técnicos de enfermagem e 50% para auxiliares e parteiras. Mas ter uma lei não encerra a luta. O que precisamos é garantir que esse direito seja efetivamente respeitado e que chegue aos profissionais.

Em Mato Grosso, como em outras partes do país, ainda existem questionamentos e relatos relacionados à aplicação do piso. É justamente por isso que precisamos continuar atentos. Uma conquista dessa dimensão não pode permanecer sujeita a interpretações que, na prática, façam o trabalhador receber menos do que lhe é devido. O piso precisa significar segurança e valorização para quem está na ponta.

Mas salário digno é uma parte das condições necessárias para exercer a profissão.

Quem trabalha na assistência sabe o impacto de uma equipe insuficiente. Quando faltam profissionais, aumenta a sobrecarga sobre quem permanece no plantão. São mais pacientes para atender, menos tempo para cada cuidado e maior desgaste físico e emocional. O dimensionamento adequado das equipes não interessa somente aos trabalhadores: ele está diretamente relacionado à segurança e à qualidade da assistência prestada à população.

Condições dignas de trabalho envolvem estrutura, materiais e equipamentos adequados, segurança, respeito às jornadas e ambientes que permitam ao profissional desempenhar suas funções sem colocar a própria saúde em risco. Não podemos naturalizar a exaustão como se ela fizesse parte da profissão. Cuidar de pessoas exige condições para cuidar.

E existe outro direito que ainda precisa ser mais conhecido e, principalmente, cumprido: o descanso digno.

Desde 2023, a Lei nº 14.602 determina que instituições de saúde públicas e privadas ofereçam aos profissionais de Enfermagem condições adequadas de repouso durante o horário de trabalho. A própria legislação estabelece que esses espaços devem ser destinados especificamente ao descanso, ser arejados, contar com mobiliário adequado, conforto térmico e acústico, instalações sanitárias e dimensão compatível com o número de profissionais em serviço.

Isso não é luxo. Não é privilégio. E não deveria depender da boa vontade de uma instituição. É direito.

Depois de horas cuidando, medicando, acompanhando pacientes, respondendo a intercorrências e lidando com situações que muitas vezes envolvem dor e sofrimento, ter um espaço adequado para o período de repouso é uma questão de dignidade profissional. É, inclusive, uma forma de proteger a qualidade do cuidado prestado.

Como técnico de enfermagem, acredito que nossa categoria precisa conhecer seus direitos, defendê-los e cobrar para que sejam respeitados. Não podemos aceitar que aquilo que foi conquistado por lei permaneça distante da realidade de parte dos profissionais.

Do piso salarial ao descanso digno, passando por equipes adequadamente dimensionadas, segurança e boas condições de trabalho, estamos falando de direitos que se complementam.

Valorizar a Enfermagem é garantir que quem passa a vida cuidando das pessoas possa trabalhar com remuneração justa, estrutura, segurança, respeito e dignidade.

Direito conquistado precisa ser direito cumprido.

*Celso Silva dos Santos é técnico de enfermagem e atua há 18 anos na saúde em Mato Grosso.

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