Artigo
Testosterona não é sinônimo de mais saúde
Autora: Mariana Ramos* –
Mais disposição, aumento da massa muscular, redução da gordura corporal, melhora da libido e maior desempenho físico. Nos últimos anos, a testosterona passou a ser associada a uma série de benefícios que ajudam a explicar por que o hormônio ganhou tanta visibilidade, especialmente nas redes sociais. O problema começa quando uma substância que tem indicações médicas específicas passa a ser tratada como uma espécie de atalho para melhorar o corpo e a qualidade de vida.
Testosterona é hormônio, não suplemento. E essa diferença precisa estar muito clara.
Nos homens, a testosterona é produzida principalmente pelos testículos, enquanto nas mulheres é produzida principalmente pelos ovários. As glândulas adrenais também contribuem para sua produção em ambos os sexos. A testosterona participa de diversas funções, estando relacionada à saúde sexual e reprodutiva, à manutenção da massa muscular e óssea, à produção de células sanguíneas e a outros processos importantes do organismo.
Existem situações em que a deficiência de testosterona é real e necessita de tratamento. Nos homens, o hipogonadismo ocorre quando o organismo não produz níveis consistentemente baixos do hormônio e existem sinais e sintomas compatíveis com essa deficiência. Nesses casos, depois de uma investigação correta, a reposição pode proporcionar benefícios e melhorar a qualidade de vida.
A questão é que sintomas como cansaço, indisposição, diminuição da libido, dificuldade de concentração e perda de força não são exclusivos da deficiência de testosterona. Eles também podem estar relacionados à obesidade, alterações da tireoide, diabetes, distúrbios do sono, estresse, depressão, alimentação inadequada, uso de determinados medicamentos e diversas outras condições.
Por isso, não se diagnostica deficiência hormonal apenas porque uma pessoa está cansada ou porque deseja melhorar seu desempenho físico. Os sintomas precisam ser avaliados em conjunto com exames que demonstrem níveis de testosterona consistentemente baixos.
Também não devemos interpretar um resultado laboratorial isoladamente. Os níveis de testosterona podem sofrer variações e precisam ser avaliados de acordo com o horário da coleta, sintomas, idade, condições clínicas e outros exames. Quando existe suspeita de deficiência, o diagnóstico deve ser confirmado com pelo menos duas dosagens de testosterona realizadas pela manhã, antes que o tratamento seja iniciado. Quando há deficiência, a investigação deve buscar também o motivo daquela alteração.
Esse cuidado se tornou ainda mais necessário diante da popularização do uso de testosterona para finalidades que vão além das indicações médicas reconhecidas. A ideia de que elevar o hormônio necessariamente fará uma pessoa se sentir melhor é uma simplificação perigosa.
Quando o organismo já possui níveis adequados, aumentar artificialmente a testosterona não significa automaticamente ter mais energia, mais saúde ou melhor qualidade de vida. Além disso, o uso de doses superiores às necessárias pode aumentar o risco de efeitos adversos.
O uso inadequado pode provocar alterações na produção de células sanguíneas, acne, mudanças na fertilidade e supressão da produção natural de testosterona, entre outras consequências. A terapia também exige avaliação de possíveis contraindicações e acompanhamento médico durante o tratamento.
Há ainda um aspecto que merece especial atenção entre homens mais jovens: a fertilidade. O uso de testosterona externa pode reduzir a produção de espermatozoides. Portanto, homens que desejam ter filhos precisam informar esse planejamento ao médico antes de iniciar qualquer terapia hormonal. A testosterona exógena não deve ser prescrita para homens que estejam planejando fertilidade no curto prazo.
Outro equívoco frequente é enxergar a testosterona como tratamento para emagrecer. Embora exista uma relação entre composição corporal, obesidade e níveis hormonais, testosterona não deve ser prescrita simplesmente como medicamento para perda de peso. Em pacientes com obesidade e níveis reduzidos do hormônio, o tratamento da própria obesidade e a melhora dos hábitos de vida podem contribuir para a recuperação dos níveis de testosterona em determinadas situações.
O mesmo raciocínio vale para ganho de massa muscular. Exercício físico, alimentação adequada, sono e tratamento de eventuais doenças são pilares para preservar e aumentar massa muscular. Utilizar hormônio sem deficiência diagnosticada com o objetivo de acelerar resultados muda completamente a relação entre possíveis benefícios e riscos.
É importante destacar que a discussão não deve transformar a testosterona em vilã. Para quem realmente apresenta deficiência hormonal e indicação médica, ela é uma opção terapêutica importante. O problema não está na existência do tratamento, mas na utilização sem diagnóstico, acompanhamento e necessidade clínica.
Na endocrinologia, não tratamos apenas o número apresentado no exame. Precisamos entender os sintomas, investigar suas possíveis causas e avaliar o paciente de maneira integral.
Antes de perguntar se a testosterona pode proporcionar mais disposição, músculos ou libido, existe uma pergunta anterior e muito mais importante: há realmente uma deficiência de testosterona que precisa ser tratada?
Quando a resposta é sim, existe tratamento e acompanhamento. Quando a resposta é não, adicionar hormônio não significa acrescentar saúde.
*Dra. Mariana Ramos é endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá-MT.
Artigos
DESAFIOS E PERSPECTIVAS EM UMA IGREJA SINODAL, SAMARITANA E PROFÉTICA
Autor: Juacy da Silva* –
RESUMO
Este artigo reflete sobre um dos maiores desafios que a Igreja enfrenta atualmente que é a importância da formação de leigos e leigas para atuação nas pastorais sociais, à luz do Concílio Vaticano II, do Documento de Santarém (1972-2022), do magistério do Papa Francisco e do Papa Leão XIV e das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE 2026-2032, Doc. 114 CNBB).
Argumenta-se que a eficácia, eficiência e efetividade das pastorais sociais dependem da superação do voluntarismo e do clericalismo por meio de planejamento estratégico e formação continuada.
Apresenta-se o histórico das pastorais sociais no Brasil a partir da década de 1970 e seus desafios contemporâneos, como a escassez de recursos e quadros técnicos. Como proposta concreta, defende-se a implementação de cursos de curta e média duração (12h a 60h) voltados à elaboração, gestão e captação de recursos para projetos sociotransformadores, em perspectiva ecumênica e sinodal, com opção preferencial pelos pobres e defesa da ecologia integral. Palavras-chave: Leigos. Pastorais Sociais. Formação. Sinodalidade. Doutrina Social da Igreja.
ABSTRACT
This article reflects on the importance of training laypeople for work in social ministries, in light of Vatican II, the Santarém Document (1972-2022), the magisterium of Pope Francis and Pope Leo XIV, and the General Guidelines for the Evangelizing Action of the Church in Brazil (DGAE 2026-2032).
It argues that the effectiveness of social ministries depends on overcoming voluntarism and clericalism through strategic planning and continuing education.Keywords: Laypeople. Social Ministries. Training. Synodality. Catholic Social Teaching.
1. INTRODUÇÃO
“Mas os leigos são especialmente chamados a tornarem a Igreja presente e ativa naqueles locais e circunstâncias em que só por meio deles ela pode ser o sal da terra“ (Lumen Gentium, 33).
Esta afirmação conciliar, passados quase 60 anos, mantém sua atualidade e urgência.
Ao celebrarmos os 50 anos do Encontro de Santarém (1972-2022) e ao iniciarmos a vivência das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (DGAE 2026-2032), torna-se imprescindível refletir sobre o papel do laicato nas pastorais sociais.
Este artigo tem como objetivo analisar os fundamentos teológicos da formação laical e propor caminhos concretos para qualificar a ação sociotransformadora da Igreja no Brasil, em fidelidade à sua identidade sinodal, samaritana e profética.1.
2.FUNDAMENTAÇÃO TEOLÓGICA E ECLESIAL: DO VATICANO II A SANTARÉM
A Constituição Dogmática Lumen Gentium, promulgada por Paulo VI em 21 de novembro de 1964, consagrou o protagonismo dos leigos como “testemunha e instrumento vivo da missão da própria Igreja” (LG, 33, cf. Ef 4,7).
Este ensinamento foi retomado com vigor no IV Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal, em Santarém, em 2022, que celebrou os 50 anos do histórico encontro de 1972.
O Documento de Santarém afirma: É preciso investir mais recursos na formação dos cristãos leigos e leigas nos diversos campos da teologia, bíblia, pastoral, espiritualidade e na Doutrina Social da Igreja.
O encontro motivou o fortalecimento na formação de leigos e de leigas, para que sejam missionários e missionárias respondendo às exigências da missão na Amazônia (CNBB, 2022, n.50).2. O MAGISTÉRIO RECENTE E AS DGAE 2026-2032
O pensamento do Papa Francisco sobre a formação do laicato está alicerçado na eclesiologia do povo de Deus e na opção preferencial pelos pobres. Para Francisco, os leigos não são meros colaboradores da hierarquia eclesiástica, mas sujeitos ativos e protagonistas da evangelização e da transformação social.
Na mesma linha, o Papa Leão XIV tem insistido que os leigos são os protagonistas centrais na missão transformadora da Igreja, cujo engajamento nas pastorais sociais exige sólida formação fundamentada no sacerdócio batismal, na Doutrina Social da Igreja e nos direitos humanos.
Leão XIV defende que a formação laical não deve ser doutrinação passiva, mas cultivo do pensamento crítico e da corresponsabilidade.
Os bispos do Brasil, na Assembleia Geral da CNBB em Aparecida, em abril de 2025, ao aprovarem as DGAE 2026-2032 (Doc. 114), enfatizaram:
“A missão própria dos cristãos leigos e leigas os envia a atuar de modo transformador nos muitos espaços onde a vida acontece: na família, no trabalho, na economia, na cultura, na educação, na política, nas artes e ciências, na comunicação e no cuidado com a Casa Comum“ (DGAE, n.72, cf. Documento de Aparecida, 174).
3. PLANEJAMENTO E AÇÃO: SUPERANDO O VOLUNTARISMO
No contexto das pastorais sociais, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que ação sem planejamento é mero voluntarismo e não conduz a resultados sociotransformadores. De outro lado planejamento sem ação é mero gasto de energias mentais e torna-se estéril.
Só a ação bem planejada, com visão de futuro, de longo prazo, guiada por objetivos claros, podem transformar as estruturas que geram pobreza, fome, miséria, violência, exclusão política, social e econômica, além da degradação da ecologia integral, nossa Casa Comum, locus da ação evangelizadora da Igreja.
É importante mencionarmos o que disse, recentemente o Papa Leão XIV:
“Devemos empenhar-nos cada vez mais em resolver as causas estruturais da pobreza. É uma urgência que não pode esperar, e não apenas por uma razão pragmática de obter resultados e ordenar a sociedade, mas também para curá-la de uma mazela que a torna frágil e indigna e que só poderá leva-la a novas crises” Dilexi Te, (Sobre o Amor para com os Pobres), 94, 2025.
4. OS DESAFIOS DAS PASTORAIS NA DIMENSÃO SOCIOTRANSFORMADORA
Como resposta à crise política, social e econômica e à efervescência do Concílio Vaticano II, a Igreja no Brasil estruturou as pastorais sociais na década de 1970. Esta atuação representou a transição da caridade assistencial tradicional para a defesa dos direitos humanos.
Cabe aqui também enfatizar os níveis da caridade: assistencial, promocional e libertadora, cabendo a esta última indicar os caminhos para uma ação que transforma as estruturas que geram a pobreza, inclusive “a economia que mata” ou “economia da morte” da qual tanto falou o Papa Francisco.
Datam desta época: CIMI – Conselho Indigenista Missionário (23 de abril de 1972), Pastoral Carcerária (1972), CPT – Comissão Pastoral da Terra (junho de 1975), Pastoral da Moradia e Favela e Pastoral do Menor (1977), Pastoral da Criança (1983), Pastoral do Meio Ambiente, hoje Pastoral da Ecologia Integral (1986), Pastoral Afro-Brasileira (1988).
Contudo, as pastorais enfrentam desafios históricos: resistência das comunidades, precariedade de recursos humanos, técnicos e financeiros, e, sobretudo, o clericalismo.
Como afirmou o Papa Francisco:
“O clericalismo, que não é só dos clérigos, é um comportamento que diz respeito a todos nós: o clericalismo é uma perversão da Igreja” (Discurso no Circo Máximo, Roma, 11 de agosto de 2018). Soma-se a isso a falta de quadros técnicos para captação de recursos e elaboração de projetos, o que gera ações fragmentadas e descontinuadas.
5. PROPOSTA: UMA ESCOLA DE FORMAÇÃO PARA AS PASTORAIS SOCIAIS
Para superar essas dificuldades, propomos um itinerário formativo modular, de curta e média duração (12h a 60h), destinado a agentes e coordenadores de todas as pastorais sociais, movimentos e organismos da Igreja, cujas ações estejam voltadas para os pobres e excluídos, com os seguintes eixos: a) Fundamentos bíblico-teológicos, Doutrina Social da Igreja e Direitos Humanos; b) Planejamento estratégico e elaboração de projetos (Marco Lógico); c) Captação de recursos, parcerias e prestação de contas; d) Gestão, monitoramento e avaliação; e) Espiritualidade encarnada, ecologia integral e cidadania.
É fundamental desenvolver o trabalho em rede e parcerias entre pastorais, organismos e movimentos, com possibilidades ecumênicas, inter-religiosas e com a sociedade civil – ONGs, clubes de serviço, sindicatos e coletivos sociais.
CONCLUSÃO
Sem formação, as ações das pastorais sociais perdem muito de sua eficácia, eficiência e efetividade, reduzem e distanciam a presença da Igreja junto aos pobres e excluídos.
Investir na formação de leigos e leigas não é gasto, mas investimento na credibilidade e na fidelidade da Igreja ao Evangelho de Jesus Libertador.
Uma Igreja sinodal é aquela que caminha junto; samaritana, porque cuida com proximidade; e profética, porque denuncia as mazelas e injustiças e anunciadas boas novas de um novo mundo possível, através da Cultura da Paz e da Civilização do Amor, conforme nos indica e sugere Leão XIV na recente Encíclica Magnifica Humanitas Capítulo V.
Somente com leigos e leigas bem formados, com consciência crítica, competência técnica, coragem e uma espiritualidade encarnada, poderemos vivenciar, na prática, a opção preferencial pelos pobres, não de forma assistencialista ou paternalista, mas como caminho de libertação integral.
Eis um dos grandes desafios que as DGAE 2026-2032 nos apresentam como caminho a ser seguido pelos próximos seis anos pela Igreja no Brasil.
REFERÊNCIAS
CNBB. Documento de Santarém 50 anos. Gratidão e Profecia. IV Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal. Brasília: Edições CNBB, 2022.CNBB.
Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032. Doc. 114. Brasília: Edições CNBB, 2025.
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja. Roma, 21 nov. 1964.
FRANCISCO, Papa. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Roma, 2013.
FRANCISCO, Papa. Discurso aos jovens italianos no Circo Máximo. Roma, 11 ago. 2018.
Leão XIV, Papa Dilexi Te, Exortação Apostólica, Roma 2025
Leão XIV, Papa Magnifica Humanitas, Encíclica, Roma 2026
*Juacy da Silva, professor titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro-Oeste.
E-mail: [email protected]
Instagram: @profjuacy
WhatsApp: (65) 9 9272-0052
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