NOVO GENÓTIPO DO VÍRUS DA DENGUE NO BRASIL
Genótipo “Cosmopolita” do vírus dengue sorotipo 2 chega em MT
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens) do Centro-Oeste concluíram novos sequenciamentos do vírus da dengue. O trabalho de vigilância genômica na região foi intensificado depois da identificação inédita do genótipo cosmopolita do sorotipo 2 do patógeno no Brasil.
Em julho de 2022, as novas análises detectaram a linhagem em mais 14 amostras, de Goiás (7), Mato Grosso do Sul (4) e Mato Grosso (3), elevando para 15 o total de registros na região.
Os sequenciamentos genéticos foram realizados pelo Laboratório de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) em parceria com os Lacens dos três estados. Os relatórios referentes ao trabalho foram enviados para as Secretarias Estaduais de Saúde, o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
O genótipo cosmopolita é a linhagem mais disseminada do sorotipo 2 do vírus da dengue em todo o mundo, com presença na Ásia, Pacífico, Oriente Médio e África. Nas Américas, a primeira identificação ocorreu em 2019, durante um surto no Peru. No Brasil, além das notificações no Centro-Oeste, seis casos foram detectados em análises realizadas pelo Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, no mês passado.

Rotas do vírus
A ampliação do número de sequenciamentos genéticos no Centro-Oeste permitiu apontar que a introdução da linhagem cosmopolita no Brasil teve origem a partir do Peru. Além disso, embora o genótipo tenha sido detectado primeiro em Goiás, a circulação viral ocorreu antes no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul.
Uma das suspeitas é de que o vírus possa ter chegado ao Mato Grosso pela fronteira com o Paraguai, tendo em vista que o país vem registrando altos números de casos de dengue. O genótipo cosmopolita do sorotipo 2 do vírus da dengue é o mais disseminado e de maior impacto no mundo. Porém, não há dados suficientes para confirmar que a linhagem é mais transmissível ou pode levar a casos de maior gravidade do que outras.
“Cosmopolita” em Mato Grosso
Para a Secretária de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES/MT), o avanço da dengue “cosmopolita” é motivo de alerta em Mato Grosso, ela é transmissível e infecciosa. A informação é de que o genótipo cosmopolita sorotipo 2 já circula nas cidades de Cuiabá, Nortelândia e Sorriso.
Dados do último boletim epidemiológico da Secretária de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES/MT), apontam que o número de casos notificados de dengue já passa de 25 mil. Já foram confirmados 6 óbitos e outros 7 estão em investigação. O Estado de Mato Grosso segue com a classificação de risco alto para a doença com alta incidência em 50% dos municípios.

O atual cenário e o comportamento altamente transmissível da nova linhagem preocupam especialistas. O vírus da dengue (DENV) é um arbovírus transmitido pela picada da fêmea do mosquito Aedes Aegypti e tem quatro sorotipos diferentes: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4.
Cada um deles pode se dividir em diferentes linhagens ou genótipos por causa das variações genéticas sofridas. A linhagem encontrada no Brasil é uma das 6 do sorotipo 2 da dengue, considerado por especialistas o mais virulento dos 4 sorotipos.
A diretora do Laboratório Central do Estado de Mato Grosso (Lacen/MT), Elaine Cristina de Oliveira, explicou que o número de cidades aumenta cada vez que são analisadas novas amostras e o novo genótipo preocupa, pois ainda não há muitas informações a respeito desta variante, mas é possível afirmar que ela é mais transmissível.
“Não temos ainda histórico de mortalidade, nem nada do tipo, pois pesquisas ainda estão sendo feitas sobre o cosmopolita, mas o que sabemos e que nos deixa em alerta é sua alta capacidade de transmissão, mais que as variantes que já circulam no estado há anos”.
Por ser um genótipo associado à maior transmissibilidade, um maior número de pessoas pode se infectar ao mesmo tempo. Elaine Oliveira lembra que no estado vizinho, Mato Grosso do Sul, estudos já mostram que 100% dos casos estão relacionados ao cosmopolita.
Projeto de vigilância genômica
Para investigar a circulação da linhagem cosmopolita no Centro-Oeste, os pesquisadores realizaram o sequenciamento genético de todas as amostras armazenadas nos Lacens das regiões referentes a casos de infecção pelo sorotipo 2 do vírus da dengue registrados desde 2019.
Ao todo, foi possível decodificar 100 genomas do patógeno, sendo 87 de Goiás, 10 do Mato Grosso do Sul e 3 do Mato Grosso.
Todas as 72 amostras de 2019 e 2020 foram identificadas como pertencentes ao genótipo asiático americano (também chamado de genótipo III do sorotipo 2), que há anos circula no Brasil. Entre as 15 amostras de 2021 analisadas, duas apresentaram o genótipo cosmopolita. Já em 2022, entre 16 amostras decodificadas, 13 pertenciam a essa linhagem.
A identificação inédita do genótipo cosmopolita do vírus da dengue no Brasil e os novos sequenciamentos genéticos foram realizados a partir de um projeto de vigilância genômica de arbovírus em tempo real, liderado por Luiz Alcântara, pesquisador do Laboratório de Flavivírus do IOC. Na iniciativa, os pesquisadores se deslocam para os estados para realizar a decodificação de genomas.
Desde 2020, o trabalho contempla também a vigilância genômica do SARS-CoV-2, causador da Covid-19, recebendo o nome de UWARN (United Word Antiviral Research Network). O projeto tem colaboração do Ministério da Saúde, através das Coordenações Gerais das Arboviroses (CGArb) e de Laboratórios de Saúde Pública (CGLab), e Organização Pan-americana da Saúde (Opas), sendo financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês), dos Estados Unidos. (Com Jornal A Gazeta).
Destaques
Justiça condena Carlinhos Bezerra a 36 anos de prisão por duplo homicídio qualificado e feminicídio
Carlos Alberto Bezerra foi condenado a 36 anos de prisão pelo assassinato de Thays Machado e Willian Moreno, crimes cometidos em 18 de janeiro de 2023. A sentença foi proferida pelo Tribunal do Júri nesta sexta-feira (31), após sucessivos adiamentos do julgamento. A decisão encerra uma das etapas mais importantes de um caso que ganhou ampla repercussão em Mato Grosso pela gravidade dos fatos e pelas circunstâncias que envolveram a execução das vítimas.
O Conselho de Sentença reconheceu que o réu praticou homicídio qualificado contra Thays Machado por motivo torpe, emprego de meio cruel, recurso que dificultou a defesa da vítima e feminicídio. Em relação à morte de Willian Moreno, os jurados também concluíram que houve homicídio qualificado por motivo torpe, emprego de meio cruel e utilização de recurso que impossibilitou qualquer reação defensiva da vítima.
A juíza Mônica Perri Siqueira determinou o cumprimento imediato da pena e negou ao condenado o direito de recorrer em liberdade. Com a decisão, Carlos Alberto Bezerra permanecerá preso para o início da execução da sentença, em conformidade com o entendimento firmado durante o julgamento realizado pelo Tribunal do Júri.

Durante o interrogatório, o réu confessou a autoria dos disparos, afirmou estar arrependido e alegou ter agido em legítima defesa. A versão apresentada, contudo, não foi acolhida pelos jurados, uma vez que as provas constantes nos autos indicaram que a vítima estava desarmada no momento do crime, circunstância considerada incompatível com a tese defensiva sustentada durante o julgamento.
Em seu depoimento, Carlinhos Bezerra relatou que manteve um relacionamento amoroso com Thays Machado durante três anos e sete meses, período que classificou como positivo, embora marcado por episódios de instabilidade. Segundo ele, o casal planejava oficializar a união e havia intenção de registrar a filha da vítima. Ainda conforme sua narrativa, o rompimento definitivo ocorreu após conflitos motivados por ciúmes e desentendimentos registrados nas festividades de fim de ano de 2022, culminando no encerramento da relação durante o Réveillon.
As investigações apontaram que, após o término do relacionamento, o condenado passou a perseguir Thays Machado e mantinha um sistema de monitoramento no qual registrava informações sobre a rotina da ex-companheira. O conjunto probatório produzido durante a instrução processual foi considerado relevante para a compreensão da dinâmica dos acontecimentos que antecederam o crime.
O duplo homicídio ocorreu na tarde de 18 de janeiro de 2023, em frente ao Condomínio Solar Monet, local onde reside a mãe de Thays Machado. Na ocasião, a vítima estava acompanhada do namorado, Willian Moreno, quando ambos foram surpreendidos pelos disparos efetuados em plena luz do dia.

Imagens registradas por câmeras de segurança, divulgadas durante as investigações, mostraram o veículo Renault Kwid conduzido pelo acusado circulando nas proximidades do condomínio. O automóvel passou em frente ao local, retornou de marcha à ré para se aproximar das vítimas e, em seguida, o motorista efetuou mais de dez disparos. Conforme a perícia, Thays Machado e Willian Moreno foram atingidos por três tiros cada um e morreram ainda no local, antes da chegada do socorro.
Após a execução do casal, o autor fugiu do local, mobilizando as forças de segurança em uma operação que resultou em sua prisão poucas horas depois. Carlos Bezerra foi localizado em uma fazenda da família, situada no município de Campo Verde, onde foi detido e posteriormente colocado à disposição da Justiça para responder pelos crimes.
Com a condenação, o Poder Judiciário conclui o julgamento em primeira instância de um dos casos criminais de maior repercussão registrados em Mato Grosso nos últimos anos. A decisão do Tribunal do Júri reafirma o entendimento de que os homicídios foram praticados com qualificadoras reconhecidas pelos jurados e reforça a responsabilização penal do condenado pelos assassinatos de Thays Machado e Willian Moreno.
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