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Breno Molina: – Pecuarista, um sobrevivente da crise
Pecuarista, um sobrevivente da crise
Autor: Breno Molina –
Mato Grosso possui cerca de 100 mil pecuaristas, mais de 80% deles possuem no máximo 290 cabeças. Então, quando falamos no setor da pecuária e do aumento na arroba bovina, estamos nos referindo em sua grande maioria a pequenos produtores que enfrentam há mais de cinco anos uma grave crise financeira com a estagnação no preço da arroba bovina.
Claro que nós, pecuaristas, não vamos comemorar o encarecimento da cesta básica ou a restrição no consumo desse alimento tão importante para a população brasileira, que é a carne. Por outro lado, quem hoje critica o reajuste nos preços tem ideia de que muitos produtores vêm diminuindo o próprio rebanho, arrendando ou vendendo parte das suas terras para sobreviver?
Apesar de os insumos voltados à produção na pecuária terem sido constantemente reajustados em mais de 100% nesse período, entre eles, óleo diesel, encargos trabalhistas, energia elétrica, ração, sal mineral, arame e medicamentos, com a atual valorização, o preço pago pela arroba de boi subiu somente 40%, ou seja, menos da metade.
Pesa sobre nós ainda, outro item importante: uma alta carga tributária. Se nos compararmos a estados vizinhos, como Pará ou Mato Grosso do Sul, pagamos até 12 vezes mais impostos e somos muito pouco competitivos em vários aspectos no mercado interno e externo. Ainda assim, sempre que o Estado passa por problemas de gestão, por investir mal os impostos arrecadados, ameaça de taxação o agronegócio induzindo a população ao erro de acreditar que somos “barões”.
No início do ano, inclusive, nos posicionamos contrários à manutenção do Fethab 2 e também criticamos os inúmeros impostos (Fethab 1, Fabov, Fesa, etc), que sobrecarregam o produtor, mas não são revertidos em melhorias na infraestrutura que é necessária para o escoamento da produção mato-grossense. Do que adianta termos o maior rebanho do país, com 30,2 milhões de animais, se não temos apoio para manter a atividade?
Realmente não tem lógica, principalmente se pensarmos que mesmo com uma margem negativa ou muito próxima disso, temos que modernizar a pecuária, investindo em novas tecnologias e genética. Porque a qualidade da carne que vai à mesa do cidadão passa pelo investimento que cada um de nós vem fazendo e que infelizmente ninguém sabe ou não quer ver, inclusive o próprio governo!
Em meio às críticas recentes, chegamos à conclusão de que o povo brasileiro desconhece como é a vida no campo e os percalços pelos quais passam os produtores rurais. Comprar os alimentos em prateleiras de supermercados gera a falsa impressão de que tudo é muito simples e fácil, porém, a nossa atividade exige muita paixão pelo que se faz. Caso contrário, já teríamos desistido.
O cenário está melhor sim e ao invés de comemorar, estamos aproveitando o momento para pagar contas e ter um fôlego para 2020. Não temos certeza sobre os preços, se vão ou não se estabilizar, mas neste primeiro ano do governo Bolsonaro nós obtivemos conquistas importantes, entre elas, a abertura de novos mercados de exportação com a venda dos nossos produtos para Oriente Médio e China.
É fundamental refletir ainda sobre a manutenção no câmbio do dólar. A política adotada pelo ministro Paulo Guedes contribuiu para a valorização do nosso produto por parte das indústrias, e esse é um fator decisivo para a regulação do mercado. Entenda que não é o pecuarista que determina o preço da arroba bovina, mas a indústria frigorífica que diz o quanto pode pagar.
Como boa parte da nossa produção da carne é exportada, os preços praticados nas últimas semanas vêm beneficiando toda a cadeia produtiva, inclusive o produtor. Ainda assim, o incremento médio para nós foi de apenas até 40%, o que não conseguiu equiparar ainda as perdas sofridas nos últimos cinco anos. Pelo contrário, estamos nos recuperando de uma longa e acentuada crise.
Breno Molina, presidente da Associação dos Criadores Nelore de Mato Grosso (ACNMT), pecuarista em Poconé e empresário em Cuiabá,[email protected]
Artigos
Como a redução da jornada e escala de trabalho pode pesar no bolso do cidadão
Autor: Jorge Gonçalves Filho* –
Enquanto os debates em torno da PEC 221/2019, que propõe a redução da jornada e escala de trabalho, concentram-se fortemente nas reações do varejo, da indústria e de suas grandes associações patronais, um impacto profundo e silencioso ameaça o cotidiano da população. Para além das grandes linhas de montagem, há uma vasta cadeia de prestação de serviços essenciais que sentirá o golpe de forma imediata, transferindo o custo diretamente para o bolso do cidadão comum.
O setor condominial é um dos termômetros mais claros desse cenário. De acordo com dados do mais recente Censo Condominial 2025/2026, o Brasil conta com cerca de 327 mil condomínios, que servem de lar para, aproximadamente, 39 milhões de moradores. Dentro dessa estrutura, a mão de obra, composta por vigilantes, porteiros, profissionais de limpeza e zeladores, representa a maior fatia das despesas ordinárias, alcançando cerca de 70% dos custos totais de manutenção.
Estudos setoriais indicam que a adaptação da escala de trabalho às novas exigências da PEC gerará um incremento de 20% a 23% no custo da mão de obra. O reflexo dessa conta é matemático e inevitável: estima-se um aumento médio de 14% na taxa de condomínio.
O impacto social da medida é que para uma parcela significativa dos 39 milhões de residentes, muitos dos quais já enfrentam o endividamento e a perda do poder de compra, esse reajuste pode ser o gatilho para a inadimplência, inviabilizando o pagamento dos boletos mensais de condomínio e desestabilizando a saúde financeira das comunidades.
O governo não poderá dizer que não haverá aumento do custo de vida, incluindo os serviços públicos, os quais, quem paga, são os contribuintes. O texto da proposta deixa explícito o seu alcance sobre os serviços públicos. Conforme estabelece o artigo 9º da PEC: nos contratos celebrados pela administração pública direta e indireta, no âmbito da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, vigentes na data de publicação desta Emenda Constitucional e cuja execução envolva emprego direto de mão de obra, as disposições relativas à redução da duração do trabalho normal serão aplicadas após aditamento contratual para manutenção do equilíbrio econômico-financeiro.
Na prática a manutenção do equilíbrio econômico-financeiro significa uma única coisa: as empresas terceirizadas que prestam serviços públicos para condomínios, hospitais, escolas, segurança e órgãos públicos repassarão o custo do aumento da mão de obra. Quem pagará a conta?
Como o Estado não gera riqueza própria, o fechamento dessa conta se dará por duas vias conhecidas: a piora na qualidade dos serviços prestados ou o aumento da carga tributária. No fim, o contribuinte é quem pagará uma conta para a qual não foi consultado, evidenciando que a reforma, se aprovada sem amortecedores econômicos, cobrará um preço alto de toda a sociedade. E o povo precisa saber disto.
*Jorge Gonçalves Filho – Presidente do IDV – Instituto para Desenvolvimento do Varejo
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