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Marcos Paim: – Ciclo de Estímulo Vs. Evasão Escolar
Ciclo de Estímulo Vs. Evasão Escolar
Por: Marcos Paim –
Que a evasão escolar é um problema sistêmico no Brasil, infelizmente já sabemos há algum tempo. O mais recente Censo Escolar elaborado pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) aponta para mais de dois milhões de crianças e adolescentes fora das salas de aula. E o maior problema está no Ensino Médio, que compreende os anos finais do currículo estudantil básico: 1,3 milhão de adolescentes entre 15 e 17 anos não está na escola.
Não bastasse isso, neste mês surge mais um dado preocupante. Segundo a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) sobre educação, divulgada no último dia 19 de junho, 23% dos jovens brasileiros não estuda e tampouco trabalha. Isso significa mais de 12 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos sem qualquer atividade: um quarto dessa população. O porcentual é ainda mais elevado na faixa “universitária”, de 18 a 24 anos, quando teoricamente poderiam estar fazendo algum bacharelado, iniciando uma especialização ou se inserindo no mercado de trabalho: 27,7%.
Ora, se a Educação é fator primordial para a geração de uma sociedade mais justa, mais segura, mais participativa politicamente, mais ativa na busca por uma melhoria de vida sem recorrer a subterfúgios escusos, então o Brasil, claramente, terá sérios problemas para progredir enquanto coletividade e também disciplinarmente. Afinal, se não somos um país capaz de reter alunos em sala de aula ou mostrar aos jovens a importância de um ofício, então – pedindo licença para usar uma figura de linguagem bem atual e moderna – “falhamos miseravelmente”.
Muitos fenômenos podem explicar o fracasso do Brasil nesta questão: a falta de estrutura das escolas (em muitas situações até básica, como lousa e giz, por exemplo), a qualidade do ensino, os níveis de aprendizado, a progressão sem a real absorção do conhecimento e, por último, mas não menos importante, a formação dos professores.
Docentes estimulados, formados e capacitados poderiam diminuir substancialmente a estatística trazida pela Pnad neste ano. Formar-se-ia um ciclo positivo em torno do futuro do Brasil no que tange à Educação: melhores professores, alunos mais estimulados. Melhores professores, escolas com índices de ensino mais apurados. Melhores professores, mais gente encorajada a um futuro na pedagogia. E, com melhores professores no futuro, o ciclo recomeça.
Chegar ao professor, entretanto, é um dos caminhos que precisamos percorrer. Ainda há de se passar por uma boa gestão educacional, oriunda, evidentemente, do poder público – representado por MEC (Ministério da Educação), secretarias estaduais e municipais e suas respectivas coordenadorias pedagógicas. Há de se passar pela solidificação de um currículo escolar adequado a instituições públicas e particulares, sem fazer distinção de classe social. E há de se passar por uma escola preparada para lidar com crianças e jovens de diferentes criações, pensamentos, ideologias, valores e princípios, para não perder estudante de vista e dá-lo o suporte necessário também enquanto ser humano.
E, quando falamos em valorizar o trabalho dos docentes, não significa apenas dá-los a oportunidade de formação universitária adequada (e até continuada) ou pagá-los salários dignos. Isso seria apenas a garantia do básico. O docente é o profissional responsável por conseguir incutir o conteúdo programático na cabeça dos alunos de forma assertiva: não se trata de fazê-los decorar, mas, sim, de fazê-los compreender. E há urgente necessidade de dar ferramentas aos docentes para facilitar essa tarefa.
Fomentar a absorção do conhecimento com aulas práticas, como faz a ONG Educando por meio do programa STEM Brasil, é oferecer ao professor a oportunidade de dar o segundo passo no “Ciclo do Estímulo”. O primeiro é garantir tal mecanismo ao próprio docente. Conectar tradicionais matérias a habilidades “mão na massa” torna o aprendizado muito mais atraente e engajador, tanto para os profissionais de ensino quanto para os alunos.
Apoiar professores com formações que conectem conteúdo escolar à realidade – deixando claro sua aplicação prática no dia a dia – aliado a oportunidades de iniciação à pesquisa e desenvolvimento de projetos, faz com que eles virem estrelas. Primeiramente aos olhos dos alunos e, em seguida, da sociedade. Combater as evasões escolar e do mercado de trabalho é papel também dos professores. E o protagonista, responsável por oferecer a arma do “Ciclo do Estímulo” é o próprio Brasil.
Marcos Paim, professor e diretor do programa STEM Brasil da ONG Educando.
Artigos
O Papa Leão XIV e os dilemas da tecnologia
Autor: Ives Gandra da Silva Martins* –
Ciência, ética e fé: a encíclica Magnifica humanitas como um guia para o bem comum
A Encíclica Magnifica humanitas (em português: Magnífica humanidade), primeiro documento papal de Leão XIV, publicada em maio deste ano, deve ser lida não só por nós, católicos, mas por todos aqueles que realmente se interessam pela evolução do gênero humano.
O documento pontifício mostra, em primeiro lugar, que para a Igreja não há incompatibilidade entre a ciência e a religião. O texto faz uma menção direta e profunda à Encíclica Rerum Novarum (“Das Coisas Novas”), de Leão XIII, publicada em 1891, que debateu a grave situação dos trabalhadores gerada pela Revolução Industrial, propondo uma via que rejeitava tanto os excessos do capitalismo quanto as propostas do socialismo. Considero que o primeiro grande documento a apresentar soluções de convivência entre a liberdade econômica e a justiça social foi a referida encíclica e não os livros daqueles autores do século XIX que propugnavam a luta de classes.
As diversas encíclicas escritas a partir da Rerum Novarum revelam como a Igreja tem demonstrado compatibilidade e preocupação não só com o ser humano em sua relação com Deus, mas também com o papel de cada indivíduo na convivência com seus semelhantes.
G. K. Chesterton (1874–1936), escritor inglês e defensor da fé e da tradição católica, dizia que nós não vemos o plano de Deus porque estamos do lado de trás de uma tapeçaria, vendo apenas a cordoalha (o avesso da tapeçaria) que lá existe. Mas Deus está vendo o desenho que fez para cada um de nós, a beleza da tapeçaria que está à frente d’Ele.
O que a Encíclica Magnifica humanitas procura mostrar sintetiza-se em três pontos: os desafios contemporâneos da sociedade; a plena compatibilidade entre a ciência e a religião; e, finalmente — sendo este o aspecto mais relevante —, os dilemas trazidos pela inteligência artificial.
O documento pondera tanto os seus benefícios quanto o risco de sua exploração negativa contra a humanidade, alertando especificamente para o perigo de a tecnologia anular o discernimento moral e desumanizar as relações de trabalho, assim como a Revolução Industrial ameaçou o operariado na época da Rerum Novarum. Mostra, enfim, que devemos aprender a utilizar essa poderosa ferramenta tecnológica para o bem comum, protegendo o gênero humano de seus efeitos nocivos.
Ao traçar esse paralelo histórico, o Sumo Pontífice nos recorda que o progresso técnico, isolado de uma sólida moldura ética, tende a converter o ser humano em mero insumo produtivo. Se no século XIX a máquina a vapor ameaçava subjugar a força física do operário, no alvorecer deste milênio os algoritmos e os sistemas autônomos colocam em xeque a própria singularidade do intelecto e do livre-arbítrio.
A mensagem de Leão XIV, portanto, não se reveste de um teor de oposição à tecnologia; ao contrário, ela nos convoca a resgatar a primazia da pessoa humana sobre a técnica, assegurando que a inteligência artificial sirva como instrumento de emancipação e de justiça distributiva, e nunca como vetor de novas e mais profundas desigualdades sociais.
Desse modo, a leitura desta encíclica transcende o debate estritamente teológico para fixar-se como um autêntico tratado de Direito Natural e de preservação da dignidade humana. Diante de uma realidade cada vez mais fragmentada pelo relativismo e pela velocidade das transformações digitais, o documento papal surge como um guia de lucidez e de esperança.
Tenho a impressão de que é uma encíclica que todos devemos ler, crentes ou não, católicos ou de outras convicções, pois ela apresenta os grandes problemas da atualidade, de toda a humanidade, trazendo sugestões muito interessantes para a convivência pacífica e harmoniosa, inclusive na busca de que o bem triunfe sobre o mal.
Vale, pois, a pena ler esse importante documento, que é a Encíclica Magnifica humanitas, do Papa Leão XIV.
*Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).
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