Search
Close this search box.

Artigos

Wilson Pires de Andrade: – O QUE FOI O SALADEIRO?

Publicados

em

 

                  O QUE FOI O SALADEIRO?

Autor: Wilson Pires de Andrade

Instalado em 12 de junho de 1922, matadouro público, para abastecimento de carne da população cuiabana, ainda estava nas proximidades da “Boca do Valo”, em condições precárias de instalação e de higiene.

Daí as providências do Intendente Municipal (Designação dada, até pouco depois de 1920, aos chefes do poder executivo municipal, hoje chamados prefeitos), celebrando contrato com a firma Curvo & Irmãos, após a devida autorização da Câmara, removendo o matadouro para a margem direita do rio Cuiabá, no então terceiro distrito (Várzea Grande).

A partir de 1922, entrara a firma Curvo & Irmãos em ação, construindo o Saladeiro de material, coberto de zinco, com regular área de boa altura.

Feitos os currais, cercados, instalada a aparelhagem geral, iniciou-se o abate das reses, passando a ser feita a remessa dos quartos de bois para os açougues de Cuiabá, a princípio em pequena lancha, até o porto e, mais tarde em automóvel, diretamente ao açougue.

A firma Curvo & Irmãos compunha-se dos sócios João Barbuíno Curvo (Sinjão Curvo), depois virou um abastado atacadista da praça comercial de Cuiabá, na qual, com seus filhos, organizou a firma J. B. Curvo, todos integrados na lata sociedade da Capital mato-grossense.

Os outros dois sócios desse empreendimento foram Eugênio Agostinho Curvo e Plácido Flaviano Curvo que foram figuras de projeção dos meios comerciais e sociais de Cuiabá, destacando-se entre os filhos o jovem e educadíssimo, médico Dr. José Curvo.

Quando, em 1928, Sinjão Curvo, um dos dirigentes da firma, desligou-se dela pacificamente, ocupou seu lugar o irmão mais novo, Joaquim Agostinho Curvo, que logo passou para a direção do matadouro. Infelizmente foi o primeiro a desaparecer, na década de 1950, colhido pela fatalidade.

Inaugurado o Saladeiro em 1922, não tardou a aparecer a concorrência clandestina de antigos açougueiros, que não contando coma legalização para fornecimento de carne aos açougues de Cuiabá e faltando-lhes, dar condições de higiene nos lugares de abate de reses, abasteciam, assim mesmo os próprios açougues com os quartos de bois, que conduziam em carroças, de Várzea Grande para a Capital.

Durante dois anos, enquanto permaneceu o desentendimento, o Saladeiro sujeitou-se à charqueada, distribuindo carne em Cuiabá apenas aos seus açougues, a princípio em número de dois e, mais tarde, de quatro, obrigados que foram à montagem de mais estabelecimentos de distribuição do produto.

Em 1924, os advogados João Vilas Boas e Mário Mota defenderam a firma na justiça, entrando os açougueiros de Várzea Grande num acordo com os irmãos Curvo.

Nessa época já era açougueiro o senhor Generoso Malheiros, único a respeitar os direitos da firma, pois eram velhos amigos dos Curvo.

Recomeça, pois em 1924, a distribuição da carne verde aos açougues cuiabanos, sendo, talvez por isso que o serviço de estatística de Várzea Grande traga registrada a data de inauguração do Saladeiro a 15 de maio de 1924.

Decorreram vinte anos com altos e baixos, ataques de jornais à qualidade e ao atraso na entrega da carne aos açougues, concorrendo com outros abatedores de Várzea Grande e às variações de preço no comércio de gado.

A empresa lutou com dificuldades algumas vezes, fases essas amenizadas com os lucros resultantes da criação de porco e galináceos em regular quantidade, alimentados com os detritos das reses abatidas diariamente.

Pacatos e trabalhadores, os irmãos Curvo passaram a negociar até mesmo os chifres e os cascos das reses, tal a procura vinda mais tarde, e assim lograram vencer metade do prazo do contrato, em modestas condições de prosperidade.

Passados vinte anos, a firma conseguiu a renovação de contrato, mas, poucos anos depois, falecendo o sócio Joaquim Agostinho Curvo, o que conservava relativa mocidade e, portanto quem andava à frente dos negócios do abate das reses, eis que outros dois irmãos, já encanecidos (velhos) naquela luta e que eram mais dos escritórios, resolveram transferir os direitos da firma a Generoso Malheiros e Filho.

Com a inauguração da Sadia em 1977, quando o Saladeiro já não mais existia, sendo demolidos os paredões restantes das instalações que os irmãos Curvos construíram, apagou-se na memória de alguns, na grande Cuiabá, a lembrança dos serviços prestados pelo antigo matadouro, durante cerca de quarenta e cinco anos.

E nem se pode estabelecer confronto entre o moderno, para uma população dez vezes superior nos nossos dias, e o arcaico, que resolvia os problemas de 40 a 50 mil habitantes da Capital mato-grossense do passado.

Cada povo tem a sua época e atual e de renovação, mas para muitos cuiabanos dos velhos tempo ficou o respeito que se deve aos irmãos Curvos e recordações do velho Saladeiro, que eles com sacrifício construíram.

LOCALIZAÇÃO DO ANTIGO SALADEIRO

Em 1911, Várzea Grande passou a ser 3º Distrito de Cuiabá e a chácara do Isolamento como era chamado o local lhe pertencia por estar na margem direita do rio. Quatro anos depois, a 17 de novembro de 1915, essa área era reincorporada ao patrimônio do Estado, pelo decreto nº 413, face a dissolução da Sociedade Mato-grossense de Agricultura, com todas as benfeitorias que diga-se de passagem eram pouquíssimas.

Em 1921, pela resolução nº 854 de 7 de novembro, o governo cedeu os direitos de posse desse terreno à municipalidade de Cuiabá e pelo decreto da Intendência da Capital, de nº 592 de 12 de junho de 1922, era ali instalado o Matadouro Modelo dos Irmãos Curvos, que permaneceu no ramo até a década de 50, transferindo o a Firma Malheiros e Filho. Pela Lei já do Município de Várzea Grande, de nº 354 de 19/02/1968, na gestão da Prefeita Sarita Baracat, a referida área foi doada ao Grupo Frivar S/A, com o compromisso de instalar nela um Frigorífico com abate de bovinos e suínos.

Findo o prazo e não tendo sido possível cumprir o ajuste, entrou a Frivar em espécie de convênio com a Sadia Oeste S/A e a partir de 1972, por intermédio do empresário Ingo Klein, iniciaram-se as negociações com o município e contou com a colaboração imediata do prefeito que assumia em 1º de fevereiro de 1973, o jovem Júlio José de Campos. Com a significativa colaboração de Júlio Campos os trabalhos de instalações da Empresa se aceleraram e em 25 de novembro de 1977 foi inaugurado no bairro hoje chamado de Alameda Júlio Muller, que já teve o nome de Estrada do Saladeiro porém, não mais na margem do rio Cuiabá e sim em uma área alguns metros acima, que recebeu um enorme aterro e sobre este erigiram-se grandes depósitos, escritórios e demais instalações.

O casarão do antigo Saladeiro sito na barranca do rio, foi demolido e nada ficou do antigo Porto de Isolamento, senão as lembranças dos sombrios tempos das revoluções em Mato Grosso, ao romper do século.

Wilson Pires de Andrade é jornalista em Mato Grosso

Leia Também:  A liderança no ritmo do rock: lições dos palcos para as empresas

COMENTE ABAIXO:
Propaganda
Clique para comentar

Você precisa estar logado para postar um comentário Login

Deixe uma resposta

Artigos

Como a redução da jornada e escala de trabalho pode pesar no bolso do cidadão

Publicados

em

Autor: Jorge Gonçalves Filho*

Enquanto os debates em torno da PEC 221/2019, que propõe a redução da jornada e escala de trabalho, concentram-se fortemente nas reações do varejo, da indústria e de suas grandes associações patronais, um impacto profundo e silencioso ameaça o cotidiano da população. Para além das grandes linhas de montagem, há uma vasta cadeia de prestação de serviços essenciais que sentirá o golpe de forma imediata, transferindo o custo diretamente para o bolso do cidadão comum.

O setor condominial é um dos termômetros mais claros desse cenário. De acordo com dados do mais recente Censo Condominial 2025/2026, o Brasil conta com cerca de 327 mil condomínios, que servem de lar para, aproximadamente, 39 milhões de moradores. Dentro dessa estrutura, a mão de obra, composta por vigilantes, porteiros, profissionais de limpeza e zeladores, representa a maior fatia das despesas ordinárias, alcançando cerca de 70% dos custos totais de manutenção.

Estudos setoriais indicam que a adaptação da escala de trabalho às novas exigências da PEC gerará um incremento de 20% a 23% no custo da mão de obra. O reflexo dessa conta é matemático e inevitável: estima-se um aumento médio de 14% na taxa de condomínio.

O impacto social da medida é que para uma parcela significativa dos 39 milhões de residentes, muitos dos quais já enfrentam o endividamento e a perda do poder de compra, esse reajuste pode ser o gatilho para a inadimplência, inviabilizando o pagamento dos boletos mensais de condomínio e desestabilizando a saúde financeira das comunidades.

O governo não poderá dizer que não haverá aumento do custo de vida, incluindo os serviços públicos, os quais, quem paga, são os contribuintes. O texto da proposta deixa explícito o seu alcance sobre os serviços públicos. Conforme estabelece o artigo 9º da PEC: nos contratos celebrados pela administração pública direta e indireta, no âmbito da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, vigentes na data de publicação desta Emenda Constitucional e cuja execução envolva emprego direto de mão de obra, as disposições relativas à redução da duração do trabalho normal serão aplicadas após aditamento contratual para manutenção do equilíbrio econômico-financeiro.

Na prática a manutenção do equilíbrio econômico-financeiro significa uma única coisa: as empresas terceirizadas que prestam serviços públicos para condomínios, hospitais, escolas, segurança e órgãos públicos repassarão o custo do aumento da mão de obra. Quem pagará a conta?

Como o Estado não gera riqueza própria, o fechamento dessa conta se dará por duas vias conhecidas: a piora na qualidade dos serviços prestados ou o aumento da carga tributária. No fim, o contribuinte é quem pagará uma conta para a qual não foi consultado, evidenciando que a reforma, se aprovada sem amortecedores econômicos, cobrará um preço alto de toda a sociedade. E o povo precisa saber disto.

*Jorge Gonçalves FilhoPresidente do IDV – Instituto para Desenvolvimento do Varejo

COMENTE ABAIXO:
Leia Também:  Eluise Dorileo: - Constelação Familiar ganha espaço nas soluções sistêmicas de problemas
Continue lendo

MAIS LIDAS DA SEMANA