ARTIGO DE OPINIÃO
Quando ninguém percebe mais o que faz
Autora: Evelyne Correa* –
Uma cena que viralizou recentemente chamou a atenção: durante uma prática de rope jump uma jovem foi arremessada pelo equipamento sem estar conectada ao elemento mais básico da atividade — a corda. O mais intrigante, porém, não foi apenas o acidente, mas a sucessão de automatismos que o tornou possível.
O operador acionou o mecanismo sem conferir as condições de segurança. A jovem posicionou-se sem perceber que não estava presa à corda. Ao redor, outras pessoas observavam e registravam a cena, mas ninguém notou que faltava justamente o elemento indispensável para o exercício. Todos estavam presentes; ninguém estava, de fato, atento.
Dias depois, outro episódio inusitado. Uma portaria publicada no Diário Oficial da União trazia a nomeação de “Fulano de Tal” e “Cicrano [sic] de Tal” — expressões universalmente usadas como marcadores provisórios em rascunhos. O documento percorreu todo o trâmite institucional até ser publicado oficialmente. Passou por quem redigiu, revisou, autorizou e publicou. Em algum momento, o texto deixou de ser lido para apenas ser processado.
Os dois acontecimentos pertencem a universos completamente diferentes. Um envolve a prática de um esporte; o outro, a administração pública. Mas revelam o mesmo fenômeno: estamos substituindo a atenção pela execução.
Vivemos na era da eficiência. Fazemos mais em menos tempo, respondemos a mais mensagens, assinamos mais documentos, consumimos mais informações. Entretanto, talvez estejamos pagando um preço silencioso: a perda da presença.
Um dos maiores riscos da modernidade talvez seja a incapacidade de pensar sobre aquilo que fazemos. Não porque as pessoas sejam más ou incompetentes, mas porque passam a agir no piloto automático. Quando o hábito substitui a reflexão, deixamos de perguntar o que, de fato, faz sentido. Apenas seguimos o fluxo.
É curioso perceber que a tecnologia não é a única responsável por isso. Ela apenas potencializa um comportamento que já cultivamos: a pressa. A automação dos sistemas encontra uma humanidade que também se automatizou.
O dedo clica antes que os olhos leiam. O corpo executa antes que a mente confirme. O algoritmo acelera, mas somos nós que escolhemos viver sem pausas.
Talvez o problema mais profundo não seja a inteligência artificial. Seja o enfraquecimento da atenção humana.
Estamos treinando máquinas para pensar enquanto desaprendemos um dos exercícios mais humanos: perceber.
A pergunta, então, não é se a sociedade está mais tecnológica. É outra: que tipo de humanidade queremos preservar dentro dessa tecnologia?
Porque nenhuma inovação substituirá algo essencialmente humano: a capacidade de interromper o automático para perguntar se aquilo que estamos fazendo ainda faz sentido.
No fim, a vida raramente desmorona por grandes tragédias. Muitas vezes, ela muda de rumo por pequenas distrações repetidas diariamente.
E talvez o verdadeiro desafio do nosso tempo não seja criar pessoas mais produtivas.
Seja formar pessoas mais presentes.
*Evelyne Correa – advogada e servidora pública
Artigos
Memórias de uma filha de garimpeiro
Autora: Jéssica Souza* –
No dia 21 de julho, celebramos o Dia Nacional do Garimpeiro. Para muitos, é apenas uma data no calendário. Para mim, é um convite para revisitar minha própria história.
A mineração levou um pouco da convivência com meu pai durante a infância. Morávamos em Várzea Grande, enquanto ele trabalhava no Pará. Se hoje a distância já é difícil, imagine há trinta anos, quando as viagens eram longas, a comunicação era limitada e a saudade fazia parte da rotina.
Muitas datas importantes passaram sem a presença dele. Aniversários, comemorações e momentos simples do dia a dia precisavam esperar. E, quando finalmente voltava para casa, muitas vezes retornava debilitado, depois de enfrentar sucessivos episódios de malária e tantas outras dificuldades que fazem parte da realidade de quem vive do garimpo.
Foi assim que aprendi que a vida do garimpeiro nunca foi fácil. É uma trajetória marcada por renúncias, riscos, trabalho duro e muita coragem. Mas existe algo que sempre me chamou a atenção: a fé.
A fé do garimpeiro é diferente. É a fé de quem desperta todos os dias acreditando que vale a pena continuar. Sempre enxerguei nos olhos do meu pai uma esperança difícil de explicar. Não era apenas o sonho de encontrar ouro. Era o desejo de construir um futuro melhor, gerar oportunidades, criar empregos e transformar a vida de outras pessoas.
O garimpeiro enxerga possibilidades onde muitos veem apenas dificuldades. Descobre riqueza onde outros enxergam somente terra. Percebe valor onde muitos não conseguem ver nada além da superfície. Talvez seja justamente essa capacidade de acreditar antes de ver que impulsione tantos homens e mulheres da mineração.
Cresci entendendo que o ouro nunca foi o maior tesouro da nossa casa. O verdadeiro tesouro sempre foi o exemplo de um homem que saía para trabalhar carregando coragem e voltava trazendo dignidade, esperança e a certeza de que desistir jamais seria uma opção.
Hoje tenho o privilégio de acompanhar de perto essa trajetória e sinto um enorme orgulho ao olhar para tudo o que meu pai construiu. Aos poucos, ele transformou a própria história. Contribuiu para a evolução da mineração, ajudou a mudar a realidade de muitas famílias e demonstrou que é possível crescer sem abrir mão dos próprios valores.
Ele percorreu uma trajetória que admiro profundamente: de garimpeiro a minerador. Não apenas pelo tamanho da empresa que construiu, mas pela responsabilidade, pelo compromisso e pela seriedade com que escolheu trilhar esse caminho.
Muitas vezes, as pessoas enxergam apenas o resultado. Veem uma empresa consolidada, um patrimônio construído, uma história de sucesso. Mas não conhecem as noites sem dormir, a responsabilidade de honrar a folha de pagamento, cumprir obrigações fiscais cada vez mais complexas, atender às exigências ambientais, investir continuamente em segurança, desenvolver projetos sociais e sustentar centenas de famílias que dependem diretamente dessa atividade.
Por isso, neste Dia Nacional do Garimpeiro, minha homenagem vai muito além da figura do meu pai. Ela é dedicada a todos aqueles que enfrentam longas distâncias, deixam suas famílias, superam desafios diários e seguem acreditando que é possível construir um futuro melhor.
Porque existe, sim, um ouro que vale muito mais do que o metal.
É o ouro que gera oportunidades, leva dignidade às famílias, impulsiona o desenvolvimento e transforma comunidades. É nesse ouro que eu acredito. É esse o verdadeiro ouro do bem.
*Jéssica Souza é diretora financeira da Fomentas Mining Company.
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