Artigo
Trânsito mata mais do que muita guerra e o Brasil ainda chama isso de acidente
Autor: Paulo Buriti* –
Mais de 6 mil mortes em rodovias federais em 2025. Mais de 72 mil sinistros em um único ano. O Brasil segue figurando entre os países com maior índice de mortalidade no trânsito do mundo. Quando olhamos para realidades como as do Japão, da Suécia e da Noruega, que reduziram suas mortes nas estradas em cerca de 50%, uma pergunta fica no ar: o que eles enxergam que nós ainda nos recusamos a ver?
A resposta, por mais incômoda que seja, passa por uma escolha simples: esses países decidiram que morrer no trânsito não é normal. Nós ainda achamos que é.
Existe uma ideia enraizada na nossa sociedade de que tragédias no trânsito são meras fatalidades, algo que sempre aconteceu, sempre vai acontecer e que só nos resta lamentar. Essa mentalidade é um dos maiores obstáculos para a prevenção. Quando normalizamos o absurdo, deixamos de cobrar soluções.
Criar o Dia Nacional de Mobilização em Memória das Vítimas de Trânsito é um gesto simbólico importante, mas símbolos sem atitude perdem o sentido rapidamente. O Brasil não precisa de mais uma data no calendário; precisa de uma mudança real de postura.
O problema não está na lei
Dirigir alcoolizado, usar o celular ao volante ou realizar ultrapassagens proibidas já são condutas previstas e punidas pela legislação brasileira. O verdadeiro problema é que boa parte dos infratores acredita que dificilmente será fiscalizada. Nossa legislação não é fraca. O que falta é fiscalização consistente, capaz de transformar comportamento em vez de apenas punir quem foi flagrado ocasionalmente.
Os países que conseguiram reduzir drasticamente as mortes no trânsito não criaram leis revolucionárias. Eles tornaram a fiscalização inevitável, utilizando tecnologia para ampliar a capacidade de prevenção e tornar a gestão do trânsito mais inteligente.
Hoje, sistemas equipados com inteligência artificial conseguem identificar em tempo real comportamentos de risco como uso do celular ao volante, mudanças bruscas de faixa, distrações, excesso de velocidade e outras condutas perigosas. A lógica é simples: agir antes da tragédia, e não apenas contabilizar suas consequências.
Essa evolução também chegou à gestão de frotas. Soluções modernas de videotelemetria permitem acompanhar não apenas o veículo, mas o comportamento do condutor e as condições da operação. O resultado é mais controle, mais segurança e uma redução significativa de acidentes, perdas operacionais e interrupções logísticas.
A fadiga que ninguém quer ver
Entre as principais causas de acidentes graves nas rodovias brasileiras está uma das mais negligenciadas: a fadiga. Motoristas submetidos a jornadas excessivas frequentemente enfrentam longos períodos ao volante sob pressão por produtividade e prazos cada vez mais apertados. Embora a legislação determine períodos obrigatórios de descanso, a realidade das estradas mostra que o esgotamento ainda faz parte da rotina de muitos profissionais do transporte.
Quando um veículo de carga ou um ônibus se envolve em um acidente provocado por sonolência, dificilmente estamos diante de uma fatalidade. Na maioria das vezes, existe uma falha de gestão por trás da ocorrência. O descanso não pode ser tratado como obstáculo à operação, mas como um dos pilares da segurança viária.
A boa notícia é que a tecnologia já oferece respostas concretas para esse problema. Sistemas de visão computacional e videotelemetria conseguem identificar sinais de fadiga, distração e perda de atenção por meio da análise do comportamento do motorista, emitindo alertas em tempo real antes que o risco se transforme em acidente. Fechamento prolongado dos olhos, movimentos repetitivos da cabeça, bocejos frequentes e mudanças no padrão de condução são alguns dos sinais que já podem ser detectados por essas ferramentas.
O desafio atual deixou de ser tecnológico. As soluções existem, apresentam resultados comprovados e já são utilizadas por empresas comprometidas com a segurança viária. O que falta é ampliar sua adoção e aproximar o conhecimento técnico do setor privado das políticas públicas de trânsito. Empresas que já conseguem reduzir acidentes por meio da prevenção raramente são chamadas para contribuir na construção de estratégias públicas de segurança.
Não faz sentido manter soluções capazes de prevenir acidentes restritas a uma parcela do mercado enquanto milhares de vidas continuam sendo perdidas todos os anos nas estradas brasileiras.
Cada morte no trânsito tem uma causa identificável: uma decisão adiada, uma fiscalização insuficiente ou uma medida preventiva que deixou de ser adotada. Não estamos falando de azar. Estamos falando de escolhas.
O Brasil já possui dados, tecnologia e legislação para enfrentar esse problema. Falta tratá-lo como o que realmente é: uma emergência de saúde pública. Planos, datas e campanhas de conscientização só salvam vidas quando se transformam em ações concretas.
Enquanto a mudança permanecer apenas no discurso, continuaremos assistindo ao crescimento de números que poderiam estar diminuindo. E mais famílias continuarão aprendendo sobre segurança viária da forma mais dolorosa possível.
*Paulo Buriti é gerente corporativo da Corpvs, empresa especializada em soluções de monitoramento e segurança patrimonial.
Artigos
O desemprego é de 5,3%. Antes de comemorar, calma lá.
Autor: Rodrigo Dib* –
O Brasil melhorou seus indicadores oficiais de emprego. É fato. O problema começa quando transformamos um número correto numa explicação completa sobre como o brasileiro está trabalhando.
O desemprego chegou a 5,3% no trimestre encerrado em julho de 2026, o menor resultado da série histórica para o período, iniciada em 2012.
Mas 5,3% significa que o problema do trabalho no Brasil está perto de ser resolvido? Não.
E dizer isso não é negar o dado. É levá-lo a sério.
Faz parte da minha rotina rodar o Brasil em fóruns e palestras para debater o tema em ambientes dos mais diversos. Fóruns de RH, educadores e gestores de empresas.
Ambientes quase opostos.
Em especial, estive no V Encontro de Líderes do IDV, conversando com algumas das maiores lideranças do varejo brasileiro. Gente que precisa contratar, formar, aumentar produtividade e fazer operações gigantescas funcionarem todos os dias.
Foi aí que o número dos 5,3% apareceu ou, na verdade, desapareceu. E a conversa ficou mais interessante. O que os 5,3% não contam.
Segundo o IBGE, o Brasil tinha 103,3 milhões de pessoas ocupadas e cerca de 5,8 milhões de desocupados no trimestre até julho de 2026. Daí vêm os 5,3%.
Só que o desemprego tem uma definição estatística específica. Para entrar nessa conta, é preciso estar sem trabalho, ter procurado efetivamente uma ocupação e estar disponível para trabalhar.
Não é manipulação. É metodologia.
O problema vem quando tratamos essa taxa como um atestado geral da saúde do trabalho brasileiro.
O próprio IBGE mostra outra fotografia. No mesmo período, havia 2,3 milhões de desalentados, aqueles que gostariam de trabalhar mas deixaram de procurar. E a subutilização, que junta desempregados, subocupados e força de trabalho potencial, alcançava perto de 15 milhões de pessoas.
Tem ainda a informalidade. E aqui é preciso honestidade dos dois lados. A informalidade vem caindo no Brasil desde 2022. No começo de 2026 ela chegou a 37,5% da população ocupada, o menor nível desde 2020. Isso é bom e merece ser dito.
Só que 37,5% ainda são cerca de 38 milhões de trabalhadores. Mais de um terço de quem trabalha no país.
A taxa cai. O contingente segue gigante. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.
Informalidade também não significa automaticamente precariedade ou ausência de qualquer proteção. Por isso vale olhar outra estatística.
O Ministério da Previdência calcula a proteção previdenciária dos trabalhadores ocupados entre 16 e 59 anos. O último dado anual consolidado disponível é de 2024, e ele sai com essa defasagem justamente por ser anual. Naquele ano, dos ocupados nessa faixa etária, cerca de 27 milhões estavam desprotegidos.
Quase três em cada dez. Agora coloque os números lado a lado, respeitando que são de períodos diferentes: 5,3% de desemprego (julho de 2026). Cerca de 38 milhões de informais (início de 2026). Perto de 15 milhões de subutilizados.
27 milhões sem proteção previdenciária (2024). Todos são números oficiais.
Todos são verdadeiros ao mesmo tempo.
O dado não está errado. Nossa interpretação dele é que pode estar preguiçosa. Seria igualmente desonesto contar apenas o lado ruim. O emprego formal está crescendo.
O Novo Caged registrou saldo de 58.568 postos com carteira em julho e acumula 972.203 novos vínculos em 2026. A PNAD também registrou recorde de 39,4 milhões de empregados com carteira assinada no setor privado.
São resultados relevantes. Vale notar, aliás, que o saldo de julho foi o menor do ano, sinal de que o ritmo de geração de vagas está desacelerando no segundo semestre. Mais um motivo para calma.
O Brasil está, portanto, fazendo várias coisas ao mesmo tempo: reduzindo o desemprego, aumentando o emprego formal, reduzindo lentamente a informalidade e ainda convivendo com uma massa enorme de trabalhadores informais e desprotegidos.
A realidade não cabe nem no “está tudo ótimo”, nem no “nada melhorou”. E foi justamente essa tensão que apareceu na conversa com o varejo.
Quem administra uma grande operação sabe que sua concorrência por trabalhadores já não é apenas a empresa do outro lado da rua.
Quem trabalha faz uma conta muito mais ampla: quanto entra no bolso, quanto custa chegar ao emprego, quanto tempo perde no transporte, quem fica com o filho e quanta autonomia terá sobre a própria vida.
O emprego formal passou a disputar pessoas com modelos que prometem flexibilidade, autonomia e dinheiro imediato.
Prometem é a palavra.
Flexibilidade não significa necessariamente boa renda. Autonomia não é proteção. Ganhar mais hoje não significa construir segurança econômica para os próximos vinte anos.
Mas responder a tudo isso dizendo que “as pessoas não querem mais trabalhar” é cômodo demais.
Querem.
Só estão fazendo uma conta diferente.
É aqui que precisamos subir o nível da conversa.
A legislação trabalhista tem uma função legítima e indispensável: proteger quem trabalha. E não há consenso, entre os próprios economistas, de que ela seja a causa principal da informalidade brasileira. Há quem defenda que custo e rigidez empurram gente para fora da carteira, e há quem mostre que a informalidade cai quando a economia cresce, não quando se desregulamenta. A briga não está ganha por nenhum dos lados.
Mas, se as relações de trabalho mudaram, é perfeitamente legítimo discutir se as instituições que as organizam também precisam evoluir.
Talvez a discussão não devesse ser escolher entre proteção ou flexibilidade. Talvez o desafio brasileiro seja finalmente conseguir oferecer as duas.
Trabalho não acontece só no trabalho
Depois desses dois dias, minha maior conclusão foi outra. Precisamos colocar a bola no chão.
“Essa geração não quer trabalhar.” “Falta mão de obra.” “O desemprego está no menor nível da história.”
Cada frase pode carregar um pedaço da verdade. Nenhuma explica o Brasil.
Falar de trabalho é falar também de educação, renda, moradia, transporte, saúde, creche, formação, segurança e perspectiva de futuro.
Queremos entender o comportamento das pessoas dentro do trabalho sem entender a vida que elas levam fora dele.
Os educadores enxergam uma parte. As empresas enxergam outra. O governo mede outra. E o trabalhador vive todas ao mesmo tempo.
O desemprego de 5,3% merece ser comemorado. Mas calma lá.
Se cerca de 38 milhões de brasileiros ainda trabalham na informalidade e, na última medição disponível, 27 milhões de trabalhadores entre 16 e 59 anos estavam sem proteção previdenciária, ainda existe uma enorme distância entre ter trabalho e ter trabalho protegido, sustentável e capaz de melhorar uma vida.
Comemorar o número é fácil.
Fazer com que ele represente uma vida melhor é o que separa estatística de resultado.
*Rodrigo Dib, superintendente Institucional do Centro de Integração Empresa-Escola – CIEE
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