Artigo
Saúde mental e infertilidade
Autora: Sabrina Alvernaz* –
Descobri, já era tarde, que havia uma palavra para mulheres como eu: “tentante”. O termo, aparentemente inofensivo, carrega em si a falta, a espera e, sobretudo, a dúvida sobre se um dia se poderá ser mãe.
Ao ouvir pela primeira vez essa nomenclatura, numa terapia de grupo, percebi que me recusar a usá-la era também uma forma de resistência: eu não queria que minha identidade fosse definida pela ausência de um filho. Não queria que o peso da tentativa me colocasse, desde já, na categoria das que talvez nunca consigam.
Pouco se fala sobre a infertilidade e muito menos sobre os caminhos tortuosos da fertilização in vitro. E, quando se fala, parece sempre haver a expectativa de um desfecho feliz – o bebê nos braços, a vitória. Mas e quem fica no meio do caminho? Quem escreve ainda em processo, com dúvidas, dores e esperanças, sem saber o que há por vir?
É uma etapa da vida que mexe profundamente com a visão de corpo saudável, com a autoestima, gera sentimentos de culpa e sofrimento diante da pressão social e familiar. Não raro, gera aumento da ansiedade e de quadros depressivos. Quem cuida da saúde mental dessas mulheres?
Dados da Associação Brasileira de Reprodução Assistida – SBRA mostram que o setor da reprodução assistida deverá crescer, em média, 23% ao ano até 2026.
No nosso país, a reprodução assistida é tratada como luxo. A FIV é vista quase como capricho, quando, em países como a Dinamarca, o Estado financia o tratamento.
Aqui, mulheres que não podem arcar com o procedimento privado simplesmente não terão acesso à maternidade biológica.
– Somam-se a isso protocolos desumanos: para receber um medicamento fundamental, como a enoxoparina sódica, o SUS exige a comprovação de três abortos anteriores, mesmo quando há diagnóstico prévio de condições genéticas que aumentam o risco de perda gestacional. A dor vira requisito burocrático?
Penso na precariedade de recursos que marca a saúde pública no Brasil, ainda que seja referência mundial. E penso também em como um país que segue dependente da exportação de commodities, sem investir em ciência e tecnologia de ponta, repete sua negligência sobre os corpos das mulheres.
A infertilidade não é falha individual: é também reflexo de uma sociedade que insiste em tratar os direitos reprodutivos como perfumaria.
*Sabrina Alvernaz é Doutora em Literatura pela UFSC, título obtido em 2023, com tese indicada ao Prêmio CAPES de Tese 2024. Graduada em Letras pela UERJ em 2008 e Mestre em Estudos da Linguagem pela PUC-Rio em 2011, tem mais de dez anos de experiência como pesquisadora e professora em instituições federais. Publicou “Sangue, cauim e cerveja” em 2015 e atuou como roteirista e diretora de curtas-metragens, entre eles “Agahü: o sal do Xingu” (2020). Nascida em Rio Bonito, no Rio de Janeiro, vive atualmente em Laguna, Santa Catarina.
Artigos
Bom tempo
Autora: Valéria del Cueto* –
Depois de um verão para lá de quente parece que deu uma refrescada! Por vários meses até os animais sumiram de circulação.
Só conseguia detectar o ciciar das cigarras anunciando o bom tempo, o coaxar da saparada de noite e, claro, uma quantidade incrível de mosquitos que dominava o ambiente mal o sol se escondia.
Bastava chegar a primeira sombra atrás da linha da vegetação da morraria e lá estavam eles. Grandes, médios e os mais microscópicos e doídos, os donos das noites encaloradas…
Vi a primeira mudança quando
detectei as lagartas se fartando na samambaia da varanda, apelidada de
latifúndio. Uma ironia referente a seus poucos metros quadrados. A maioria é
ocupada por plantas que me acompanham há vários anos. Incluindo uma chorona
que, diz a lenda, tem a minha idade!
Confesso que eliminei várias
lagartas comilonas de diversos tamanhos, impedindo a metamorfose de algumas
borboletas.
Entre elas e as plantas que vieram da casa da minha avó, passaram pelo apartamento do Leme, depois foram para Araras e, agora, habitam o pé da serra, adivinha? Preferi zelar pela saúde das antigas companheiras.
O tempo anda firme, porém mais
ameno. O que atraiu, por exemplo, as formigas de várias tribos e
periculosidades.
Elas passaram a circular intensamente no deque se arriscando a passear pela canga em que gosto de me deitar apoiada numa pedra para ler embalada pelo barulho das águas do rio correndo entre as pedras.
Não satisfeitas em devorarem as plantas específicas, como as folhas das Lágrimas de Cristo (até hoje não floriram, então, não sei se as flores são brancas ou vermelhas), começaram a expandir suas moradas. No gramado o combate à expansão imobiliária dos formigueiros passou a ser incessante.
A natureza está despertando
depois desse verão tórrido?
Que o digam os morcegos e seus rasantes no final do dia. Começaram a ser assunto constante nas conversas pelos arredores. Os moradores relatam a ocupação e os problemas causados nos telhados.
Quando não é morcego, são os
gambás. Um vizinho até achou bonitinho saber que tinha um instalado no forro da
sua casa. Até a hora que descobriu que os habitantes haviam se multiplicado.
Era, agora, uma família. E numerosa!
Outro dia, a gatinha da casa em
frente estava ressabiada, rodeando sem chegar no cômodo onde costuma dormitar
durante o dia.
Bastou uma inspeção cuidadosa
para parecer a ponta de um rabo perto da porta. Debaixo do sofá surgiu uma
cobra com pinta de coral. Depois, devidamente anaquilada e analisada,
concluíram que era falsa. O susto foi grande!
Nem todos os animais são peçonhentos ou perigosos.
Além das borboletas, os
passarinhos também estão mais animados e cantadores.
Volta e meia um confunde a orientação do voo e dá um encontrão nos vidros das janelas. Eles se iludem com as árvores próximas refletidas. Já descobri que a ilusão de ótica aumenta se as cortinas estão abertas. Por isso, as mantenho semicerradas.
No rio que limita a casa tem mais
movimento de peixes médios e peixinhos passeando entre as corredeiras.
A novidade é um cágado que escolheu uma pedra para lá da curva, margeando a estrada, para tomar sol todas as manhãs. Arisco, é muito difícil ele deixar registrar sua presença. Ainda não desisti da missão, apesar de nossos horários estarem desconectados. Ele chega cedo e eu durmo até tarde.
O cágado é tão rápido quanto os
lagartos que habitam a toca perto da garagem. Não são tão grandes quanto os
teiús que circulam pela rua não asfaltada na lateral da casa, nem tão pequenos
quanto as lagartixas que cultivo e respeito profundamente.
Outro dia vi que a família dos
lagartos também está crescendo. Um filhote passou raspando entre as rodas de
pedra do antigo moinho desativado, guardadas como recordação na entrada da
oficina ao lado da garagem.
Agora, com o outono pela metade a vida volta a pulsar no pé da serra, não tão forte quanto antigamente.
Já foi confirmado, constatado e concluído que o El Niño está chegando. Teremos (mais)um inverno aquecido e com temperaturas acima da média.
Pensando bem, nos últimos anos sempre tem algum elemento que garante o aumento da temperatura no planeta, já reparou?
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com
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