Artigo
De famosos a anônimos, o abuso no trabalho continua
Autora: Priscila Arraes Reino* –
Quando um caso de abuso no trabalho ganha o noticiário, a reação costuma ser imediata: indignação, revolta e milhares de comentários nas redes sociais. Mas, passado o impacto inicial, uma pergunta permanece: quantos trabalhadores vivem situações semelhantes sem que ninguém saiba?
Os episódios recentes que mostraram funcionários em realities produzidos por influenciadores, dinâmicas corporativas questionadas e o resgate de uma trabalhadora doméstica submetida por décadas a condições análogas às da escravidão revelam diferentes formas de violação da dignidade no trabalho. Embora distintos, esses casos têm algo em comum: só passaram a existir para a sociedade porque foi rompida a barreira do silêncio.
O caso da trabalhadora doméstica talvez seja o exemplo mais contundente. Durante anos, sua rotina começava antes mesmo de a casa despertar e só terminava quando todos já haviam encerrado o dia. Preparava refeições, limpava, lavava roupas, cuidava da residência e ficava todo o tempo à disposição da família. Sem descanso adequado, sem autonomia sobre a própria rotina e afastada da convivência familiar e social, viveu por décadas privada não apenas de direitos trabalhistas, mas da própria liberdade. O abuso havia se tornado parte da rotina — e, justamente por isso, permaneceu invisível por tanto tempo.
É claro que essa é uma situação extrema. Mas ela nos obriga a olhar também para formas de violência que não aparecem em operações policiais nem estampam as manchetes. Em muitas empresas, o abuso se manifesta por meio de cobranças humilhantes, exposição pública, isolamento, metas incompatíveis com a realidade, constrangimentos constantes ou um ambiente de medo, em que o trabalhador acredita que denunciar significa pôr o emprego em risco.
Não por acaso, a saúde mental passou a integrar de forma definitiva a agenda da saúde e segurança do trabalho. Burnout, depressão e ansiedade podem ser reconhecidos como doenças ocupacionais quando demonstrado o vínculo entre o adoecimento e as condições em que o trabalho era desempenhado. Nesse contexto, a atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) trouxe uma mudança importante: os riscos psicossociais passaram a fazer parte do gerenciamento de riscos ocupacionais, o que impôs às empresas o dever de identificá-los, avaliá-los e adotar medidas para preveni-los e controlá-los. Isso significa reconhecer que o adoecimento nem sempre decorre de um acidente ou de um esforço físico excessivo.
Muitas vezes, ele é consequência da forma como o trabalho é organizado, das metas impostas, da sobrecarga, do assédio, das humilhações reiteradas, da ausência de autonomia e de práticas de gestão que comprometem a saúde mental dos trabalhadores.
A maioria dessas situações, entretanto, jamais se transforma em notícia. Elas acontecem diariamente, longe das câmeras e dos holofotes, protegidas pelo silêncio. Um silêncio alimentado pelo medo de sofrer represálias, de perder o emprego, de não conseguir uma nova colocação ou, simplesmente, de ouvir que tudo não passou de uma “brincadeira” ou de uma cobrança normal do ambiente corporativo.
É justamente por isso que tantos trabalhadores convivem durante anos com situações que afetam sua saúde física e mental sem procurar ajuda. Quando o sofrimento se prolonga, começam os afastamentos previdenciários e surgem os transtornos psicológicos e as doenças ocupacionais. Junto com isso, muitas vezes vem o sentimento de culpa de quem acredita estar falhando, quando, na realidade, está adoecendo em um ambiente que deixou de ser saudável.
Os casos que ganham repercussão cumprem um papel importante ao despertar a atenção da sociedade. Mas eles não podem se tornar uma cortina de fumaça que nos impeça de enxergar aqueles que continuam sofrendo longe das câmeras, dos holofotes e das redes sociais. A violação da dignidade no trabalho não começa apenas quando há cárcere privado, violência física ou exploração extrema. Ela também existe quando a humilhação é naturalizada, quando o medo impede uma denúncia e quando o adoecimento é tratado como fragilidade individual, e não como consequência de um ambiente de trabalho adoecido.
Enquanto alguns abusos chocam o país, milhares de trabalhadores seguem enfrentando realidades semelhantes, em diferentes graus, porém sem nenhuma visibilidade. Romper o silêncio é o primeiro passo para que a dignidade no trabalho deixe de ser apenas um princípio jurídico e passe a ser, de fato, uma realidade.
*Priscila Arraes Reino é advogada previdenciária e trabalhista há mais de 25 anos, autora de Burnout tem lei
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Memórias de uma filha de garimpeiro
Autora: Jéssica Souza* –
No dia 21 de julho, celebramos o Dia Nacional do Garimpeiro. Para muitos, é apenas uma data no calendário. Para mim, é um convite para revisitar minha própria história.
A mineração levou um pouco da convivência com meu pai durante a infância. Morávamos em Várzea Grande, enquanto ele trabalhava no Pará. Se hoje a distância já é difícil, imagine há trinta anos, quando as viagens eram longas, a comunicação era limitada e a saudade fazia parte da rotina.
Muitas datas importantes passaram sem a presença dele. Aniversários, comemorações e momentos simples do dia a dia precisavam esperar. E, quando finalmente voltava para casa, muitas vezes retornava debilitado, depois de enfrentar sucessivos episódios de malária e tantas outras dificuldades que fazem parte da realidade de quem vive do garimpo.
Foi assim que aprendi que a vida do garimpeiro nunca foi fácil. É uma trajetória marcada por renúncias, riscos, trabalho duro e muita coragem. Mas existe algo que sempre me chamou a atenção: a fé.
A fé do garimpeiro é diferente. É a fé de quem desperta todos os dias acreditando que vale a pena continuar. Sempre enxerguei nos olhos do meu pai uma esperança difícil de explicar. Não era apenas o sonho de encontrar ouro. Era o desejo de construir um futuro melhor, gerar oportunidades, criar empregos e transformar a vida de outras pessoas.
O garimpeiro enxerga possibilidades onde muitos veem apenas dificuldades. Descobre riqueza onde outros enxergam somente terra. Percebe valor onde muitos não conseguem ver nada além da superfície. Talvez seja justamente essa capacidade de acreditar antes de ver que impulsione tantos homens e mulheres da mineração.
Cresci entendendo que o ouro nunca foi o maior tesouro da nossa casa. O verdadeiro tesouro sempre foi o exemplo de um homem que saía para trabalhar carregando coragem e voltava trazendo dignidade, esperança e a certeza de que desistir jamais seria uma opção.
Hoje tenho o privilégio de acompanhar de perto essa trajetória e sinto um enorme orgulho ao olhar para tudo o que meu pai construiu. Aos poucos, ele transformou a própria história. Contribuiu para a evolução da mineração, ajudou a mudar a realidade de muitas famílias e demonstrou que é possível crescer sem abrir mão dos próprios valores.
Ele percorreu uma trajetória que admiro profundamente: de garimpeiro a minerador. Não apenas pelo tamanho da empresa que construiu, mas pela responsabilidade, pelo compromisso e pela seriedade com que escolheu trilhar esse caminho.
Muitas vezes, as pessoas enxergam apenas o resultado. Veem uma empresa consolidada, um patrimônio construído, uma história de sucesso. Mas não conhecem as noites sem dormir, a responsabilidade de honrar a folha de pagamento, cumprir obrigações fiscais cada vez mais complexas, atender às exigências ambientais, investir continuamente em segurança, desenvolver projetos sociais e sustentar centenas de famílias que dependem diretamente dessa atividade.
Por isso, neste Dia Nacional do Garimpeiro, minha homenagem vai muito além da figura do meu pai. Ela é dedicada a todos aqueles que enfrentam longas distâncias, deixam suas famílias, superam desafios diários e seguem acreditando que é possível construir um futuro melhor.
Porque existe, sim, um ouro que vale muito mais do que o metal.
É o ouro que gera oportunidades, leva dignidade às famílias, impulsiona o desenvolvimento e transforma comunidades. É nesse ouro que eu acredito. É esse o verdadeiro ouro do bem.
*Jéssica Souza é diretora financeira da Fomentas Mining Company.
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