Search
Close this search box.

Artigo

Nova medicação não hormonal amplia opções para aliviar os fogachos da menopausa

Publicados

em

Autora: Mariana Ramos*

Os fogachos, popularmente conhecidos como “ondas de calor”, estão entre os sintomas mais frequentes e incômodos da menopausa. Muitas mulheres descrevem episódios repentinos de calor intenso, acompanhados de suor excessivo, palpitações e vermelhidão na pele, que podem ocorrer diversas vezes ao dia e interromper o sono durante a noite, comprometendo significativamente a qualidade de vida.

Embora façam parte da transição para a menopausa, esses sintomas não devem ser encarados como algo que a mulher simplesmente precisa suportar. A boa notícia é que os avanços da medicina têm ampliado as opções de tratamento, oferecendo alternativas cada vez mais eficazes e seguras para enfrentar essa fase.

Até pouco tempo, as principais opções de tratamento eram a terapia hormonal e alguns medicamentos utilizados originalmente para outras doenças, como determinados antidepressivos. Recentemente, uma nova classe de medicamentos passou a integrar o arsenal terapêutico contra os fogachos. Diferentemente da terapia hormonal, considerada o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores da menopausa quando não há contraindicações, essa nova medicação atua diretamente em um mecanismo do cérebro responsável pela regulação da temperatura corporal, sem utilizar hormônios.

O medicamento pertence à classe dos antagonistas dos receptores de neurocinina 3 (NK3). Durante a menopausa, a queda dos níveis de estrogênio altera o funcionamento de neurônios localizados no hipotálamo, região do cérebro responsável, entre outras funções, pelo controle da temperatura corporal. Como consequência, pequenas variações de temperatura passam a ser interpretadas pelo organismo como calor excessivo, desencadeando os fogachos.

O primeiro representante dessa classe é o fezolinetant, aprovado por agências regulatórias como a FDA (Estados Unidos) e a EMA (União Europeia) para o tratamento dos sintomas vasomotores moderados a intensos da menopausa. Ao bloquear os receptores de neurocinina 3, ele ajuda a restabelecer esse equilíbrio, reduzindo a frequência e a intensidade dos fogachos, conforme demonstrado em estudos clínicos.

Essa inovação representa um avanço especialmente para mulheres que apresentam contraindicação ao uso de hormônios, como algumas pacientes com histórico de câncer de mama hormônio-dependente, doenças tromboembólicas, determinadas doenças hepáticas ou outras condições clínicas que impedem a terapia hormonal. Também pode beneficiar aquelas que simplesmente preferem um tratamento não hormonal, desde que haja indicação médica.

Como qualquer medicamento, o fezolinetant também apresenta contraindicações e possíveis efeitos adversos. Antes do início do tratamento, é necessária avaliação médica, incluindo análise da função hepática, além de acompanhamento conforme as recomendações de segurança.

Entretanto, é importante esclarecer que a nova medicação não substitui automaticamente a terapia hormonal. A reposição hormonal continua sendo, para muitas mulheres, o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores e, quando corretamente indicada, oferece benefícios adicionais, como preservação da saúde óssea, melhora dos sintomas geniturinários da menopausa, da qualidade do sono e da qualidade de vida.

A escolha do tratamento deve sempre ser individualizada. Cada mulher apresenta uma história clínica, fatores de risco, intensidade dos sintomas e expectativas diferentes. Por isso, não existe uma única abordagem válida para todas.

Além do tratamento medicamentoso, hábitos de vida saudáveis continuam desempenhando papel fundamental no cuidado da saúde durante a menopausa. Embora essas medidas isoladamente tenham efeito limitado sobre os fogachos, manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente, controlar o peso corporal, dormir adequadamente e evitar o tabagismo e o consumo excessivo de álcool contribuem para a saúde global e para uma melhor qualidade de vida nessa fase.

Também é importante lembrar que os fogachos não afetam apenas o conforto físico. Quando intensos, podem provocar fadiga, dificuldade de concentração, alterações de humor, prejuízo da produtividade no trabalho e impacto negativo nas relações familiares e sociais. Tratar esses sintomas significa preservar não apenas o bem-estar, mas também a saúde física e emocional da mulher.

A chegada dessa nova opção terapêutica amplia as possibilidades de tratamento e reforça um conceito cada vez mais presente na medicina moderna: oferecer um cuidado individualizado, baseado nas características, necessidades e preferências de cada paciente.

A menopausa não precisa ser vivida com sofrimento. Hoje dispomos de tratamentos eficazes, hormonais e não hormonais, capazes de proporcionar mais conforto, segurança e qualidade de vida. O primeiro passo continua sendo procurar um médico capacitado para avaliar cada caso de forma individual e indicar a estratégia terapêutica mais adequada.

*Dra. Mariana Ramos é endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá-MT.

COMENTE ABAIXO:
Leia Também:  Ensino Médio de 2025: apesar dos desafios, muito otimismo
Propaganda

Artigos

O que uma sociedade perde quando para de ouvir os mais velhos?

Publicados

em

Autor: Junior Aguiar*

Vivemos uma época obcecada pelo novo. Novas tecnologias, novas tendências, novas formas de consumir informação. No meio dessa velocidade, existe uma pergunta que raramente fazemos: o que acontece quando uma sociedade deixa de ouvir aqueles que carregam suas histórias?

Durante séculos, a memória humana foi transmitida pela oralidade. Antes dos arquivos digitais, das redes sociais e até da popularização dos livros, eram as pessoas que preservavam o passado. Histórias de família, acontecimentos da comunidade, lendas, tragédias, conselhos e experiências atravessavam gerações pela voz de quem viveu.

Hoje, temos mais informação do que em qualquer outro momento da história. Paradoxalmente, talvez estejamos ouvindo menos. Quando um idoso morre, não desaparece apenas uma pessoa. Desaparece uma biblioteca que nunca foi escrita. Muitas vezes, desaparecem detalhes de uma época, formas de enxergar o mundo, memórias de acontecimentos locais e experiências que não estão registradas em lugar nenhum.

A oralidade tem uma característica que nenhum banco de dados consegue reproduzir: ela transmite não apenas fatos, mas significado. Uma mesma história contada por alguém que a viveu carrega emoção, contexto, hesitações, silêncios e interpretações que ajudam a compreender o que aconteceu de forma muito mais profunda.

Isso é especialmente importante em cidades pequenas e comunidades tradicionais. Grande parte da identidade desses lugares continua sendo preservada por pessoas que contam histórias. São relatos que explicam de onde viemos, quem fomos e por que determinadas memórias continuam importantes. Ao ignorarmos essas vozes, corremos o risco de produzir uma sociedade tecnicamente informada, mas emocionalmente desconectada da própria trajetória.

Talvez o desafio do nosso tempo não seja apenas registrar mais informações. Talvez seja reaprender a escutar. Porque uma cultura não desaparece quando perde seus documentos. Ela desaparece quando deixa de transmitir suas histórias. E nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, consegue substituir completamente uma geração contando à outra quem ela foi.

*Junior Aguiar é professor universitário, escritor e autor de “Os Segredos do Pintor Medeiros: os Mistérios da Gruta Silenciosa”, um livro que retrata a força da memória na história de personagens que moram em Caririaçu, na região do Cariri cearense

COMENTE ABAIXO:
Leia Também:  RESOLUÇÃO 193 DA CVM: UMA NOVA ERA PARA O ESG
Continue lendo

MAIS LIDAS DA SEMANA