Artigo
A mulher perfeita não existe, e talvez seja a hora de parar de persegui-la
Autora: Isolda Risso* –
Há uma mulher perfeita por aí. Ela acorda cedo, trabalha, cuida da casa, dos filhos, do relacionamento, mantém uma vida social ativa, pratica exercícios, alimenta-se bem, está sempre bonita, responde às mensagens, acompanha as tendências, é emocionalmente madura, financeiramente organizada e ainda encontra tempo para cuidar de si.
Quando está no trabalho, ela não pode deixar que a vida pessoal atrapalhe, e quando está em casa, não pode deixar que o trabalho ocupe espaço demais. Quando é mãe, precisa estar presente, mas quando não é mãe, precisa justificar a escolha. Quando está solteira, deveria estar aberta ao amor, só que quando está em um relacionamento, é ela que precisa fazê-lo funcionar.
E, em algum momento do dia, ela deve descansar, tirar um breve cochilo da tarde, ou ter um tempo para desenvolver um desejo pessoal. O que, em retrospecto, parece irreal, certo? Porque é. Essa mulher é uma invenção, mas a cobrança para que sejamos como ela é bastante real.
Talvez uma das maiores armadilhas impostas às mulheres nas últimas décadas tenha sido transformar a ideia de independência em uma obrigação de autossuficiência. Conquistamos o direito de ocupar espaços, construir carreiras, escolher se queremos ou não uma família, administrar nosso próprio dinheiro e tomar decisões sobre nossas vidas, e tudo isso é visto e comemorado como conquista.
O problema começa quando a possibilidade de fazer escolhas se transforma na expectativa de fazer todas elas simultaneamente e com excelência. Para além de trabalhar, se deve construir uma carreira, e, junto disso, prosperar. Mas prosperar não é o suficiente, porque não podemos focar apenas em nós mesmas, então devemos conciliar, e é preciso parecer feliz enquanto fazemos isso.
Essa lógica é perversa porque transforma qualquer limite em fracasso pessoal. Se estamos cansadas, administramos mal o tempo. Se não conseguimos avançar profissionalmente, talvez não estejamos nos esforçando o suficiente. Se não temos tempo para os amigos, precisamos nos organizar melhor. Se não conseguimos cuidar do corpo, falta disciplina.
Quase nunca nos perguntamos se o problema está na quantidade absurda de coisas que esperamos que uma única pessoa consiga sustentar. E, nesse sentido, é bastante curioso como a sociedade passou a falar tanto sobre autocuidado enquanto continua produzindo condições que dificultam o próprio cuidado. Vendemos velas aromáticas, aplicativos de meditação, academias, retiros e rotinas matinais como soluções para uma exaustão que, muitas vezes, não é individual.
Há cansaços que não se resolvem com uma boa noite de sono, que são produzidos por excesso de responsabilidade, pela divisão desigual do trabalho doméstico, pela pressão profissional, pela necessidade de estar constantemente disponível e pela sensação de que sempre existe alguma área da vida que estamos negligenciando.
E existe ainda nesse problema uma camada particularmente cruel, que é a culpa. A mulher cansada frequentemente não pensa apenas “estou cansada”, ela pensa: “nossa, eu deveria estar conseguindo”, e essa pequena frase diz muito sobre o problema.
Porque isso indica que aprendemos a interpretar nossos limites como defeitos de caráter. Como se precisar de ajuda fosse sinal de incompetência, ou como se descansar fosse desperdício, só que ninguém consegue viver permanentemente no limite sem pagar algum preço.
A questão, portanto, não deveria ser como fazer para dar conta de tudo. Precisamos começar a perguntar: o que realmente precisa ser feito? O que pode esperar? O que pode ser delegado? O que não precisa ser perfeito? E, principalmente, o que estamos sacrificando para manter a aparência de que está tudo sob controle?
E a melhor parte disso, talvez, seja o fato de que a resposta nunca será a mesma. Há mulheres que irão escolher a maternidade, e outras jamais serão mães. Algumas vão colocar a carreira no centro da vida, e outras irão preferir uma rotina menos competitiva. Algumas vão querer construir uma família, outras encontrarão realização em projetos completamente diferentes.
Nenhuma dessas escolhas deveria precisar ser acompanhada de uma performance de excelência permanente, porque, no fim, a vida não é uma planilha de produtividade. Haverá períodos em que seremos profissionais melhores do que companheiras e, em outros, a família exigirá mais de nós. Haverá momentos em que nosso corpo será prioridade e outros em que simplesmente não teremos energia para cuidar dele como gostaríamos.
Isso não significa que estamos falhando, só que estamos vivendo. A mulher possível é muito menos glamourosa do que a mulher ideal. Ela chega atrasada, cancela compromissos, muda de ideia, não responde todas as mensagens, nem sempre está bonita, às vezes precisa de ajuda, comete erros, tem dias improdutivos e faz escolhas que não agradam a todo mundo.
E continua sendo uma mulher inteira.
*Isolda Risso – É empresária, mãe de um lindo casal de filhos, cronista, coach de vida, mulher aos 60+, terapeuta, entusiasta da arteterapia, gastrônoma; um dos seus hobbies é a fotografia e criar arranjos florais, curiosa de nascença, aprendiz da vida e um Ser a caminho da evolução.
Artigos
Antes que a violência vire silêncio: o reencontro da mulher consigo mesma
Autora: Camila Bernal Barreto* –
Falar sobre feminicídio é falar sobre uma violência que, muitas vezes, começa muito antes do crime. Começa no controle disfarçado de cuidado, no ciúme apresentado como prova de amor, nas palavras que diminuem, no isolamento, na culpa e na perda gradual da liberdade.
É preciso deixar claro: nenhuma mulher é responsável pela violência que sofre. O feminicídio é responsabilidade de quem pratica a violência. Mas acredito que existe um importante caminho de prevenção que passa pelo autoconhecimento.
É nesse ponto que entram as terapias que fazem parte do meu trabalho.
Como consteladora Familiar, mestre em Sistema Arcturiano e em Shamballa, busco ajudar mulheres a olhar para a própria história, reconhecer padrões emocionais e compreender comportamentos que, muitas vezes, foram naturalizados ao longo da vida.
Não se trata de encontrar culpados ou de dizer à mulher que ela escolheu errado. Se trata de ampliar sua consciência para que ela consiga perceber aquilo que, por muito tempo, aprendeu a ignorar.
Uma mulher que conhece seus limites começa a perceber quando eles estão sendo ultrapassados. Uma mulher que reconhece seu valor entende que amor não deveria exigir medo, submissão ou abandono de si mesma.
É também nesse sentido que compreendo a feminilidade. Não como um modelo de mulher frágil ou submissa, mas como a capacidade de reconhecer a própria essência, a sensibilidade, a força, os desejos e, principalmente, os limites.
Às vezes, o corpo percebe antes da mente. O desconforto diante de uma atitude do parceiro. O medo de contrariá-lo. A necessidade de pedir autorização para coisas simples. O controle do telefone, das roupas, das amizades ou do dinheiro. A desvalorização constante.
Esses sinais não devem ser romantizados.
Um relacionamento saudável não significa ausência de conflitos. Significa respeito, diálogo, liberdade e espaço para que duas pessoas continuem sendo quem são.
Nas terapias que aplico, procuro trabalhar esse reencontro da mulher consigo mesma. A Constelação Familiar, por exemplo, pode possibilitar um olhar para vínculos e padrões familiares que influenciam a maneira como nos relacionamos. Outras práticas da minha formação trabalham dimensões de consciência e percepção.
O objetivo não é oferecer respostas prontas, mas ajudar a mulher a fazer perguntas importantes:
Por que aceito aquilo que me machuca?
Por que confundo controle com cuidado?
Por que sinto que preciso me diminuir para ser amada?
Quais limites deixei de estabelecer?
Essas perguntas não substituem a rede de proteção, a Justiça ou o apoio especializado. Uma mulher em situação de violência precisa de segurança e assistência. Também não existe terapia capaz de controlar a atitude de um agressor.
Mas existe algo poderoso no autoconhecimento, ele pode ajudar a mulher a não se abandonar para permanecer em uma relação.
Precisamos parar de esperar que a violência se torne física para reconhecer que algo está errado. Humilhação, ameaça, chantagem, manipulação, perseguição, isolamento e controle também são formas de violência.
Muitas vezes, o relacionamento abusivo começa com aquilo que parece cuidado. Depois, o cuidado vira vigilância; o ciúme vira posse; a opinião vira imposição. E, pouco a pouco, a mulher deixa de reconhecer a si mesma.
Por isso, acredito que prevenir também é ensinar nossas mulheres a reconhecer seu valor, estabelecer limites e buscar ajuda quando perceberem que algo não está certo.
Conhecer a si mesma não significa acreditar que uma mulher é responsável por evitar a violência. Significa oferecer a ela ferramentas para reconhecer seus limites, seus padrões e os sinais que podem indicar uma relação perigosa.
Nenhuma mulher deve ser responsabilizada pela violência de um homem. Mas toda mulher merece aprender a se escutar.
Porque talvez o reencontro com a própria feminilidade comece justamente quando ela entende que amor não pode ser sinônimo de medo, controle ou sofrimento.
Se conhecer é olhar para dentro. Se respeitar é também saber quando dizer: isso não é amor, isso não me faz bem e eu não preciso permanecer onde deixo de ser eu mesma.
*Camila Bernal Barreto – Mãe atípica, Consteladora Familiar, Mestre em Sistema Arcturiano e em Shamballa, e, funcionária pública.
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