Search
Close this search box.

Artigo

O passado ainda pesa

Publicados

em

Autor: Ricardo Viveiros*

O tráfico transatlântico de africanos escravizados permanece como uma das maiores tragédias da história da humanidade. Milhões de pessoas foram sequestradas, arrancadas de suas terras, culturas e famílias para alimentar um sistema econômico construído sobre a violência e a desumanização. Séculos depois, os efeitos da barbárie escravocrata ainda estão presentes. O racismo é uma de suas heranças mais perversas e continua a desafiar sociedades que se consideram democráticas e igualitárias.

A colonização europeia na África aprofundou esse processo. No caso francês, a dominação foi marcada pela exploração econômica, pela imposição cultural e pela negação de direitos às populações locais. Sob o discurso da chamada “missão civilizatória”, a França promoveu a assimilação forçada, difundiu seu idioma, enfraqueceu identidades tradicionais e transformou territórios africanos em fontes de matérias-primas para abastecer a metrópole. Mesmo após as independências conquistadas a partir da década de 1960, muitos estudiosos apontam que mecanismos de influência política e econômica permaneceram ativos, fenômeno conhecido como Françafrique.

Foi impossível não pensar nesse passado ao assistir a partida entre as seleções da França e do Senegal, antiga colônia francesa. Durante a execução do hino francês, chamou minha atenção o fato de que muitos jogadores negros da seleção francesa não cantavam a letra. Alguns mantinham a cabeça baixa. Cada atleta, é natural, tem suas razões pessoais, não cabe presumir sentimentos. Ainda assim, a cena despertou uma reflexão sobre identidade, pertencimento e memória histórica.

A atual seleção francesa é formada na maioria por atletas negros, descendentes de povos oriundos de antigas colônias africanas. São franceses por nascimento, cidadania e direito. Contudo, a presença marcante de nomes e sobrenomes ligados a diferentes regiões da África revela uma história que atravessa gerações e conecta o presente a um passado colonial nem sempre plenamente reconhecido, e corrigido. Há sobrenomes que remetem ao Senegal: Konaté, Kanté e Dembélé. Outros a Camarões, Zaire, Congo, Costa do Marfim, Mali, Benim, Guiné.

O futebol, como expressão social, frequentemente expõe questões que vão muito além das quatro linhas. O elenco da equipe francesa demonstra a contribuição decisiva dos descendentes da imigração para a construção da identidade nacional contemporânea. Ao mesmo tempo, lembra que integração não significa apagamento de origens, memórias ou experiências coletivas.

O mundo avançou muito no combate às discriminações, mas ainda convive com diversas formas de intolerância. Racismo, sexismo, misoginia, LGBTfobia, sectarismo religioso, capacitismo, xenofobia e preconceito de classe continuam a ferir a dignidade humana. Combater essas práticas exige mais do que discursos: requer coragem, respeito, educação e empatia para enfrentar as marcas deixadas pela crueldade do passado colonizador.

Talvez o maior desafio do nosso tempo seja transformar memória em aprendizado. Conhecer o passado não significa permanecer preso a ele, mas impedir que suas injustiças se repitam. Que chegue o dia em que ninguém precise sentir o peso da colonização sobre sua identidade. E que nenhum cidadão, em qualquer parte do mundo, abaixe a cabeça constrangido ao ouvir o hino do país que um dia sequestrou, escravizou e dominou seus ancestrais.

*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite. Apresenta, aos domingos às 7 horas (da manhã), na TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.

COMENTE ABAIXO:
Leia Também:  Wilson Pires: GUARDA MUNICIPAL, 16 ANOS DE ATUAÇÃO COM RESPONSABILIDADE E DISCIPLINA
Propaganda

Artigos

Saúde mental como prioridade: o impacto da NR-1 nas IES

Publicados

em

Autor: Janguiê Diniz*

A entrada em vigor da nova redação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) representa um dos movimentos mais relevantes das últimas décadas no campo da segurança e saúde no trabalho no Brasil, com impactos diretos e profundos sobre as instituições de educação superior (IES). Mais do que uma atualização normativa, trata-se de uma mudança de paradigma que desloca o foco tradicional, historicamente concentrado em riscos físicos, químicos e biológicos, para uma abordagem mais ampla, incorporando, de forma explícita e obrigatória, os riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

Prevista para entrar em vigor no dia 26 de maio, a nova regulamentação impõe às instituições educacionais não apenas ajustes técnicos, mas uma revisão estrutural de seus modelos de gestão, cultura organizacional e práticas de relacionamento com seus colaboradores.

O primeiro passo consiste no abandono de uma postura reativa e na adoção de uma lógica preventiva e sistêmica. Isso porque a NR-1 estabelece o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) como um processo contínuo, estruturado e documentado, exigindo a identificação, avaliação, controle e monitoramento de todos os riscos que possam afetar a saúde dos trabalhadores, inclusive aqueles decorrentes da organização do trabalho, como sobrecarga, assédio, falta de autonomia e falhas de comunicação.

No contexto das instituições de educação superior, esse desafio ganha contornos ainda mais complexos. Trata-se de organizações marcadas por atividades simultâneas, pressões acadêmicas e regulatórias, demandas administrativas e relações interpessoais densas. Professores, coordenadores e técnicos frequentemente lidam com acúmulo de funções e exigências cognitivas elevadas. Não por acaso, o setor educacional figura entre os mais impactados por afastamentos relacionados à saúde mental, com índices expressivos de estresse, ansiedade e síndrome de burnout.

Por isso, a principal implicação da NR-1 para as IES está justamente na exigência de que esses fatores deixem de ser tratados como questões periféricas ou individuais e passem a integrar o sistema de gestão de riscos. Isso significa que a saúde mental deve ser incorporada ao inventário de riscos ocupacionais e ao plano de ação institucional, com o mesmo rigor aplicado a outros tipos de risco.

A fiscalização não se limitará à existência de documentos. Ela exigirá coerência entre diagnóstico, medidas adotadas e resultados efetivos, com base em evidências concretas e participação dos trabalhadores. Em outras palavras, não será suficiente declarar boas intenções; será necessário demonstrar práticas consistentes e verificáveis.

Nesse sentido, a preparação das instituições deve começar por um diagnóstico aprofundado e setorizado dos riscos psicossociais. Não se trata de uma análise genérica, mas de um mapeamento que considere as especificidades de cada área e função. Essa abordagem evidencia um ponto central: a gestão de riscos psicossociais exige integração entre diferentes áreas da instituição, incluindo gestão de pessoas, segurança do trabalho, coordenações acadêmicas e alta administração.

Outro aspecto crucial é a mudança de foco das ações. A NR-1 é clara ao estabelecer que medidas exclusivamente individuais ou clínicas são insuficientes. O enfrentamento dos riscos psicossociais deve ocorrer prioritariamente no nível organizacional, por meio da revisão de processos, redistribuição de cargas de trabalho, melhoria dos fluxos de comunicação e fortalecimento das práticas de liderança. Essa diretriz desloca a responsabilidade do indivíduo para a estrutura institucional, exigindo das IES um compromisso real com a construção de ambientes de trabalho mais saudáveis, equilibrados e sustentáveis.

Além disso, a norma reforça a necessidade de participação ativa dos trabalhadores no processo de gestão de riscos. A escuta qualificada, por meio de pesquisas, entrevistas, grupos focais e canais de denúncia, deixa de ser uma prática recomendada e passa a ser uma exigência. Essa participação não apenas qualifica o diagnóstico, como também fortalece a cultura organizacional e amplia o engajamento dos colaboradores. Ao mesmo tempo, impõe às instituições o desafio de criar mecanismos seguros, confiáveis e efetivos de acolhimento e tratamento das demandas apresentadas.

Do ponto de vista jurídico e financeiro, os impactos da não conformidade são significativos. A ausência de gestão adequada dos riscos psicossociais pode resultar em autuações, multas e aumento de passivos trabalhistas, além de custos indiretos relacionados à queda de produtividade, aumento da rotatividade e perda de talentos.

Em síntese, a nova NR-1 apresenta às instituições duas possibilidades: encarar a norma como uma obrigação burocrática ou como uma oportunidade estratégica de modernização. Aquelas que optarem pelo segundo caminho estarão mais bem posicionadas para enfrentar os desafios contemporâneos, fortalecer sua reputação, atrair e reter talentos e cumprir, com maior qualidade, sua função social. Afinal, cuidar da saúde mental de quem ensina e administra as instituições não é apenas uma exigência legal, mas condição essencial para a excelência acadêmica e para o futuro da educação superior no país.

*Janguiê DinizDiretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação – Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador e controlador do grupo Ser Educacional, e presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo

COMENTE ABAIXO:
Leia Também:  Kelly Nunes: - Organização x burocratização
Continue lendo

MAIS LIDAS DA SEMANA