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Muito além do futebol, o Brasil também tem o SUS

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Autor: Marco Felipe*

O futebol é uma das maiores paixões do povo brasileiro. É o esporte que nos une, que faz milhões de pessoas vestirem a mesma camisa, comemorarem as mesmas vitórias e acreditarem que, juntos, podemos superar qualquer desafio. O futebol é parte da nossa identidade nacional.

Mas existe outro patrimônio brasileiro que também merece reconhecimento, respeito e orgulho: o Sistema Único de Saúde (SUS). Assim como o futebol, o SUS está presente em todos os cantos do país. Da maior capital à menor comunidade rural, ele alcança pessoas de diferentes culturas, histórias e realidades. E talvez seja justamente por isso que ele seja uma das maiores e mais complexas conquistas sociais do Brasil.

Em Mato Grosso, essa realidade se torna ainda mais evidente. Somos um estado de dimensões continentais, marcado por grandes distâncias geográficas, vazios assistenciais, comunidades indígenas, povos ribeirinhos, assentamentos rurais e municípios com características completamente distintas entre si. Levar saúde pública de qualidade a todos esses territórios não é uma tarefa simples. Ainda assim, ela acontece todos os dias.

Por trás desse trabalho existem 142 secretários municipais de saúde que, muito mais do que gestores, atuam como técnicos, planejadores, articuladores e solucionadores de problemas. São profissionais que enfrentam diariamente os desafios do financiamento, da logística, da escassez de mão de obra especializada e das demandas crescentes da população.

Enquanto muitos enxergam apenas o atendimento na unidade de saúde, existe uma engrenagem complexa funcionando nos bastidores. O SUS não para. Ele funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, para que vacinas cheguem aos municípios, consultas sejam realizadas, medicamentos sejam distribuídos, ambulâncias estejam disponíveis e pacientes tenham acesso aos serviços de média e alta complexidade.

É um sistema amplo e complexo que atende desde o nascimento até os cuidados mais especializados. Está no atendimento de urgência, nos transplantes, na vigilância epidemiológica, na prevenção de doenças e em inúmeras outras ações que impactam diretamente a vida dos brasileiros. Talvez o maior desafio seja justamente este, o SUS funciona tão “naturalmente” na vida das pessoas que muitas vezes sua importância passa despercebida.

Quando um time entra em campo, vemos os jogadores, mas existe toda uma estrutura por trás para que a partida aconteça. No SUS é a mesma coisa. Há profissionais da saúde, gestores, conselhos, equipes técnicas e instituições trabalhando de forma integrada para garantir que o sistema continue atendendo quem mais precisa.

Por isso, acredito que precisamos falar mais sobre o SUS. Precisamos valorizar seus profissionais, reconhecer seus avanços e compreender sua importância estratégica para o desenvolvimento social do país. O Brasil é conhecido mundialmente pelo futebol, mas também deveria ser reconhecido pela coragem de manter um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, universal, gratuito e acessível para toda a população.

Em Mato Grosso, seguimos fazendo nossa parte. Os 142 gestores municipais de saúde sabem que cada decisão tomada impacta diretamente a vida das pessoas, e é essa responsabilidade que nos move diariamente. Assim como o futebol representa a paixão de um povo, o SUS representa o cuidado com esse mesmo povo. E cuidar das pessoas é, sem dúvida, uma das maiores vitórias que uma sociedade pode conquistar.

*Marco FelipePresidente do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Mato Grosso (Cosems/MT) e Secretário de Saúde de Nova Ubiratã.

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A infância no centro do novo Plano Nacional de Educação

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Autora: Guelda Andrade*

O debate sobre a universalização da creche e da escola de tempo integral ganha ainda mais relevância no contexto da construção do novo Plano Nacional de Educação (PNE). Após o encerramento da vigência do PNE 2014-2024, o Brasil tem diante de si a oportunidade histórica de corrigir insuficiências, enfrentar desigualdades persistentes e consolidar uma política educacional de Estado capaz de garantir o direito à educação e à cidadania desde a primeira infância.

A experiência do plano anterior demonstrou que estabelecer metas sem assegurar mecanismos robustos de financiamento, cooperação federativa e monitoramento permanente limita significativamente a capacidade de implementação das políticas públicas. Embora tenham ocorrido avanços importantes na expansão da educação infantil e da educação em tempo integral, as metas previstas para creches e para ampliação da jornada escolar não foram plenamente alcançadas.

O novo PNE precisa reconhecer que a universalização da educação infantil e da educação em tempo integral não pode ser tratada como política acessória ou complementar. Trata-se de um eixo estruturante do desenvolvimento nacional, diretamente relacionado à redução das desigualdades sociais, ao combate à pobreza, à promoção da igualdade de gênero e à construção de uma sociedade mais democrática.

Nesse sentido, torna-se fundamental que o novo plano estabeleça metas mais ambiciosas para a expansão da oferta de creches públicas, acompanhadas de mecanismos concretos de financiamento e responsabilização dos entes federados. A simples previsão de metas quantitativas não basta quando o país ainda carrega mais de 826 mil crianças na fila de espera por creches (Censo Escolar/Inep, 2024), realidade que também se reflete de forma severa em Mato Grosso, onde mais de 10 mil crianças aguardam uma vaga nos polos urbanos (TCE-MT/Gaepe, 2025). É necessário definir com clareza os meios para alcançar essas metas.

A ampliação da oferta de creches públicas também precisa ser compreendida como parte de uma rede de proteção à infância e de apoio às famílias brasileiras. Para milhões de mulheres, especialmente as mais pobres, o acesso à creche representa a possibilidade real de ingressar ou permanecer no mercado de trabalho, ampliar sua autonomia econômica, garantir a segurança alimentar de seus filhos e construir condições mais dignas de vida.

Da mesma forma, a escola de tempo integral não pode ser reduzida à mera ampliação da permanência dos estudantes no ambiente escolar. Trata-se de uma política de Estado que amplia oportunidades de aprendizagem, convivência, cultura, esporte e desenvolvimento humano, contribuindo de forma decisiva para a formação integral e para a proteção social de crianças e adolescentes.

Essa discussão remete diretamente à implementação do Sistema Nacional de Educação (SNE), previsto na Constituição Federal e reiteradamente defendido pelas entidades educacionais, pelos fóruns de educação e pelas conferências nacionais de educação. O SNE deve constituir um instrumento permanente de articulação entre União, estados e municípios, superando a fragmentação das políticas educacionais e fortalecendo o regime de colaboração.

Sua ausência contribui para a manutenção de profundas desigualdades territoriais. Enquanto alguns municípios conseguem ampliar a oferta de vagas e investir em qualidade, outros enfrentam enormes limitações financeiras e estruturais. O resultado é que o direito à educação acaba dependendo do CEP da criança, contrariando o princípio constitucional da igualdade de oportunidades. Nenhum projeto de país que pretenda reduzir desigualdades pode aceitar que o acesso a um direito fundamental seja definido pelo local onde uma criança nasceu.

Outro elemento central para o sucesso das metas do novo PNE é a efetivação do Custo Aluno-Qualidade (CAQ). Previsto na legislação educacional brasileira e incorporado ao debate nacional há décadas, o CAQ representa um parâmetro objetivo para definir quanto deve ser investido por estudante a fim de garantir padrões adequados de qualidade.

A implementação plena permitiria enfrentar uma das maiores contradições da educação infantil: a existência de redes que recebem recursos insuficientes para assegurar infraestrutura adequada, profissionais valorizados, materiais pedagógicos de qualidade e alimentação escolar compatível com as necessidades da infância.

Não haverá universalização da creche nem expansão consistente da escola de tempo integral sem a garantia jurídica e o fortalecimento do financiamento público da educação. Isso exige ampliar a participação da União no financiamento da educação básica, reduzir desigualdades regionais e assegurar recursos estáveis e permanentes para estados e municípios.

O novo Plano Nacional de Educação deve ser compreendido não apenas como um documento técnico, mas como um pacto social em defesa da infância. Um compromisso inegociável que coloca o financiamento garantido e o direito à educação no centro do projeto de desenvolvimento do Brasil e de Mato Grosso.

*Guelda Andrade é mestra em Política Educacional pela UFMT, especialista em Gestão Escolar, servidora da educação pública e dirigente nacional da CNTE. Atua na defesa da educação pública, da valorização dos profissionais da educação e do fortalecimento das políticas educacionais brasileiras.

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