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Artigo

A coragem de quem sabe nadar!

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Autora: Soraya Medeiros*

Às vezes, a vida tem um senso de ironia tão bonito quanto cruel. Ela nos coloca na beira do mesmo abismo que um dia quase nos engoliu, mas agora com um rosto familiar se debatendo nele. Estendemos a mão para quem, num passado que ainda lateja, nos deixou sem ar.

É um movimento quase involuntário, um reflexo da alma. Sopramos vida em quem nos tirou o fôlego, não por um amor romântico e idealizado, mas por uma dor que, paradoxalmente, nos ensinou a profundidade do desespero. Sopramos porque sabemos o gosto amargo da água salgada nos pulmões. E, mesmo assim, com a memória do afogamento fresca na pele, escolhemos ficar. Escolhemos cuidar. Escolhemos salvar.

Porque o coração, esse navegador desobediente, não segue mapas lógicos. Não carrega um livro de culpados. Ele reconhece naufrágios. Ele vê alguém se debatendo em meio às ondas e, no espelho daquela agonia, se lembra de si mesmo. Lembra-se do pânico, da solidão, do braço que ansiava por um apoio. E então, por instinto, por um amor que transcende o pessoal e beira o humano, mergulhamos. Mergulhamos de novo, mesmo sabendo o risco imenso de se perder no mesmo fundo que outrora quase foi nosso túmulo.

E o mais bonito, o mais profundamente transformador nesse gesto silencioso e corajoso, é que descobrimos um segredo: o perdão também é uma forma de respirar. É um suspiro longo e profundo que desfaz o nó que apertava o peito. É devolver ao pulmão a capacidade de encher-se de ar novo, de futuro. Amar, mesmo depois de se afogar, não é fraqueza ou dependência; é a prova mais pura e crua de coragem que um ser humano pode dar. É escolher a compaixão quando a vingança seria mais fácil.

No fim das contas, somos todos um pouco assim: salva-vidas improvisados de quem nos atirou ao mar, anjos de asas quebradas cuidando de quem nos feriu, correntes humanas tentando, com um fio de esperança, ensinar o mar a ser mais calmo para o próximo navegante. E, nesse esforço, talvez descubramos que salvar o outro é, de uma forma misteriosa, terminar de salvar a nós mesmos.

*Soraya Medeiros é jornalista.

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Artigos

Na era da IA, o diferencial será humano

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Autora: Silmara Casadei*

Transformações tecnológicas sempre alteraram a forma como trabalhamos. A diferença é que, desta vez, estamos diante de sistemas capazes de produzir textos, imagens, análises e respostas em poucos segundos. Isso provoca uma sensação inédita de concorrência com algo que se aproxima de processos antes considerados exclusivamente humanos.

A discussão sobre inteligência artificial costuma girar em torno das profissões que desaparecerão e das novas exigências do mercado de trabalho. Embora esse debate seja importante, ele deixa em segundo plano quais capacidades humanas precisarão ser fortalecidas desde a infância para que as próximas gerações possam viver de forma autônoma em um mundo cada vez mais mediado por sistemas inteligentes.

Curiosamente, à medida que as máquinas se tornam mais eficientes, características antes consideradas subjetivas passam a ganhar valor estratégico. Pensamento crítico, criatividade, flexibilidade cognitiva, capacidade de colaboração e inteligência socioemocional deixaram de ser apenas habilidades desejáveis e tornaram-se competências essenciais.

Isso ajuda a explicar um dado interessante: embora sejam os principais usuários dessas ferramentas, 66% dos jovens afirmam não confiar totalmente nas respostas geradas pela inteligência artificial (Ipsos, 2026). Mesmo entre aqueles que cresceram cercados pela tecnologia, permanece a percepção de que informação não é sinônimo de discernimento.

Discernimento não nasce do acúmulo de respostas prontas, porque ele se desenvolve por meio da experiência, da reflexão, do contato com diferentes perspectivas e da capacidade de duvidar antes de chegar a conclusões. Trata-se de um processo que envolve maturação intelectual e emocional, algo que não pode ser terceirizado a uma ferramenta.

Por essa razão, preparar crianças para o futuro não significa expô-las cada vez mais cedo às telas ou treiná-las para competir com algoritmos. Significa ajudá-las a desenvolver aquilo que os algoritmos não conseguem reproduzir. A criatividade, por exemplo, não surge apenas da produção de ideias. Ela depende de repertório, imaginação, experimentação e contato com situações reais.

Sob a perspectiva do desenvolvimento emocional, existe ainda outro desafio. Crianças que crescem recebendo respostas instantâneas podem ter menos oportunidades de exercitar a espera e a elaboração do pensamento. A educação do futuro tem menos relação com o domínio das tecnologias e mais com a preservação de experiências humanas que favorecem a autonomia. Quanto mais avançados forem esses sistemas, mais necessário será formar pessoas capazes de construir critérios próprios diante de respostas vazias tão acessíveis.

Nenhuma sociedade se sustenta apenas por velocidade ou acesso à informação. Ela depende também da responsabilidade em projetar futuros possíveis. São essas dimensões que conferem sentido ao conhecimento e que tornam a educação ainda mais decisiva em tempos de transformação tecnológica

*Silmara Casadei é doutora em Educação, psicanalista e autora de O Pequeno Mundo Criativo.

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