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Artigo

Por que gente inteligente complica tanto a própria fala (e como voltar a ser simples)

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Autora: Giovana Pedroso*

Para muitos profissionais, o maior desafio é conseguir transformar o conhecimento técnico e complexo em uma explicação simples e acessível.

Ana, eu entendi o que você quis dizer no vídeo mas receio que o seu paciente não entenderá“.

Foi assim que começou a minha conversa com Ana, uma cirurgiã-dentista experiente. A fala dela estava carregada de jargões da profissão sem tradução e focada em aspectos técnicos.

Mas não é difícil apenas para a Ana.

O desafio de transformar um conhecimento complexo em explicação simples tem um nome conhecido: a “maldição do conhecimento”, um viés cognitivo que explica a dificuldade de imaginar a mente de alguém que não possui o mesmo conhecimento que o seu.

Um bom exercício de percepção desse viés é tentar explicar a um idoso não familiarizado com a tecnologia como baixar um aplicativo. Ou contar uma obra de Shakespeare para uma criança de 8 anos. São duas maneiras de entender o que a psicóloga Elizabeth Newton identificou em 1990. Em seu estudo, ela dividiu pessoas em dois grupos: um de “batucadores” e o outro de “ouvintes”.

Tarefa simples: os batucadores tinham de batucar na mesa algumas músicas conhecidas, como ‘Parabéns pra Você’.

Otimistas, os batucadores estimaram que 50% das faixas seriam adivinhadas pelos ouvintes. Mas a taxa de sucesso foi bem menor: de 120 músicas tocadas, apenas três foram identificadas corretamente.

É que quando você já sabe qual é a música, fica fácil ouvi-la na sua cabeça.

Quando pensamos na comunicação, a premissa é a mesma. E o cuidado para evitar não ser compreendido por excesso de “tequiniquês”, necessário.

Por isso, vai falar para grupos grandes e diversos? Tem uma apresentação na semana que vem para colegas da empresa? Considere que o público não sabe “qual é a música”. Esforce-se para ser simples, claro, objetivo e, principalmente acessível. A recomendação também vale se o público for técnico. Até mesmo esses profissionais tendem a sofrer com a sobrecarga cognitiva e se sentirem cansados com uma enxurrada de expressões complexas.

Na dúvida, simplifique

Algumas estratégias são eficazes para simplificar:

1 – Comece pelo fim. Responda-se: quando eu terminar de falar, o que eu quero que o meu ouvinte saia sabendo e/ou fazendo? Utilize os primeiros minutos para deixar isso claro, e informe o tempo que irá levar.

2 – Uma criança de oito anos entenderia? Conhecida como Técnica Feynman, essa estratégia foca na extrema simplificação. Fale em voz alta o que irá dizer e elimine completamente os jargões técnicos. Se for preciso mantê-los, responda-se como é possível “traduzi-los” rapidamente após falar.

3 – Abuse das analogias. Usar o que o público já sabe para explicar algo que ele ainda não conhece torna qualquer explicação diferenciada e conectada com a audiência. Vale explorar temas da construção civil, gastronomia ou esporte. Exemplo: Warren Buffet dizia que uma excelente empresa é como um castelo econômico com um fosso largo ao redor. Este fosso representa tudo o que protege a empresa de seus concorrentes.

Além de Buffet, Jeff Bezos, Steve Jobs e outros grandes líderes contemporâneos multiplicaram seu conhecimento e suas fortunas usando premissas assim. Sem medo de parecerem “menos inteligentes”.

A propósito, é ilusão aceitar que somente a maldição do conhecimento pode explicar os discursos complexos e abstratos. A linguagem também é um símbolo de poder e status. Para muitos profissionais inteligentes, aumentar a clareza é perder ambos.

De uma vez por todas, pare de falar para parecer inteligente e comece a falar para ser útil.

*Giovana PedrosoTEDx Speaker, jornalista e especialista em comunicação

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Artigos

O Papa Leão XIV e os dilemas da tecnologia

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Autor: Ives Gandra da Silva Martins*

Ciência, ética e fé: a encíclica Magnifica humanitas como um guia para o bem comum

A Encíclica Magnifica humanitas (em português: Magnífica humanidade), primeiro documento papal de Leão XIV, publicada em maio deste ano, deve ser lida não só por nós, católicos, mas por todos aqueles que realmente se interessam pela evolução do gênero humano.

O documento pontifício mostra, em primeiro lugar, que para a Igreja não há incompatibilidade entre a ciência e a religião. O texto faz uma menção direta e profunda à Encíclica Rerum Novarum (“Das Coisas Novas”), de Leão XIII, publicada em 1891, que debateu a grave situação dos trabalhadores gerada pela Revolução Industrial, propondo uma via que rejeitava tanto os excessos do capitalismo quanto as propostas do socialismo. Considero que o primeiro grande documento a apresentar soluções de convivência entre a liberdade econômica e a justiça social foi a referida encíclica e não os livros daqueles autores do século XIX que propugnavam a luta de classes.

As diversas encíclicas escritas a partir da Rerum Novarum revelam como a Igreja tem demonstrado compatibilidade e preocupação não só com o ser humano em sua relação com Deus, mas também com o papel de cada indivíduo na convivência com seus semelhantes.

G. K. Chesterton (1874–1936), escritor inglês e defensor da fé e da tradição católica, dizia que nós não vemos o plano de Deus porque estamos do lado de trás de uma tapeçaria, vendo apenas a cordoalha (o avesso da tapeçaria) que lá existe. Mas Deus está vendo o desenho que fez para cada um de nós, a beleza da tapeçaria que está à frente d’Ele.

O que a Encíclica Magnifica humanitas procura mostrar sintetiza-se em três pontos: os desafios contemporâneos da sociedade; a plena compatibilidade entre a ciência e a religião; e, finalmente — sendo este o aspecto mais relevante —, os dilemas trazidos pela inteligência artificial.

O documento pondera tanto os seus benefícios quanto o risco de sua exploração negativa contra a humanidade, alertando especificamente para o perigo de a tecnologia anular o discernimento moral e desumanizar as relações de trabalho, assim como a Revolução Industrial ameaçou o operariado na época da Rerum Novarum. Mostra, enfim, que devemos aprender a utilizar essa poderosa ferramenta tecnológica para o bem comum, protegendo o gênero humano de seus efeitos nocivos.

Ao traçar esse paralelo histórico, o Sumo Pontífice nos recorda que o progresso técnico, isolado de uma sólida moldura ética, tende a converter o ser humano em mero insumo produtivo. Se no século XIX a máquina a vapor ameaçava subjugar a força física do operário, no alvorecer deste milênio os algoritmos e os sistemas autônomos colocam em xeque a própria singularidade do intelecto e do livre-arbítrio.

A mensagem de Leão XIV, portanto, não se reveste de um teor de oposição à tecnologia; ao contrário, ela nos convoca a resgatar a primazia da pessoa humana sobre a técnica, assegurando que a inteligência artificial sirva como instrumento de emancipação e de justiça distributiva, e nunca como vetor de novas e mais profundas desigualdades sociais.

Desse modo, a leitura desta encíclica transcende o debate estritamente teológico para fixar-se como um autêntico tratado de Direito Natural e de preservação da dignidade humana. Diante de uma realidade cada vez mais fragmentada pelo relativismo e pela velocidade das transformações digitais, o documento papal surge como um guia de lucidez e de esperança.

Tenho a impressão de que é uma encíclica que todos devemos ler, crentes ou não, católicos ou de outras convicções, pois ela apresenta os grandes problemas da atualidade, de toda a humanidade, trazendo sugestões muito interessantes para a convivência pacífica e harmoniosa, inclusive na busca de que o bem triunfe sobre o mal.

Vale, pois, a pena ler esse importante documento, que é a Encíclica Magnifica humanitas, do Papa Leão XIV.

*Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).

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