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Toró eleitoral

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Autora: Valéria del Cueto*

Quem aguenta essas tormentas intermináveis?

Temos tempestades de todos os jeitos. Para todos os lados.

São borrascas de águas, enchentes de informação, enxurradas de corrupção…

Para pensar positivo considero que o sol apareceu!

Depois de semanas escondido pelas nuvens que, além de enchentes, granizo e tornados, trouxeram (essa é a parte boa) a subida dos níveis dos reservatórios. Andavam abaixo da linha do alerta da insuficiência hídrica.

Melhorar as reservas é essencial ao enfrentamento dos prometidos tempos de El Niño marombado que estão chegando.

Os poucos dias com tempo firme também permitiram que pelo menos as roupas finalmente sequem nos varais. É uma beleza vê-los cheios de adereços. As peças dançando alegremente.

Também fizeram que, mais uma vez, o caderninho entrasse em ação.

Sim, gosto de escrever ao ar livre, se possível ouvindo um barulho de água.

Pode ser na beira do mar esticada numa canga na praia. Ou, como agora, empoleirada nos degraus a caminho da ponte de madeira que une os dois lados do rio no meio do mundo.

Diante do estado de umidade do gramado, esse é o melhor ponto para deixar que o murmúrio do regato (no momento límpido, depois de crescer enlameado durante as últimas semanas) conduza as ideias que vou alinhavando no caderninho.

Foi isso que adiou a entrega do texto da vez.

Era tanta lama de informações atingindo minhas ideias que, mal formulava uma linha de pensamento cronical, já surgiam outras revelações, desatualizando as colocações cuidadosamente buriladas.

Virou um escreve-apaga interminável, com os textos perdendo a validade antes de conseguir fechar as duas laudas de praxe. Elas são definidas pelo espaço que me cabe no Diário de Cuiabá.

Cheguei a pensar em trocar o encadeamento costumeiro por notinhas, tipo uma coluna.

Não consegui dar adeus às crônicas e optei por atrasar o envio do material até ter a chance de encadear os assuntos como sempre fiz.

Mal comparando, se fosse nos tempos das máquinas de escrever, a lata de lixo do lado da escrivaninha estaria transbordando de bolinhas de papel amassadas de trechos inacabados.

A vida está assim, uma lixeira lotada de informações que chegam rápidas em grande quantidade e são descartadas ou absorvidas sem tempo de checagem, de aprofundamento.

Enquanto isso, o Brasil e o mundo não rolam, capotam descontrolados em meio a tiroteios de snipers invisíveis. Dispostos a transformar nossas vidas num inferno agem sempre em causa própria, sem pensar no coletivo.

Querido leitor, teremos eleições daqui a alguns dias!

Dizem os analistas que elas serão decididas, não pelo quesito das propostas, mas por quem tiver menos rejeição.

E dá-lhe tiro, porrada e bomba para desconstruir os adversários.

O povo estarrecido procura se defender das balas perdidas sem ter tempo de atinar, analisar. É hora de procurar os melhores quadros para o poder legislativo. Já escolheu seus representantes?

Se lembra em quem votou para deputado estadual, federal e senador nas últimas eleições?

Não sei você. Vou escolher aqueles que, realmente, pensam no bem comum e não apenas no próprio umbigo e seus interesses familiares e pessoais. BETs, emendas impositivas dirigidas aos apaniguados, entregar o país à tutela de terceiros. Como assim?

São eles, os parlamentares, que poderão fazer a diferença numa busca coletiva de melhorias reais para o povo brasileiro, seus eleitores.

Existem indecisos a serem convencidos, os que definirão os rumos do país nos próximos anos. Cabe a nós trazermos de volta a esperança de que o país deve seguir independente, soberano e altivo, sem se curvar às ingerências externas. É ela que fará os eleitores nortearem suas escolhas.

Sabemos que o céu voltará a ficar limpo, deixando espaço para o sol, a lua e as estrelas, nossas armas para convencer os indecisos de que o mau tempo vai passar. Com a ajuda deles, podemos fazer um toró de esperança, alegria e fé no Brasil chegar às urnas nessa eleição.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica das séries “Não sei onde enquadrar” e do SEM FIM…

delcueto.wordpress.com

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Artigos

Quem cuida de quem cuida? A saúde mental da enfermagem precisa ser prioridade

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Autora: Iracema Alencar*

Todos os dias, milhares de profissionais da enfermagem iniciam seus plantões preparados para cuidar. Cuidamos da dor, da doença, do medo, da recuperação e, muitas vezes, acompanhamos pessoas e famílias nos momentos mais difíceis de suas vidas. Mas existe uma pergunta que precisamos fazer com urgência: quem está cuidando de quem cuida?

Falar sobre suicídio entre profissionais da enfermagem é difícil. Mas o silêncio é ainda mais perigoso.

Uma pesquisa publicada na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, realizada com 581 profissionais de enfermagem de dois hospitais universitários federais do Sul do Brasil, identificou prevalência de risco de suicídio de 8,8% entre os participantes. Entre os técnicos de enfermagem, o índice chegou a 10%; entre enfermeiros, a 7,8%. O estudo não representa toda a enfermagem brasileira, mas revela uma realidade que não pode ser ignorada.

Outro dado dimensiona o problema. Informações do INSS reunidas pela plataforma SmartLab e divulgadas pelo Conselho Federal de Enfermagem mostram que técnicos, auxiliares e enfermeiros somaram 70.701 afastamentos por questões relacionadas à saúde mental entre 2012 e 2024. E o próprio Cofen alerta que o número real pode ser maior, porque essa estatística não alcança integralmente trabalhadores vinculados a regimes próprios de previdência, como muitos servidores estaduais e municipais, além de não contabilizar afastamentos inferiores a 15 dias.

Esses números precisam ser vistos para além das estatísticas. Por trás deles estão pessoas.

A enfermagem convive diariamente com sofrimento, morte, jornadas extenuantes, plantões noturnos, sobrecarga, pressão, violência no ambiente de trabalho e enorme responsabilidade sobre a vida de outras pessoas. Não podemos naturalizar essas condições como se fossem simplesmente parte da profissão.

O próprio estudo sobre risco de suicídio encontrou associação com depressão autorreferida e com o desejo de abandonar a profissão. Na análise dos pesquisadores, apareceram ainda questões relacionadas ao processo de trabalho, como sobrecarga, estresse elevado e violência no ambiente profissional.

Em Mato Grosso, já tivemos outro importante sinal de alerta. A pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, realizada pela Fiocruz por iniciativa do Cofen, identificou que 71,5% da equipe de enfermagem pesquisada no estado declarou desgaste profissional. Embora seja um levantamento anterior e não possa ser tratado como fotografia da realidade atual, é um dado que ajuda a demonstrar que o sofrimento relacionado ao trabalho não surgiu agora.

É por isso que precisamos avançar do alerta para a ação.

Não basta realizar campanhas em setembro. Não basta dizer ao trabalhador que procure ajuda quando já chegou ao limite. Precisamos construir uma política permanente de saúde mental para quem trabalha na saúde.

O poder público, como grande empregador de profissionais da área, tem responsabilidade direta nessa construção. Governo do Estado, municípios e instituições de saúde precisam oferecer programas estruturados de prevenção e acompanhamento psicológico e psiquiátrico, com acesso facilitado, sigilo, acolhimento e acompanhamento continuado. É necessário identificar precocemente situações de sofrimento psíquico, enfrentar o assédio e a violência nos ambientes de trabalho e rever condições que produzam sobrecarga e adoecimento.

Esse cuidado precisa alcançar enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem e integrar uma política mais ampla destinada aos trabalhadores da saúde. E políticas de saúde mental do servidor público devem alcançar as demais categorias do funcionalismo, respeitando as especificidades e os riscos de cada atividade.

Na enfermagem, porém, existe uma contradição que precisa ser enfrentada: somos preparados para perceber sinais de sofrimento nos outros, mas nem sempre encontramos espaço para reconhecer e cuidar do nosso próprio sofrimento.

Buscar ajuda não pode significar fragilidade profissional. Adoecer não pode gerar estigma, medo de perder espaço no trabalho ou receio de ser julgado pelos colegas e gestores.

Cuidar da saúde mental da enfermagem significa cuidar da própria assistência prestada à população. Um sistema de saúde depende de trabalhadores que tenham condições físicas e emocionais para exercer suas funções com segurança e dignidade.

O Setembro Amarelo nos convida a falar sobre prevenção ao suicídio. Que essa conversa não termine quando setembro acabar.

A enfermagem passa a vida cuidando de pessoas. Está mais do que na hora de transformar o cuidado de quem cuida em política pública permanente.

*Iracema Paulino de Alencar é enfermeira e obstetra, mestre e doutoranda em Saúde Coletiva pela UFMT, com trajetória na gestão pública, assistência, docência e formação em saúde.

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