Artigo
Como evitar que os fracassos definam nossa identidade?
Autor: Luis Carlos Marques Fonseca* –
A pressão para sermos bem-sucedidos social e economicamente transformou erros e perdas em uma crise de identidade coletiva. Ao observarmos a sociedade atual, percebemos que a angústia de “não atingirmos determinados resultados que desejamos” nasce, em grande parte, da incapacidade de separar nossos resultados de quem essencialmente somos. Por que permitimos que um tropeço se transforme em uma sentença? A resposta, embora complexa, reside na forma como construímos nossa identidade, pois a chave para a liberdade não é a ausência de tropeços, mas a prática consciente da não identificação com as nossas conquistas e fracassos.
A sociedade contemporânea nos empurra para uma fusão perigosa entre o “fazer ou ter” e o “ser”. Se um projeto colapsa, a pessoa se sente inferior; se um papel social se desfaz, ela sente que perdeu a “razão de viver”. No entanto, precisamos resgatar a perspectiva do ator e do personagem. O seu “Eu Real” é o ator; as circunstâncias da vida — o emprego, os sucessos, as posses, as relações sociais, as crises — são apenas papéis no palco. O ator se entrega ao papel com intensidade e responsabilidade, mas ele nunca esquece que, ao fechar das cortinas, sua essência permanece intacta, independentemente de o personagem ter triunfado, fracassado ou perecido.
Para evitar que uma fissura se torne um trauma limitante, é preciso aprender a extrair a essência da experiência, e tornar-se mais consciente de si mesmo. Quando erramos, temos dois caminhos: carregar a dor do “erro” como um trauma que limitará futuras ações ou aprender com ele, tornando-se mais aptos a integrar conscientemente novas situações mais complexas de vida. O fracasso só define a identidade daquele que não é capaz de aprender com os próprios deslizes. Quando assumimos a responsabilidade pelos nossos erros, temos a possibilidade de correção, paramos de culpar a nós mesmo, aos demais ou ao destino e retomamos as rédeas do nosso caminho, de sermos cada vez mais conscientes.
Viver sem apego excessivo aos resultados não significa agir com indiferença, mas sim aproveitar com plenitude cada momento presente. O “Eu Artificial” adora habitar o passado, remoendo mágoas e falhas antigas para justificar o medo do futuro e a responsabilidade de ser o dono do próprio destino. Estar inteiro no agora, fazendo uso de toda experiência acumulada, é a única forma de impedir que a memória negativa e o apego às nossas conquistas e fracassos passados ditem nossos próximos passos.
As conquistas e fracassos, portanto, devem ser vistos como oportunidades de aprendizado. São experiências necessárias para o despertar das virtudes próprias de nossa verdadeira identidade: a Vontade, a Intuição e a Inteligência. Quando deixamos de rejeitar a queda e passamos a observar o que ela nos ensina, a identidade deixa de ser um castelo de cartas vulnerável ao vento das circunstâncias e se torna uma estrutura sólida, forjada na experiência e na sabedoria de quem se identifica com algo em si mesmo que está além de qualquer resultado passageiro.
Não somos o que nos acontece; somos seres conscientes que decidem o que fazer com aquilo que acontece. O palco pode mudar, mas o ator, se estiver consciente de si, jamais se perde na cena.
*Luis Carlos Marques Fonseca é diretor-presidente da Nova Acrópole Brasil Norte e autor do livro Filosofia: O caminho da liberdade (Hanoi Editora).
Artigos
Entre o cavalete e o pergaminho
Autor: Ivan Hegen* –
Quando falamos mais de um idioma, percebemos com mais nitidez a arbitrariedade da relação entre significado e significante. Ao deslizar de uma língua para outra, constatamos a fragilidade com que tentamos, através das palavras, corresponder à realidade. A distância entre idiomas evidencia que não há jamais encaixe perfeito entre o referente e suas convenções linguísticas. Tal percepção pode ser ainda mais aguçada na mente de criadores que manejam duas expressões artísticas, como a literatura e as artes visuais.
A desnaturalização da linguagem é intensa em obras como as de Nuno Ramos, Iberê Camargo e Elvira Vigna, por exemplo, que se dedicaram à produção plástica e à escrita. Também há que se considerar aqueles que priorizaram a literatura, mas demonstravam ter nas artes visuais uma fonte de inspiração fundamental, como William Carlos Williams, que “traduzia” pinturas em poemas; Clarice Lispector, que muito aprendeu com o não-verbal da pintura; Samuel Beckett, admirador de Bram Van Velde; além de grandes poetas que se dedicaram à crítica de arte, como Baudelaire, Apollinaire, Mario de Andrade e Ferreira Gullar.
Escritores e artistas visuais já estiveram mais próximos, já se influenciaram mais, mutuamente. Hoje é quase inimaginável qualquer reedição viva de André Breton reunindo pintores, escultores e poetas para compartilhar de um significativo movimento coletivo, como ocorreu no surrealismo. Tampouco há notícia recente de qualquer reunião significativa como a da Semana de 22 ou do Neoconcretismo. Entre as razões para esse distanciamento, talvez haja uma especialização dos respectivos mercados, a exigir um profissionalismo mais dedicado ao nicho restrito. Poucos acompanhariam com afinco tanto as vernissages quanto as feiras literárias, sendo diferentes os públicos e os tópicos de discussão.
Se já é uma façanha desenvolver uma obra considerável em uma única expressão artística, não se pode exigir de ninguém que se desdobre em multimodalidade, como uma Marina Colasanti ou um Arnaldo Antunes. Nem todo espírito criador se interessa muito por outras linguagens que não sejam a de sua atuação, mas algo se perde em possibilidades sinestésicas e de efeitos de estranhamento quando pouco se atenta a outras vertentes artísticas.
Teria Manet ousado tanto com as tintas sem a troca poética de sua amizade com Mallarmé? Será que Mira Schendel saberia gravar a sutileza em papel de arroz se não fosse um amor às letras? E teria Lourenço Mutarelli publicado alguns dos melhores livros contemporâneos se não houvesse se experimentado antes com traços e cores?
Assim como, em contato com o estrangeiro, intuímos uma realidade a que o idioma materno alude, mas não pode efetivamente alcançar, pode ser no vão, no intervalo entre uma expressão artística e outra, que vislumbramos algo sobre a imperceptível e jamais plenamente explicável necessidade que temos de redimensionar a vida perante a arte. Aguçando os ouvidos, nos deleitamos com o rumor do constante diálogo entre as mais diversas expressões artísticas.
*Ivan Hegen é autor de “Livre Associação”, doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP e professor formado em Artes Plásticas.
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