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Artigo

A força do varejo brasileiro

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Autor: Jorge Gonçalves Filho* –

Quando analisamos os setores que movem o Brasil, um desponta com sua força: o varejo brasileiro. Dos R$ 6,7 trilhões em valores correntes que formaram o PIB brasileiro no 1º semestre de 2026, temos 9,4% produzidos pelo varejo, ou seja, cerca de R$ 630 bilhões.

O PIB do varejo brasileiro, por exemplo, é 44% maior do que o PIB da agropecuária e equivale a 83% da indústria de transformação. Mas, apesar desses números grandiosos, nos últimos anos tem registrado dificuldades para manter seu crescimento, haja vista que o comércio varejista ampliado, em julho/2024, cresceu, nominalmente, cerca de 3,5% ao ano; já em julho/2025, em torno de 1,8%; e agora, em julho/2026, módico 1,2%.

Segundo o Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), que publica mensalmente o Índice Antecedentes de Vendas (IAV), que mede o comportamento das vendas de seus associados, as maiores empresas de varejo do país, nos últimos 20 meses, as vendas totais ajustadas pelo IPCA (vendas reais) apresentaram desempenho negativo, sendo, em julho, -2,8% frente ao mesmo mês do ano passado. E as projeções para os próximos meses mantêm-se negativas.

Desnecessário mencionar o que a maioria dos artigos sobre o varejo já abordou como principais causas deste momento difícil: juros elevadíssimos, endividamento e inadimplência tanto das pessoas físicas quanto das empresas, além de bilhões retidos nos sites de apostas que deveriam estar no varejo e serviços, entre outras causas. E, mais recentemente, a MP 1.357, de 12 de maio de 2026, que zerou o Imposto de Importação nas compras internacionais pelas plataformas eletrônicas (cross border) até U$ 50,00 (taxa das blusinhas) e foi transformada na Lei 15.502, de 10 de setembro de 2026, que manteve zero por cento de Imposto de Importação, confirmando a retirada dos 20% deste tributo existente até abril/2026.

Com zero por cento de Imposto de Importação no cross border para compras de até U$ 50,00, o volume de pacotes/remessas que passou a entrar no Brasil disparou. A saber: em outubro/2024, registrou-se 13,5 milhões de pacotes/mês; no ano de 2025, uma média próxima a 14 milhões; e já em maio/26, com a edição da MP 1.357, o volume saltou para 20 milhões ao mês, atingindo, na média de junho e julho de 2026, 28 milhões de pacotes. E agora é lei.

São bilhões de reais que estão saindo do mercado interno, sendo transferidos para os países exportadores favorecidos com a Lei 15.502/26, e as consequências estão sendo sentidas.

O comércio varejista tinha, em dezembro/2025, o volume de 7.171.382 empregos formais e caiu para 7.119.607 empregos em julho/26. São 51.775 empregos eliminados nos principais setores atingidos pela medida provisória, em especial o setor de artigos do vestuário e acessórios, com redução de 31.069 empregos. Na sua maior parte, efeito causado pelo zero no Imposto de Importação no cross border. Certamente, há um impacto grande no varejo e no trabalho informal, que são afetados ainda mais por essa concorrência predatória que a Lei 15.502/26 criou. Sem equidade concorrencial e isonomia tributária, a tendência é de agravamento da crise no varejo.

Não se quer exportar empregos, não se quer exportar empresas para os países fronteiriços. Para evitar isto, há um sinal de esperança na nova Lei 15.502/26, que prevê, pelo Ministério da Fazenda, a primeira avaliação dos impactos econômicos desta nova lei no prazo de três meses, ou seja, em 10 de dezembro de 2026, logicamente após as eleições.

Enquanto isto, até que dezembro chegue, resta ao varejo a resiliência para enfrentar um mercado adverso e sobreviver até lá.

*Jorge Gonçalves Filho – Presidente do IDV – Instituto para Desenvolvimento do Varejo

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Artigos

TEMPOS DE ÓDIO E RADICALISMO

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Autor: Juacy da Silva* –

O que podemos fazer para superar esta bestialidade humana tão presente na história ao longo de séculos e milênios?

“O amor é a forma mais alta e mais nobre de relação dos seres humanos entre si. Consequentemente, o amor deverá animar todos os setores da vida humana, estendendo-se também à ordem internacional. Só uma humanidade onde reine a civilização do amor poderá gozar de uma paz autêntica e duradoura.” Vaticano, 8 de dezembro de 2003, na Mensagem do Papa João Paulo II para a Celebração do 37º Dia Mundial da Paz, oficialmente celebrado em 01 de janeiro de 2004.

A cada dia que passa, a intolerância, o ódio, o radicalismo e a violência, em todas as dimensões, espaços e territórios, estão se intensificando, demonstrando que estamos vivendo em uma civilização doentia, a caminho de sua autodestruição.

A violência, seja ela psicológica, financeira, física, sexual, econômica, religiosa e, também, política e internacional, parece ser o fio condutor de nossa história e, contra isso, há décadas ou séculos, diversos líderes humanistas, pensadores e expoentes religiosos têm demonstrado preocupação, pois a violência jamais constrói algo de positivo, mas sim é a demonstração do lado obscuro, maligno do coração e da mente humana.

A culminância deste processo deletério e nefasto são os conflitos armados, as guerras civis e as guerras entre nações, que têm ceifado dezenas ou centenas de milhões de vidas inocentes, principalmente crianças, adolescentes, jovens, mulheres e idosos, além da destruição total ou parcial da infraestrutura física e da economia das nações, impondo sofrimento e morte generalizada, apenas para regozijo de alguns líderes mundiais, verdadeiros doentes mentais com seus projetos megalomaníacos de poder, alimentados por um complexo industrial militar totalmente insano, cujo objetivo maior sempre são os lucros imediatos.

Contra tudo isto, neste momento cruel e triste da história humana, o Papa Leão XIV, seguindo os passos de seus antecessores São João Paulo II e Francisco, principalmente, tem erguido sua voz, não se calando em condenar todas as formas e métodos de violência, principalmente as guerras e conflitos armados, cujos objetivos têm sido o poder, o domínio e a opressão.

Esta sanha destruidora e opressora, enfim, esta violência sem paralelo, tem sido potencializada ainda mais com o advento das parafernálias do avanço científico e tecnológico, principalmente nesta “era da inteligência artificial”, muito mais a serviço do mal, da dominação, da prepotência, do medo, da ganância econômica e financeira, do que suas aplicações para o bem comum, principalmente para a paz “desarmada e desarmante” e a felicidade da humanidade.

Como antídoto a esta onda de bestialidade humana, da violência, é fundamental desenvolvermos a cultura da paz, alicerce para a construção da civilização do amor, onde não existe lugar para qualquer forma ou tipo de violência, seja na família, nas comunidades, no ambiente do trabalho, nos espaços educacionais, na vida política, nas igrejas e religiões, nas instâncias culturais e, principalmente, nas relações internacionais.

Para desenvolvermos a cultura da paz, fundamento da civilização do amor, precisamos cultivar alguns princípios como diálogo, compreensão, justiça verdadeira, perdão, empatia, respeito à dignidade das pessoas, fraternidade/solidariedade, cordialidade, esperança e respeito às diferenças e divergências, desde a mais tenra idade até a vida adulta.

Cristo, ao responder a um questionamento que lhe indagava qual era o maior mandamento (da Lei), nos deixou uma mensagem que sintetiza muito bem este caminho ao dizer que: o primeiro, “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento“, este é o primeiro e grande mandamento, e o segundo, semelhante a este, “ama o teu próximo como a ti mesmo”. Evangelho de São Mateus 22:37-39.

Assim, a cultura da paz e a civilização do amor são os únicos caminhos que nos conduzirão a um mundo de paz verdadeira, desde as nossas famílias até a complexidade das relações internacionais, substituindo a lógica perversa da exclusão, do ódio, de todos os tipos de violência, pela lógica do diálogo e do respeito pleno pela dignidade humana.

Enquanto o radicalismo se alimenta do medo, da ignorância, da mentira (atualmente denominada, eufemisticamente, de “fake news”), da desumanização e da eliminação física da outra pessoa, essas duas dimensões propõem ações concretas que desarmam os espíritos e os discursos de ódio na raiz.

O extremismo e a violência quase sempre florescem em ambientes de desigualdade, de exclusão e de injustiça. A civilização do amor atua nas estruturas social, política e econômica, promovendo a solidariedade e a distribuição justa de renda e de recursos, o que esvazia este processo de exclusão e violência.

A cultura da paz e a civilização do amor exigem também uma pedagogia da paz e do diálogo, ou seja, o desafio de saber educar as novas gerações para a tolerância, para cultivarem o entendimento, a reciprocidade, o pensamento crítico e a comunicação não violenta, impedindo que o ódio seja replicado no futuro.

Esta pedagogia da paz, do diálogo, do entendimento e do respeito e amor ao próximo não é uma tarefa apenas dos sistemas de ensino, mas algo presente em todas as dimensões e instâncias das sociedades e nações, principalmente nas famílias, nas escolas e nas Igrejas, bases da formação e socialização das novas gerações.

Mas é preciso também fortalecer esta pedagogia da paz e do diálogo em nossas relações como adultos, seja nas nossas relações de vizinhança, nas comunidades, em nosso ambiente de trabalho e, também, nos ambientes públicos e nas relações políticas, respeitando os direitos humanos e os princípios da justiça social, justiça econômica, justiça intergeracional, justiça ambiental e justiça de gênero.

Sem este esforço coletivo, dificilmente iremos superar este tempo de intolerância, de racismo, de feminicídio, de preconceitos, de ódio e de violência.

Apenas medidas legais e repressão, como temos assistido, não têm conseguido solucionar este grave e complexo problema em todos os países, inclusive no Brasil e no mundo em geral.

Gostaria de concluir esta reflexão citando a síntese do pensamento do Papa Leão XIV, em sua primeira Encíclica Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial, onde enfatiza a importância da cultura da paz e da civilização do amor, ao dizer:

“A civilização do amor não é uma utopia ingênua, mas um projeto exigente. Nessa civilização, o amor deve ser o único princípio orientador da vida econômica, social, política e cultural.“

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral.

E-mail: [email protected]
WhatsApp: 65 9 9272 0052
Instagram: @profjuacy

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