Artigo
Saúde indígena: precisamos transformar indignação em ação
Autor: Marco Antonio Norberto Felipe* –
Existem experiências na gestão pública que nos marcam não apenas como gestores, mas como seres humanos. Recentemente, conheci de perto uma realidade da saúde indígena em Mato Grosso que me deixou profundamente impactado.
Vi indígenas doentes em condições inadequadas de atendimento. Vi crianças, famílias e uma estrutura muito distante da dignidade que defendemos para qualquer cidadão. Faltam medicamentos, profissionais e infraestrutura. Diante daquela realidade, senti indignação, mas também responsabilidade.
Como secretário municipal de Saúde de Nova Ubiratã e presidente do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Mato Grosso (Cosems/MT), não posso simplesmente olhar para uma situação como essa e dizer que o problema pertence a outro ente ou instituição. Quando o cuidado não chega a quem precisa, todos nós que fazemos parte do SUS precisamos nos perguntar o que podemos fazer para mudar essa realidade.
Foi desse incômodo que nasceu a decisão de promover, pela primeira vez no Cosems/MT, uma reunião temática voltada especificamente à saúde indígena. Um encontro pensado para reunir gestores e instituições, compreender responsabilidades, discutir dificuldades e, sobretudo, construir caminhos.
Temos desafios que precisam ser enfrentados com urgência e um deles é a falta de integração das informações. Quando os sistemas não conversam, municípios encontram dificuldades para acompanhar dados de vacinação, gestantes e outros indicadores fundamentais. Sem informação confiável, também fica mais difícil planejar e organizar a assistência.
Também precisamos avançar na regulação, na Atenção Primária, no acesso aos serviços e na articulação entre municípios, Estado, União, Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). A saúde indígena exige diálogo, corresponsabilidade e, acima de tudo, respeito às particularidades culturais de cada povo.
Sabemos que uma reunião não resolverá problemas acumulados ao longo de anos, mas ela pode representar um ponto de partida. E esse encontro não pode terminar apenas com novos discursos ou com a marcação de outra reunião.
Saímos dele com compromissos, encaminhamentos e ações. Se for necessário levar as demandas para outras instâncias, vamos levar. Se for preciso rever fluxos e cobrar respostas, vamos fazer. O importante é que aquilo que discutimos vai, com certeza, produzir mudanças concretas na vida das pessoas. Esse foi um dos principais compromissos que procurei deixar durante o encontro.
Por trás de cada dificuldade que debatemos existem crianças, mães, idosos, famílias e comunidades inteiras esperando por um atendimento digno. Ressalto que, o que presenciei, me marcou profundamente, mas não quero que essa experiência permaneça apenas como uma lembrança difícil da minha trajetória como gestor. Quero que ela se transforme em mobilização.
Não podemos mudar aquilo que já aconteceu, mas podemos decidir o que faremos a partir do que vimos. E o Cosems/MT assume esse compromisso, que é contribuir para que instituições e gestores caminhem na mesma direção, para que os povos indígenas tenham assegurado aquilo que é princípio do SUS e direito de todos, acesso à saúde com equidade, respeito e dignidade.
*Marco Antonio Norberto Felipe, presidente do Cosems/MT e secretário municipal de Saúde de Nova Ubiratã
Artigos
A herança fiscal do atual governo que ameaça o futuro do Brasil
Autor: Ives Gandra da Silva Martins* –
Diante do descalabro da atual gestão no que diz respeito às finanças públicas, resolvi reforçar um alerta que vem sendo feito por economistas, jornalistas, professores, juristas e especialistas: o governo que assumir os destinos do Brasil em 2027 terá de aplicar um choque econômico dramático sobre o povo brasileiro.
O presidente Lula entregará o poder ao próximo presidente ou, se for reeleito, enfrentará uma gestão absolutamente descompassada do ponto de vista financeiro. A dívida do Brasil está crescendo cada vez mais, e a atividade econômica, caindo progressivamente. Os juros estão sempre altos, e não há condições de serem reduzidos.
O Brasil hoje deve o equivalente a 83% do PIB nacional, e isso terá de ser pago. Calcula-se que esse número deverá aumentar até 2029, se o país continuar nesse ritmo.
O governo anterior, do Presidente Bolsonaro, deixou as contas com um superávit de R$ 54 bilhões, que o atual governo fez desaparecer já no primeiro ano. Ao continuar gastando compulsivamente, o Executivo vem gerando déficits sucessivos. Isso mostra que esse descompasso, este desgoverno, este descalabro e essa desastrosa política financeira de gastar sem controle e sem receita correspondente vão gerar um imenso caos.
Na Assembleia Nacional Constituinte, participei da comissão que tratou do setor financeiro e fui ouvido em diversos momentos, particularmente no que diz respeito ao Título VI da Carta Magna (da Ordem Financeira e Tributária). Nós, que integramos a comissão, especialmente o jurista Décio Miranda, dizíamos:
“Agora não haverá mais déficit, porque a Constituição estabeleceu que nada pode ser feito sem os recursos devidos; é preciso ter as fontes necessárias“.
Entendíamos, pelo texto dos artigos 165 a 169 da Constituição Federal que o endividamento seria uma exceção. Jamais imaginamos um endividamento de tal proporção quanto o que existe hoje, transformado em algo tão normal, natural e corriqueiro a ponto de crescer continuamente. Esse quadro se reflete na Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), que atingiu 82% do PIB recentemente (82,9% do PIB (equivalente a R$ 11,1 trilhões) em agosto de 2026, segundo dados oficiais divulgados pelo Banco Central) e deve ultrapassar 83% até o fim do ano.
Cabe recordar aqui as palavras certeiras do embaixador e economista Roberto Campos, que sintetizou com precisão cirúrgica os perigos da hipertrofia estatal e da irresponsabilidade orçamentária: “O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito. O que ele nos pode dar é sempre menos do que nos pode tirar“. Quando os governantes se julgam acima dos limites aritméticos impostos pela realidade, o Estado deixa de ser o indutor do progresso para se tornar o grande devorador da riqueza nacional.
Essa marcha irresponsável rumo ao abismo fiscal demonstra o desapego com a matemática elementar e com o próprio bem-estar das gerações vindouras. A ilusão demagógica de que o Estado possui recursos infinitos para custear o voluntarismo político invariavelmente desemboca no confisco silencioso promovido pela inflação, na carestia do crédito e no empobrecimento generalizado da população mais vulnerável.
A restauração do equilíbrio fiscal não é apenas uma diretriz econômica fria ou uma exigência de mercados financeiros; é um dever moral e uma imposição pétrea do texto constitucional. Se o Congresso Nacional e a sociedade civil não impuserem barreiras firmes à gastança desmedida e à erosão da responsabilidade fiscal, o Brasil continuará a ser o país do futuro que nunca chega — condenado a pagar eternamente a conta do populismo de hoje com o sacrifício do amanhã.
Não é possível que o presidente da República não tenha percebido — após ser alertado por todos os grandes economistas, juristas e editoriais dos principais jornais do país — que levou o Brasil para a beira do precipício.
É preciso considerar que, se ele for reeleito com essa mentalidade de gastar sem a devida cobertura orçamentária, a economia sofrerá uma desaceleração ainda maior, com queda do desenvolvimento, e mais empresas entrarão em recuperação judicial.
Ao optar por expandir o gasto público sem freios e priorizar soluções arrecadatórias em vez de cortar despesas, o governo Lula aposta em um modelo esgotado de crescimento via intervencionismo estatal. Essa escolha deliberada de ignorar a prudência fiscal e sufocar o setor produtivo com impostos corrói a confiança dos investidores, eleva os juros e transfere para as próximas gerações uma conta impagável. Trata-se de uma política econômica que sacrifica a estabilidade de longo prazo em nome do populismo imediato.
Estamos realmente vivendo um momento da nossa história que me lembra o título de um filme protagonizado por Arnold Schwarzenegger: “O Exterminador do Futuro”. O atual governo está exterminando o futuro econômico do Brasil.
*Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de S. Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio-SP, ex-presidente da Acade mia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).
-
Política7 dias atrásRenovação de 25% na ALMT redefine forças partidárias e encerra trajetórias de parlamentares tradicionais
-
Política7 dias atrásMato Grosso mantém hegemonia do Agronegócio com reeleição de Otaviano Pivetta em Primeiro Turno
-
Política6 dias atrásPivetta reaproxima-se do PL, prioriza campanha presidencial e sinaliza reformulação no secretariado para “Novo Mandato”
-
Artigos5 dias atrásPor que o plano de saúde pesa tanto no Brasil
-
Artigos7 dias atrásLipedema não é apenas uma questão de peso
-
Política6 dias atrásNova Mesa Diretora é eleita por unanimidade na Câmara de Cuiabá para o Biênio 2027/2028
-
Artigos5 dias atrásCâncer de mama: informação traz cura
-
Destaques5 dias atrásReeleito, Pivetta reforça agenda de “Autonomia Econômica” e defende mudanças no “Cenário Político Nacional”

