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Conversas atravessadas
Autor: Onofre Ribeiro –
A sociedade de Mato Grosso se habituou nas últimas eleições a escolher entre dois candidatos opostos polarizados. Cada um defendendo uma plataforma pessoal que oferecia a sua forma de lidar com a problemática da gestão pública em todos os níveis. Cito o exemplo recente da eleição em Cuiabá, onde o então prefeito Emanuel Pinheiro e o vereador Abílio Brunini disputaram muito mais a alma do que a eleição. Foi um duelo no circo romano no tempo do “circo e pão” ao povo.
Passada a eleição municipal de 2020, desenhou-se imediatamente a eleição geral de 2022, onde se disputarão os cargos de presidente das República, de governadores, de um senador, de oito deputados federais e de 24 deputados estaduais. É um complexo tabuleiro de poder. Seria mais simples, se esse tabuleiro fosse dirigido pelos partidos políticos. O papel dos partidos deveria ser o de organizar as correntes de pensamento da sociedade e escolher candidatos que coubessem dentro dos figurinos éticos e de propósitos do espírito da gestão.
Não é mais. Os partidos tornaram-se meras siglas cuja importância se resume em registrar candidaturas em seu nome. Aqui cabe discutir o empobrecimento das gestões na medida em que saem de debaixo do guarda chuvas partidários, para se tornarem projetos pessoais de candidatos que se inscreveram neles unicamente pela necessidade a atender à burocracia da lei eleitoral.
Muito bem. Vamos ao título do artigo. Desde antes da eleição de 2020, o governador Mauro Mendes, eleito em 2018, entrou em rota de colisão com o prefeito em exercício de Cuiabá, Emanuel Pinheiro. Na reeleição de 2020 de prefeito, a briga acirrou-se e ampliou fortemente em 2021.
Discussões diárias e bate-bocas entre ambos resvalam de maneira muito desagradável dentro da sociedade. Isso é um lado. Mas tem outro. O governador Mauro Mendes está repetindo a armadilha ocorrida entre o ex-governador Pedro Taques e a deputado estadual Janaína Riva, em 2019. Na disputa do funcionalismo público pela concessão da RGA, o governador entrou em colisão pessoal com os sindicatos setoriais dentro do governo de Mato Grosso. Esses se fortaleceram a partir da atenção equivocada do governador e criaram um fórum sindical com enorme força e pressionaram o governo.
Defendendo os funcionários públicos, a jovem e inexperiente deputada de primeiro mandato, Janaina Riva, enfrentou o governador. Ele desceu da hierarquia de governador e foi ao palco da briga sindical bater boca com ela. Resultado: ela agigantou-se e ele apequenou-se.
O governador Mauro Mendes está seguindo a mesma cartilha equivocada de Pedro Taques, quando optou por descer da sua hierarquia e bater boca com o prefeito de Cuiabá. O prefeito aproveitou-se da brecha e vem construindo um raciocínio de candidato a governador, justamente em cima de sua hierarquização aberta pelo governador. Nesse caso, o governador desceu à hierarquia do prefeito. As discussões descem da posição macro política de governador pra micro política do município de Cuiabá.
O leitor deve estar se perguntando se o governador deveria ignorar as provocações e fingir-se de surdo. Não é o caso. Indique alguém da equipe com o perfil adequado e coloque-o na hierarquia do prefeito. Governador é magistrado. Não opina no chão da fábrica. É assim que a sociedade precisa dele.
Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso
– [email protected]
– www.onofreribeiro.com.br
Artigos
Como a redução da jornada e escala de trabalho pode pesar no bolso do cidadão
Autor: Jorge Gonçalves Filho* –
Enquanto os debates em torno da PEC 221/2019, que propõe a redução da jornada e escala de trabalho, concentram-se fortemente nas reações do varejo, da indústria e de suas grandes associações patronais, um impacto profundo e silencioso ameaça o cotidiano da população. Para além das grandes linhas de montagem, há uma vasta cadeia de prestação de serviços essenciais que sentirá o golpe de forma imediata, transferindo o custo diretamente para o bolso do cidadão comum.
O setor condominial é um dos termômetros mais claros desse cenário. De acordo com dados do mais recente Censo Condominial 2025/2026, o Brasil conta com cerca de 327 mil condomínios, que servem de lar para, aproximadamente, 39 milhões de moradores. Dentro dessa estrutura, a mão de obra, composta por vigilantes, porteiros, profissionais de limpeza e zeladores, representa a maior fatia das despesas ordinárias, alcançando cerca de 70% dos custos totais de manutenção.
Estudos setoriais indicam que a adaptação da escala de trabalho às novas exigências da PEC gerará um incremento de 20% a 23% no custo da mão de obra. O reflexo dessa conta é matemático e inevitável: estima-se um aumento médio de 14% na taxa de condomínio.
O impacto social da medida é que para uma parcela significativa dos 39 milhões de residentes, muitos dos quais já enfrentam o endividamento e a perda do poder de compra, esse reajuste pode ser o gatilho para a inadimplência, inviabilizando o pagamento dos boletos mensais de condomínio e desestabilizando a saúde financeira das comunidades.
O governo não poderá dizer que não haverá aumento do custo de vida, incluindo os serviços públicos, os quais, quem paga, são os contribuintes. O texto da proposta deixa explícito o seu alcance sobre os serviços públicos. Conforme estabelece o artigo 9º da PEC: nos contratos celebrados pela administração pública direta e indireta, no âmbito da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, vigentes na data de publicação desta Emenda Constitucional e cuja execução envolva emprego direto de mão de obra, as disposições relativas à redução da duração do trabalho normal serão aplicadas após aditamento contratual para manutenção do equilíbrio econômico-financeiro.
Na prática a manutenção do equilíbrio econômico-financeiro significa uma única coisa: as empresas terceirizadas que prestam serviços públicos para condomínios, hospitais, escolas, segurança e órgãos públicos repassarão o custo do aumento da mão de obra. Quem pagará a conta?
Como o Estado não gera riqueza própria, o fechamento dessa conta se dará por duas vias conhecidas: a piora na qualidade dos serviços prestados ou o aumento da carga tributária. No fim, o contribuinte é quem pagará uma conta para a qual não foi consultado, evidenciando que a reforma, se aprovada sem amortecedores econômicos, cobrará um preço alto de toda a sociedade. E o povo precisa saber disto.
*Jorge Gonçalves Filho – Presidente do IDV – Instituto para Desenvolvimento do Varejo
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