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Nelson Soares Junior: – A defesa do comércio de Mato Grosso é questão de lógica

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A defesa do comércio de Mato Grosso é questão de lógica

Autor: Nelson Soares Junior

Cheguei a Cuiabá no início da década de 80 para assumir o setor de compras de uma multinacional do ramo de combustíveis. Para a implantação da nova gerência, necessitávamos comprar quatro carros e a orientação era de que fosse da marca Volkswagen.

Peguei os orçamentos, encaminhados pela matriz e cotados em outras regiões do país, e fui à concessionária Trescinco. Uma diferença de valores era favorável à compra fora de Mato Grosso. Já estava de saída quando, para minha surpresa, o saudoso Sango Kuramoti me chamou à sua sala. Objetivo, ele me lançou duas perguntas: Sua empresa está vindo para Mato Grosso certamente porque acredita no potencial do estado certo? Respondi que ela tinha um ambicioso e longo plano de investimento, prevendo um crescimento de, pelo menos, quatro vezes o número de postos atuais. OK, ele afirmou. Na sequência disparou: Então me diga quantos empregos sua empresa vai ajudar a criar em Mato Grosso, para pessoas que irão comprar seu combustível, comprando os veículos em outro Estado?

Levei sua consideração à nossa matriz e imediatamente veio a autorização para a compra dos veículos em Mato Grosso. Este procedimento, até onde sei, passou a ser o modelo de aquisição em todo o país e, também, o que utilizo até hoje nas minhas empresas e nas entidades em que estou administrando. Comprar fora somente quando não há o equivalente aqui.

É triste quando vemos o atual mandatário do Executivo estadual – um empresário – se mostrar incapaz de dialogar com os setores produtivos, quando deveríamos encontrar uma solução, em comum acordo para os problemas de caixa do Estado. Assustou com doses de desânimo um recente conselho dado à população: Contribuinte, realize suas compras fora do estado, pela internet.

Eu repasso ao governador Mauro Mendes a pergunta de Sango Kuramoti: Quantos empregos, distribuição de renda e impostos estes compradores vão gerar para o nosso Mato Grosso, que tanto precisa melhorar sua economia para que a arrecadação aumente e ajude o Estado a sair do buraco?

O momento é de extrema atenção por conta deste tratamento com o setor produtivo. Ou abrimos espaço para um diálogo produtivo que transcenda a visão pequena de tentar encontrar vilões e desculpas que não irão tirar Mato Grosso da atual situação de penúria, ou só iremos agravar essa situação ao continuarmos esse jogo de acusações e recados a que estamos assistindo.

Mato Grosso é nosso, nossas empresas e nossas famílias vivem aqui. Quando vamos mal, Mato Grosso vai mal e não virá nenhum santo milagreiro de fora para resolver nossos problemas.

Saudades de Sango Kuramoti!

Nelson Soares Junior é presidente da CDL Cuiabá e diretor-executivo do Sindipetróleo, sindicato que representa a revenda de combustíveis de Mato Grosso

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O Papa Leão XIV e os dilemas da tecnologia

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Autor: Ives Gandra da Silva Martins*

Ciência, ética e fé: a encíclica Magnifica humanitas como um guia para o bem comum

A Encíclica Magnifica humanitas (em português: Magnífica humanidade), primeiro documento papal de Leão XIV, publicada em maio deste ano, deve ser lida não só por nós, católicos, mas por todos aqueles que realmente se interessam pela evolução do gênero humano.

O documento pontifício mostra, em primeiro lugar, que para a Igreja não há incompatibilidade entre a ciência e a religião. O texto faz uma menção direta e profunda à Encíclica Rerum Novarum (“Das Coisas Novas”), de Leão XIII, publicada em 1891, que debateu a grave situação dos trabalhadores gerada pela Revolução Industrial, propondo uma via que rejeitava tanto os excessos do capitalismo quanto as propostas do socialismo. Considero que o primeiro grande documento a apresentar soluções de convivência entre a liberdade econômica e a justiça social foi a referida encíclica e não os livros daqueles autores do século XIX que propugnavam a luta de classes.

As diversas encíclicas escritas a partir da Rerum Novarum revelam como a Igreja tem demonstrado compatibilidade e preocupação não só com o ser humano em sua relação com Deus, mas também com o papel de cada indivíduo na convivência com seus semelhantes.

G. K. Chesterton (1874–1936), escritor inglês e defensor da fé e da tradição católica, dizia que nós não vemos o plano de Deus porque estamos do lado de trás de uma tapeçaria, vendo apenas a cordoalha (o avesso da tapeçaria) que lá existe. Mas Deus está vendo o desenho que fez para cada um de nós, a beleza da tapeçaria que está à frente d’Ele.

O que a Encíclica Magnifica humanitas procura mostrar sintetiza-se em três pontos: os desafios contemporâneos da sociedade; a plena compatibilidade entre a ciência e a religião; e, finalmente — sendo este o aspecto mais relevante —, os dilemas trazidos pela inteligência artificial.

O documento pondera tanto os seus benefícios quanto o risco de sua exploração negativa contra a humanidade, alertando especificamente para o perigo de a tecnologia anular o discernimento moral e desumanizar as relações de trabalho, assim como a Revolução Industrial ameaçou o operariado na época da Rerum Novarum. Mostra, enfim, que devemos aprender a utilizar essa poderosa ferramenta tecnológica para o bem comum, protegendo o gênero humano de seus efeitos nocivos.

Ao traçar esse paralelo histórico, o Sumo Pontífice nos recorda que o progresso técnico, isolado de uma sólida moldura ética, tende a converter o ser humano em mero insumo produtivo. Se no século XIX a máquina a vapor ameaçava subjugar a força física do operário, no alvorecer deste milênio os algoritmos e os sistemas autônomos colocam em xeque a própria singularidade do intelecto e do livre-arbítrio.

A mensagem de Leão XIV, portanto, não se reveste de um teor de oposição à tecnologia; ao contrário, ela nos convoca a resgatar a primazia da pessoa humana sobre a técnica, assegurando que a inteligência artificial sirva como instrumento de emancipação e de justiça distributiva, e nunca como vetor de novas e mais profundas desigualdades sociais.

Desse modo, a leitura desta encíclica transcende o debate estritamente teológico para fixar-se como um autêntico tratado de Direito Natural e de preservação da dignidade humana. Diante de uma realidade cada vez mais fragmentada pelo relativismo e pela velocidade das transformações digitais, o documento papal surge como um guia de lucidez e de esperança.

Tenho a impressão de que é uma encíclica que todos devemos ler, crentes ou não, católicos ou de outras convicções, pois ela apresenta os grandes problemas da atualidade, de toda a humanidade, trazendo sugestões muito interessantes para a convivência pacífica e harmoniosa, inclusive na busca de que o bem triunfe sobre o mal.

Vale, pois, a pena ler esse importante documento, que é a Encíclica Magnifica humanitas, do Papa Leão XIV.

*Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).

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