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UM ANO DE MAGISTÉRIO DO PAPA LEÃO XIV

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Autor: Juacy da Silva*

“Um dos motivos pelos quais escolhi o nome “Leão XIV” é a Encíclica Rerum Novarum, escrita por Leão XIII durante a Revolução Industrial. O título Rerum Novarum significa “coisas novas”. Certamente há “coisas novas” no mundo, mas quando dizemos isso, geralmente adotamos uma “visão a partir do centro” e nos referimos a coisas como inteligência artificial ou robótica. No entanto, hoje, gostaria de olhar para as “coisas novas” com vocês, começando pela periferia. A terra, o teto e o trabalho são direitos sagrados pelos quais vale a pena lutar” Papa Leão XIV, no 5º Encontro Mundial dos Movimentos Populares, na Sala Paulo VI, no Vaticano, em 23/10/2025

Para entendermos o significado do Magistério Papal, é fundamental termos em mente que o Papa é a autoridade máxima da Igreja Católica no mundo, igreja esta que está presente, praticamente no mundo inteiro e conta com mais de 1,422 bilhão de fiéis que se viverem o evangelho em toda a sua plenitude e radicalidade pode transformar a realidade, sendo o sal da terra e a luz do mundo, enquanto aguardamos o “novo céu e a nova terra”.

Neste sentido, é fundamental que o Papa, qualquer que ele seja, promova orientações relacionadas com a doutrina católica, mantendo a unidade da fé; mas também, se preocupe e se posicione sobre os grandes desafios que afetam tanto católicos quanto a população mundial como um todo, temas econômicos, sociais, políticos e geopolíticos, religiosos, culturais não podem estar ausentes das preocupações e exortações papais, jamais!

Daí a importância de, como cristãos, católicos e cidadãos de todos os países, inclusive do Brasil, acompanharmos, de perto, as “pegadas”, a caminhada, as exortações do Papa Leão XIV que, em 08 de Maio de 2026 estará celebrando/comemorando seu primeiro ano na “Cátedra de São Pedro”.

No dia 21 de Abril de 2025, falecia, em Roma o Papa Francisco (Jorge Mário Bergoglio) e 17 dias depois, em 08 de Maio do mesmo ano (2025) o Colégio dos Cardeais elegia Robert Franciss Prevost como o novo Papa, que escolheu o nome de Leão XIV, pelas razões já expostas.

Enquanto São Francisco de Assis foi a fonte inspiradora do Papa Francisco, principalmente em relação ao cuidado com a ecologia integral e com os pobres; Leão XIV inspira-se na figura de Leão XIII, um Papa que diante do embate entre comunistas/socialistas de um lado e capitalistas selvagens, exploradores dos trabalhadores de outro, em relação `a situação do trabalho no final do século 19, não titubeou e escreveu/publicou a Encíclica Rerum Novarum, o marco inicial da Doutrina Social da Igreja, ainda atual na Igreja e no mundo contemporâneo.

Para muita gente, tanto dentro quanto fora da Igreja a escolha de Leão XIV, um norte americano de nascimento e naturalizado peruano, com formação agostiniana, enquanto Francisco era Jesuíta da Argentina/América Latina, foi uma surpresa.

Mas, quando do início de um “novo” papado tudo é novidade e, ao mesmo tempo, especulação, principalmente em relação aos rumos que cada Papa imprime `a vida da Igreja e isto gera muita expectativa e as vezes certa “angustia” e tensões internas na Igreja, principalmente quando consideramos a existência de alguns grupos, uns que se dizem mais conservadores e outros que se dizem e agem como mais “progressistas“, resgatando, inclusive as conclusões do Concílio Vaticanos II e as reformas decorrentes das conclusões do mesmo encerrado em 08 de Dezembro de 1965, portanto há mais de seis décadas, mas ainda totalmente válidas.

Ao longo deste seu primeiro ano de pontificado, o Papa Leão XIV demonstrou um grande respeito e amizade em relação ao legado do Papa Francisco e deu prosseguimento em aspectos fundamentais que marcaram o magistério de Francisco e, “avançou” ou aprofundou outros que Francisco não teve tempo de dedicar-se como era seu desejo.

Neste primeiro ano de magistério o Papa Leão XIV tem exortado tanto a Igreja (tanto sua hierarquia eclesiástica, sacerdotes, religiosos, religiosas quanto os fiéis) a continuarem no caminho da SINODALIDADE, uma igreja em saída em direção `as periferias materiais, espirituais e existenciais, fiel `a opção preferencial pelos pobres, razão de ser da Igreja, tão enfatizada no Concílio Vaticano II, que, tanto Francisco pretendeu quanto Leão XIV pretende resgatar, como tem sido bem claro em seus pronunciamentos e exortações.

Outro aspecto fundamental abraçado por Leão XIV é o cuidado e defesa da Casa Comum, a ECOLOGIA INTEGRAL, seu compromisso com a continuidade da caminhada iniciada com a publicação Laudato Si e as exortações Querida Amazônia e Laudate Deum, e os três “Ts” de Francisco: Terra, Teto e Trabalho.

Outro aspecto importante neste seu primeiro ano de caminhada tem sido o compromisso em defesa e acolhida dos pobres. Primeiro, de forma humilde, mencionada ao publicar a Exortação Dilexi Te (Eu te amei), deu continuidade ao que o Papa Francisco estava escrevendo sobre os pobres. Ampliando a abordagem e imprimindo a sua marca diante deste desafio mundial que são a pobreza, a exclusão e as injustiças.

Tanto é verdade que ao definir sua intenção de oração do mês de Maio deste ano (2026), escolheu como tema da exortação o combate ao desperdício de alimentos e enfatizando a importância de uma alimentação saudável que os pobres tem direito.

A proposta vai além das orações e visa também o despertar da solidariedade, da fraternidade, transformando a lógica do consumo egoísta que gera exclusão, pobreza e fome.

Lamentando o desperdício de tantos alimentos em nossas mesas, o Papa Leão XIV rezou para que o Senhor “desperte em nós uma nova consciência: que aprendamos a dar graças por cada alimento, a consumir com simplicidade, a partilhar com alegria e a cuidar dos frutos da terra como um dom de Vós, destinado a todos, e não apenas a alguns“.

Um outro tema que tem estado presente nas reflexões, nos pronunciamentos e nas atitudes e tentativas de mediação de Leão XIV são as guerras, os conflitos armados, a violência em geral e todas as suas formas particulares, incluindo a violência doméstica e de gênero.

Em lugar da violência como forma de “resolução” de conflitos, o Papa Leão XIV tem apresentado a proposta do dialogo, e no contexto dos conflitos e guerras entre países, tem insistido que o caminho é a diplomacia.

Em decorrência tem sofrido ataques por parte de alguns governantes que promovem guerra em lugar da paz, mas isto não o tem demovido de suas convicções e atitudes.

Ele tem também condenado as guerras de conquista de territórios, os genocídios, as migrações em massa, em consequência de destruição tanto material quanto de vidas humanas inocentes. Sendo que uma de suas propostas é o desenvolvimento de uma cultura da paz, onde ou em que a Igreja, melhor as Igrejas e Religiões tem um papel preponderante.

Neste mesmo contexto o Papa Leão XIV tem insistido também em relação ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso como caminhos em busca da paz e da construção de um mundo justo, sustentável, mais humano e mais tolerante.

Este empenho fica bastante claro em seu primeiro pronunciamento a representantes de diversas religiões em 19 de Maio de 2025, no Vaticano, quando afirma aos presentes que “a sinodalidade e o ecumenismo estão intimamente relacionados” e afirmou mais sua intenção de continuar o compromisso do Papa Francisco em promover “o caráter sinodal da Igreja Católica e em desenvolver formas novas e concretas para uma sinodalidade cada vez mais intensa na esfera ecumênica”.

Esses são alguns dos aspectos, além de diversos outros que não são abordados nesta oportunidade, que marcam este primeiro ano do magistério do Papa Leão XIV. Vida longa, para que sua jornada produza frutos que fortaleçam a Igreja ao redor do mundo, em sua caminhada evangelizadora, em defesa dos direitos humanos em sua plenitude, da justiça social, justiça ambiental, justiça intergeracional.

Mas para tanto o Papa Leão também tem insistido na necessidade de reformas mais profundas na Igreja, como podemos ver na Audiência Geral de hoje (06/05/2026) quando disse claramente.

Nenhuma instituição eclesial pode ser absolutização; antes, já que vivem na história e no tempo, são chamadas à conversão contínua, à renovação das formas e à reforma das estruturas, à regeneração constante das relações, para que possam verdadeiramente corresponder à sua missão“.

Essas são as marcas deste primeiro ano de pontificado de Leão XIV, mas que apontam novos rumos para a Igreja, inserida na história e na realidade, diante do compromisso em busca do “Reino”.

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ativista social, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.

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O custo do trabalho e o futuro do emprego no Brasil

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Autor: Gustavo Faria*

Apesar dos avanços recentes no mercado de trabalho, a informalidade ainda atinge cerca de 37,5% da população ocupada, mais de 38 milhões, segundo o IBGE. Nesse contexto, o setor de Telesserviços assume papel estratégico diante dos desafios de inclusão e formalização.

Por trás de cada atendimento, suporte técnico ou central de relacionamento, há mais do que um serviço: uma porta de entrada para o mercado formal. O setor está entre os maiores empregadores do país, reunindo cerca de 1,4 milhão de trabalhadores com carteira assinada. São, em grande parte, jovens em seu primeiro emprego, além de mulheres, pessoas negras e outros grupos sub-representados, que encontram nesse segmento uma oportunidade de inserção produtiva.

É uma atividade que combina escala e capacidade de absorção de mão de obra em diferentes regiões. Ainda assim, o ambiente regulatório e tributário recente tem ampliado a pressão sobre setores intensivos em trabalho, justamente aqueles que mais contribuem para a geração de empregos formais e para o fortalecimento da base contributiva.

A experiência brasileira mostra que há caminhos eficazes. A política de desoneração da folha de pagamentos, adotada a partir de 2011, trouxe resultados consistentes. Até o fim de 2023, os setores contemplados somavam mais de 9 milhões de empregos formais. Em janeiro de 2024, ainda registravam a criação de cerca de 81 mil vagas, com crescimento acima da média nacional, segundo a Brasscom.

É um instrumento que estimulou contratações, favoreceu a formalização e contribuiu para o dinamismo econômico. No caso dos Telesserviços, cuja operação depende de pessoas, o custo da folha, frequentemente superior a 70% dos custos totais, é determinante para decisões de contratação, retenção e expansão. Pequenas variações nesse custo têm impacto direto sobre o volume de vagas.

Diante de mudanças tributárias que tendem a elevar a carga sobre serviços, o tema volta ao debate público. A discussão sobre modelos de tributação mais compatíveis com setores intensivos em mão de obra, incluindo alternativas à incidência sobre a folha – como a tributação sobre o faturamento -, ganha relevância em um contexto em que ampliar a formalização permanece central para o país.

Mais do que um ajuste setorial, trata-se de uma reflexão sobre os incentivos que orientam o mercado de trabalho. A forma como o custo da contratação formal é estruturada influencia decisões empresariais e o volume de oportunidades disponíveis. Em economias com elevada informalidade, esses efeitos tendem a ser ainda mais pronunciados.

O Brasil enfrenta uma escolha relevante. Setores intensivos em trabalho são uma de suas principais engrenagens de inclusão e mobilidade social. Políticas que aumentam o custo da contratação formal nesses segmentos podem limitar o acesso ao emprego para os grupos que mais dependem dessas oportunidades.

*Gustavo Faria é diretor executivo da Associação Brasileira de Telesserviços (ABT)

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