Search
Close this search box.

Artigos

Jairo Pitolé Sant’Ana: – Saudade ou tristeza?

Publicados

em

                                    Saudade ou tristeza?

Por Jairo Pitolé Sant’Ana – 

Será possível sentir saudades de uma vida que não se viveu? Parece que sim. Comigo acontece sempre quando imagino a Cuiabá da década de 1960, cortada por inúmeros córregos e rios, como uma Veneza (perdão pela hipérbole) do Cerrado; quando o peixe era farto e o calor abrandado pela umidade emanada de seus leitos e pelo verde dos quintais. (E olha que não posso reclamar da minha infância de interiorano, das “peladas” jogadas em campinhos improvisados às margens de –também – córregos e rios, onde se refrescava durante o intervalo entre uma partida e outra).

jairo-pitoleCuiabá era, ainda naquela década, uma cidade com 60 mil habitantes, que foram dobrando, como em uma progressão aritmética, nas décadas seguintes – 103 mil habitantes, em 1970; 217 mil, em 1980; e 401 mil, 1990. Hoje, quase 1 milhão de habitantes (incluindo Várzea Grande) vivem em sua região metropolitana.

À medida que a população foi crescendo e se gentrificando (quando os mais pobres são empurrados para áreas mais distantes e menos nobres, o que, com raras exceções, não é “privilégio” nem de Cuiabá, nem de Mato Grosso, nem do Brasil – onde há especulação imobiliária, com certeza há gentrificação), os córregos foram sendo os depósitos naturais de lixo e de lançamento do esgoto doméstico. 

Leia Também:  Vítimas de violência doméstica podem ter direito a benefício por incapacidade?

Deu no que deu.

Areão, Barbado, Baú, Caixão, Canjica, Engole Cobra, Gambá, Gumitá, Mãe Bonifácia, Mané Pinto, Moinho, Prainha, Quarta-feira, Ribeirão do Lipa, São Gonçalo, Três Barra e 8 de Abril e outros sete, cujos nomes, confesso, não consegui levantar, quase todos, só têm nome de córrego. 

É esgoto puro. Dá até dó de ver.

E parece que entregaram pra Deus. Uma pesquisa, feita ainda década passada por geólogos da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso) a pedido da própria Prefeitura de Cuiabá, chegou a uma triste conclusão. 

”Os 24 córregos da Capital, que deságuam nos rios Coxipó e Cuiabá, estão na eminência de virar simplesmente esgotos. Em 80% deles não há mais vida. A água secou, a mata ciliar desapareceu e muitos foram aterrados para garantir espaço para novas construções”.

Imagens por satélites e inspeções constataram que em 208,4 mil km de extensão destes 24 córregos, 172,3 mil km já estavam com suas águas contaminadas por esgoto e lixo, causando a extinção de nascentes por erosão, aterramento e escavações. Foram os casos do Canjica, Gambá, Quarta-feira e Gumitá. Nada foi feito. Logo em seguida à divulgação da pesquisa em 2009, Cuiabá foi anunciada como sub-sede da Copa do Mundo de Futebol e a febre das construções chegou ao seu grau máximo. Mesmo com crise, a febre se mantém, embora em menor intensidade. 

Leia Também:  Eduardo Gomes: - De merci

Nada foi feito e, pelo andar da carruagem, nada será feito – espero estar totalmente errado. É assim aqui, é assim em São Paulo, é assim no Rio de Janeiro … é assim no Brasil inteiro e em boa parte do mundo. 

Mas a continuar como está, a tendência é piorar, mais e mais, enquanto a herança para as gerações futuras será cada vez mais degradante. O leite está derramando e ninguém percebe ou finge que não percebe. O choro, se as lágrimas também não secarem antes, será inevitável.

Jairo Pitolé Sant'Ana é jornalista

Propaganda
Clique para comentar

Você precisa estar logado para postar um comentário Login

Deixe uma resposta

Artigos

Como evitar que os fracassos definam nossa identidade?

Publicados

em

Autor: Luis Carlos Marques Fonseca*

A pressão para sermos bem-sucedidos social e economicamente transformou erros e perdas em uma crise de identidade coletiva. Ao observarmos a sociedade atual, percebemos que a angústia de “não atingirmos determinados resultados que desejamos” nasce, em grande parte, da incapacidade de separar nossos resultados de quem essencialmente somos. Por que permitimos que um tropeço se transforme em uma sentença? A resposta, embora complexa, reside na forma como construímos nossa identidade, pois a chave para a liberdade não é a ausência de tropeços, mas a prática consciente da não identificação com as nossas conquistas e fracassos.

A sociedade contemporânea nos empurra para uma fusão perigosa entre o “fazer ou ter” e o “ser”. Se um projeto colapsa, a pessoa se sente inferior; se um papel social se desfaz, ela sente que perdeu a “razão de viver”. No entanto, precisamos resgatar a perspectiva do ator e do personagem. O seu “Eu Real” é o ator; as circunstâncias da vida — o emprego, os sucessos, as posses, as relações sociais, as crises — são apenas papéis no palco. O ator se entrega ao papel com intensidade e responsabilidade, mas ele nunca esquece que, ao fechar das cortinas, sua essência permanece intacta, independentemente de o personagem ter triunfado, fracassado ou perecido.

Para evitar que uma fissura se torne um trauma limitante, é preciso aprender a extrair a essência da experiência, e tornar-se mais consciente de si mesmo. Quando erramos, temos dois caminhos: carregar a dor do “erro” como um trauma que limitará futuras ações ou aprender com ele, tornando-se mais aptos a integrar conscientemente novas situações mais complexas de vida. O fracasso só define a identidade daquele que não é capaz de aprender com os próprios deslizes. Quando assumimos a responsabilidade pelos nossos erros, temos a possibilidade de correção, paramos de culpar a nós mesmo, aos demais ou ao destino e retomamos as rédeas do nosso caminho, de sermos cada vez mais conscientes.

Viver sem apego excessivo aos resultados não significa agir com indiferença, mas sim aproveitar com plenitude cada momento presente. O “Eu Artificial” adora habitar o passado, remoendo mágoas e falhas antigas para justificar o medo do futuro e a responsabilidade de ser o dono do próprio destino. Estar inteiro no agora, fazendo uso de toda experiência acumulada, é a única forma de impedir que a memória negativa e o apego às nossas conquistas e fracassos passados ditem nossos próximos passos.

As conquistas e fracassos, portanto, devem ser vistos como oportunidades de aprendizado. São experiências necessárias para o despertar das virtudes próprias de nossa verdadeira identidade: a Vontade, a Intuição e a Inteligência. Quando deixamos de rejeitar a queda e passamos a observar o que ela nos ensina, a identidade deixa de ser um castelo de cartas vulnerável ao vento das circunstâncias e se torna uma estrutura sólida, forjada na experiência e na sabedoria de quem se identifica com algo em si mesmo que está além de qualquer resultado passageiro.

Não somos o que nos acontece; somos seres conscientes que decidem o que fazer com aquilo que acontece. O palco pode mudar, mas o ator, se estiver consciente de si, jamais se perde na cena.

*Luis Carlos Marques Fonseca é diretor-presidente da Nova Acrópole Brasil Norte e autor do livro Filosofia: O caminho da liberdade (Hanoi Editora).

Leia Também:  E as sextas-feiras que não são 13?
Continue lendo

MAIS LIDAS DA SEMANA