Search
Close this search box.

INTEGRAÇÃO DO SAMU AO CORPO DE BOMBEIROS

Cuiabá x Várzea Grande: Impasses políticos e gestão em crise

Publicados

em

O Governo do Estado de Mato Grosso deu início a um complexo e controverso processo de reestruturação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), visando à sua integração operacional com o Corpo de Bombeiros Militar (CBMMT). A medida, formalizada por meio de um Termo de Cooperação, propõe a unificação das centrais de atendimento telefônico (192 e 193) sob uma gestão militarizada. O objetivo declarado pelo Executivo é a otimização de recursos e a redução do tempo de resposta nas ocorrências, mas a iniciativa deflagrou uma crise institucional que envolve o Conselho Estadual de Saúde, sindicatos da categoria e as prefeituras das maiores cidades da Baixada Cuiabana.

A reestruturação ocorre no atual cenário administrativo de 2024, estendendo-se por municípios estratégicos como Cuiabá, Várzea Grande, Chapada dos Guimarães e Poconé, onde a gestão do serviço é de responsabilidade direta da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT). A implementação do Decreto nº 450, que determina a transferência da governança para os militares, acelerou as movimentações políticas e administrativas. Simultaneamente, a demissão de trabalhadores temporários e a transição do modelo de assistência geraram uma mobilização imediata das entidades de classe, que veem na medida um risco à natureza civil e universal do serviço.

O Conselho Estadual de Saúde (CES) manifestou-se de forma contundente ao repudiar, por unanimidade, o decreto governamental, exigindo a sua revogação imediata junto ao Executivo. O movimento foi impulsionado pelo Sindicato dos Servidores Públicos da Saúde de Mato Grosso (SISMA), que articulou protestos com profissionais da ponta. Portando faixas com os dizeres SAMU 100% SUS, os servidores denunciam o que classificam como um desmonte do serviço público de urgência. A principal preocupação reside na descaracterização do atendimento especializado durante períodos críticos, como o enfrentamento de crises sanitárias e a manutenção da logística pré-hospitalar.

Os Prefeitos de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), e da cidade vizinha Várzea Grande, Flávia Moretti (PL), declararam publicamente a impossibilidade financeira e administrativa de municipalizarem o serviço neste momento. Ambos os gestores, eleitos por legendas de oposição ou alinhamentos críticos à condução estadual da pasta, argumentam que o orçamento municipal já se encontra no limite prudencial e operacional.

Leia Também:  Parque das Águas receberá 16ª Mostra de Dança de Mato Grosso

A resistência das prefeituras cria um vácuo de gestão, visto que o Estado busca enxugar a máquina pública enquanto os municípios alegam que não possuem dotação orçamentária para absorver as equipes e a manutenção das ambulâncias.

A Prefeita da Cidade Industrial, Flávia Moretti destacou que a saúde já representa um custo elevadíssimo para o erário de Várzea Grande, priorizando o saneamento básico e a infraestrutura urbana em sua agenda de investimentos. Segundo a gestora, qualquer nova adesão a serviços de alta complexidade ou custeio fixo exigiria um equilíbrio financeiro inexistente na atual conjuntura fiscal. Moretti reforçou que a responsabilidade pela manutenção do SAMU deve permanecer com o Governo do Estado, sob pena de comprometer outros serviços essenciais da rede municipal que já sofrem com a escassez de repasses complementares.

No mesmo sentido, o prefeito cuiabano Abilio Brunini enfatizou que o atendimento pré-hospitalar e a regulação de leitos hospitalares e de Unidades de Terapia Intensiva (UTI) são competências intrínsecas ao Estado. Brunini pontuou que Cuiabá opera com uma participação estatal considerada baixa para o custeio total da saúde pública da capital, impossibilitando a assunção de novas frentes de trabalho. Para o gestor, a mudança na política estadual não pode ser imposta aos municípios sem que haja uma compensação financeira proporcional e uma discussão técnica sobre os limites orçamentários previstos na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

A Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT) esclareceu que, enquanto gere o serviço no núcleo metropolitano e cidades vizinhas, outras 20 cidades do interior já operam o SAMU sob gestão municipal própria. O governador Otaviano Pivetta defendeu a medida como uma estratégia de eficiência administrativa, visando à diminuição de custos operacionais e à eliminação de redundâncias burocráticas.

Leia Também:  Indústria florestal de Mato Grosso é destaque no Prêmio Referência – Melhores do Ano 2024

A “junção” das estruturas é apresentada pelo governo como uma solução tecnológica e logística, inspirada em modelos internacionais de agilidade, onde o comando unificado facilitaria o despacho de viaturas e o salvamento.

Diante da gravidade das denúncias de desmonte, o Ministério da Saúde enviou uma comissão técnica de alto nível para vistoriar as unidades vinculadas ao SAMU em Mato Grosso. A equipe, liderada pelo coordenador-geral de Urgência, Felipe Reque, acompanhado pela enfermeira técnica Nicole Braz e pelo coordenador de auditoria Justiniano Neto, realiza uma inspeção minuciosa nas bases operacionais. O objetivo federal é averiguar se a integração com o Corpo de Bombeiros fere as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) ou se prejudica a qualidade do atendimento prestado à população mato-grossense.

O conflito de narrativas entre o ganho de agilidade militar e a preservação do modelo técnico-científico do SUS permanece no centro do debate público regional. Especialistas em gestão pública alertam que, embora a unificação de centrais seja comum em países desenvolvidos, a substituição de quadros civis experientes por militares pode gerar tensões na doutrina de atendimento médico.

A resistência dos conselhos de saúde e a negativa dos prefeitos em aceitar o encargo financeiro indicam que a implementação total do decreto enfrentará longas batalhas jurídicas e políticas nas instâncias de controle do estado e da união.

Portanto, a reestruturação do SAMU em Mato Grosso não se limita a uma mera alteração de número telefônico ou de comando hierárquico, mas representa uma mudança de paradigma na Gestão da Saúde Pública. A convergência entre o desejo de Austeridade Fiscal do Governo Estadual e o dever de manutenção da rede de urgência municipalizada coloca o serviço em uma encruzilhada institucional.

O desfecho desta crise dependerá fundamentalmente do relatório final da auditoria do Ministério da Saúde e da capacidade de diálogo entre os entes federativos para assegurar que a população não seja penalizada pela descontinuidade assistencial.

COMENTE ABAIXO:
Propaganda

Destaques

Enfermeira é presa por exercício ilegal da medicina

Publicados

em

Uma enfermeira de 38 anos, proprietária de uma clínica de estética localizada no bairro Jardim Europa, em Cuiabá, suspeita de exercício ilegal da medicina, além da prática de crimes contra a saúde pública mediante a comercialização e utilização de medicamentos sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi presa pela Polícia Civil do Estado de Mato Grosso preventivamente.

A investigação, realizada pela Delegacia Especializada de Defesa do Consumidor (Decon), teve início após denúncia registrada junto à Vigilância Sanitária Municipal de Cuiabá, que apontava irregularidades graves nos procedimentos realizados na clínica.

Durante fiscalização conjunta, foram constatadas diversas infrações sanitárias, incluindo a realização de procedimentos estéticos invasivos, como aplicação de Plasma Rico em Plaquetas (PRP), ozonioterapia e soroterapia, que são privativos de profissionais médicos. Todos os procedimentos eram executados pela investigada, que é enfermeira de formação.

Além disso, foram encontrados medicamentos vencidos, produtos de origem estrangeira sem registro no Brasil e substâncias proibidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), como toxina botulínica de fabricação sul-coreana e outros fármacos utilizados de forma irregular. Os produtos eram armazenados em condições inadequadas, sem controle sanitário e parte deles teria sido importada ilegalmente.

As fiscalizações também evidenciaram que a clínica funcionava sem alvará sanitário, sem controle adequado de resíduos e sem condições mínimas de biossegurança, expondo pacientes a riscos de contaminação por doenças graves”, afirmou o delegado titular da Decon, Rogério Ferreira.

Segundo o delegado, a manipulação de sangue em ambiente impróprio, especialmente nos procedimentos de PRP, aumentava significativamente o risco de contaminação cruzada, infecções severas, necroses e até morte.

Leia Também:  Riva: "É um crime finalizar a piracema com desova incompleta"

Mesmo após a interdição do estabelecimento pela Vigilância Sanitária, a investigada teria continuado suas atividades de forma clandestina, retirando equipamentos do local interditado durante a noite e passando a atender pacientes em outros endereços, inclusive em clínicas não regularizadas, além de tentar abrir uma nova unidade com outro nome, também localizada no Jardim Europa, sem autorização dos órgãos competentes.

As investigações também apontaram que a suspeita se apresentava nas redes sociais como “Dra.”, divulgando procedimentos invasivos em regiões como rosto, glúteos e seios, atraindo pacientes mediante pagamento antecipado via Pix, sem qualquer comprovação de habilitação médica para tais práticas.

Além da prisão preventiva decretada pelo Poder Judiciário, a pedido do delegado titular da Decon, foram determinadas diversas medidas cautelares, incluindo o cumprimento de mandado de busca e apreensão, a interdição imediata da clínica de estética, a suspensão do registro da empresa no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), a suspensão das redes sociais da investigada e de seu registro profissional junto ao Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT).

Leia Também:  Prefeitura e fazendeiro submetiam trabalhadores a condições degradantes em MT

A investigada também já possuía passagem pela polícia por tráfico de drogas e estava usando tornozeleira eletrônica no momento da prisão nesta sexta-feira (24).

Segundo o delegado Rogério Ferreira, as investigações continuam e outros profissionais da área de estética que estiverem praticando exercício ilegal da medicina, bem como utilizando ou comercializando medicamentos irregulares, especialmente produtos voltados para emagrecimento, poderão ser alvo de novas operações policiais, inclusive com representação por prisão preventiva.

Denúncias

Denúncias sobre exercício ilegal da medicina ou comercialização de medicamentos irregulares podem ser feitas pela população por meio do telefone 197, pela Delegacia Digital ou pessoalmente em qualquer delegacia de polícia.

Também é possível procurar diretamente a Delegacia Especializada de Defesa do Consumidor (Decon), localizada na Rua General Otávio Neves, nº 69, bairro Duque de Caxias I, em Cuiabá, de segunda a sexta-feira, em horário comercial, ou pelo e-mail [email protected].

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

MAIS LIDAS DA SEMANA