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ARTIGO

O BECO DO PORRETE NUNCA MAIS FOI O MESMO, QUANDO HÁ 21 ANOS MORRIA BUGRELO, O FUFU-DE-VEADO

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Autor: Wilson Pires

Dizem que ele dava a vida ao Beco do Porrete. Outros acham que ele era o próprio Beco, o mais tradicional ponto de encontro dos analistas de política, políticos, gozadores de plantão e desocupados nos anos 80/90.

Seu nome: João Cassiano Botelho.

Sobrenome: Bugrelo.

Apelido: Fufu-de-veado.

Era uma figura que só abotoava a camisa no dia das eleições e quando ia fazer suas cobranças, mesmo assim, só dois botões e comandava a vida e a alegria do Beco do Porrete.

Travessa Aquidaban, nº 25. Conhecida por todos em Várzea Grande por um apelido simplório: Beco do Porrete.

Armazém do Bugrelo. É ali que residia um dos personagens mais folclóricos da cidade Industrial: João Cassiano Botelho, livramentense de nascimento, 03 de outubro de 1935, o popular Bugrelo ou ainda Fufu-de-veado.

Camisa desabotoada, sorriso aberto, jeito simples e bonachão, Bugrelo atendia a todos com a mesma cordialidade, pois no seu dialeto, tristeza não pagava dívida de ninguém.

Embora tenha nascido em Nossa Senhora do Livramento, no povoado de Teixeirinha, zona rural, Bugrelo veio para Várzea Grande ainda menino. Aos 7 anos, foi matriculado no Grupo Escolar Pedro Gardés, que ainda hoje atende parte da comunidade estudantil do município. Bugrelo gostava de dizer que em sua época a professora sabia se postar diante do aluno; às vezes, fazia voltar para casa quem estava sem pentear o cabelo. A professora prezava mais pela disciplina que por educação, contava Bugrelo, entre uma e outra gargalhada.

Com nostalgia peculiar, Bugrelo recordava que a sua primeira professora foi à mãe do juiz Benedito Pereira do Nascimento, o Pereirão.

Oriundo de família humilde, Bugrelo teve que trabalhar cedo, logo ao término do primário. Seu primeiro emprego foi na residência do ex-prefeito Gonçalo Botelho de Campos, tio do ex-prefeito Nereu Botelho. Algum tempo depois, foi trabalhar numa fábrica de ladrilho.

BOLICHEIRO

Descobrindo a sua vocação comercial, em 1958 ele decidiu montar o seu primeiro estabelecimento, na Rua Benedito Monteiro (antiga casa de Dona Matilde) ao lado da sede do Clube Operário. Com poucas economias, Bugrelo comprou o empório de secos e molhados (bolichinho) do empresário Antônio Nassarden.

Após tomar um “fôlego” financeiro, em 1º de janeiro de 1961, Bugrelo decidiu montar o seu negócio na Travessa Aquidaban (Beco do Porrete). A mudança, recordava, foi feita por Tico Passarinho. Naquela época, o ponto de encontro das famílias tradicionais era no cruzamento da Avenida Couto Magalhães com o Beco do Porrete. Bugrelo relembra que todas as tardes havia uma espécie de reunião dos moradores, quando todos se sentavam de cócoras (para Bugrelo era “coque”), nos idos de 1961, para observar o movimento. Alguns conhecidíssimos da população, como Zelito Costa Campos, Benedito Gomes (pai do ex-prefeito Carlos Gomes) e a “Caetanada”, oriundos da família Caetano (Arquimedes, Augusto Roberto, Araldo Figurinha entre outros).

E o encontro era levado a sério por todos. Ninguém podia sair primeiro, porque a previsão é que todos fossem embora juntos. O primeiro que saía caía na tesoura, contava Bugrelo, se referindo às críticas, cornetações e fofocas dirigidas aos ausentes.

Hoje, dos antigos moradores do Beco do Porrete, sobraram às famílias do finado Bugrelo (Dona Nildez, Paulo e Ivan) e Jorge Mussa (pai do Jamil Mussa Sobrinho – o “Jorginho Confusão”). Só saio daqui morto, garantia Bugrelo.

As famílias que deixaram de morar no Beco do Porrete, enumeradas por ele são: Zelito Costa Marques, Lamartine Pompeo, Basílio, Salvador Conceição, Caetano “Caetanada” Costa e Sinhôco Botelho.

BECO DO PORRETE

O Beco do Porrete historicamente era o caldeirão político da Cidade Industrial. Todavia, foram lançados vários candidatos à Câmara dos Vereadores do Município, como Jorginho Mussa e Estabelito, mas conseguiu eleger apenas Mané Santana. Mas foi por muito tempo o ponto de partida das campanhas eleitorais em Várzea Grande.

MUITOS APELIDOS

Mestre em colocar apelidos, Bugrelo cativava a todos por causa do seu jeitão maroto e linguajar arrastado, ao melhor estilo do dialeto varzeagrandense e da Baixada cuiabana. Sempre sem camisa ou no máximo com a camisa desabotoada, ele mantinha a velha tradição: era hospitaleiro e dizia que só dormia em rede. Pra que cama?”, perguntava.

Entre os apelidos notórios “que pegaram para valer”, Bugrelo recordava: Cinco Cuecas, Não Convém, Marcos Toporeia, Cheira Tempo, Rabada, Granito, Nariz de Tucano, Jornal das Sete, Voz do Brasil, Lagoa, Cuiê, Neto Chupa Paia, Subaco, Martelão, Tuiuiú, Quibaça, Cadeira de Cachorra, Mané Vivo, Vitório, Porcão, Mané Morto, Nhaca, Birú, Família Ave (Galo, Pinto, Frango e o Ração), Kalil Bondade, Chapinha, Zezão CBT, Pé-de-Anjo, Lula Chupeta, Sapo do Avesso (Satú), entre outras dezenas.

POLÍTICA E POLÍTICOS

Apesar de folclórico, Bugrelo era respeitado pelos líderes políticos e até empresariais de Várzea Grande. Muitos foram frequentadores assíduos do Beco do Porrete.

Ele se orgulhava de todos que falavam do Beco e dele mesmo, mas sempre de forma jocosa. Não havia maldade. O empório, onde se reunia de governadores, líderes comunitários e fofoqueiros de plantão, o tema das conversas era sempre política ou a vida dos outros. Era um lugar propício para jogar conversa fora. No Armazém do Bugrelo, com pouco mais de vinte metros quadrados, vendia desde rojão até adubo, passando por remédios, bebidas com raiz até arame farpado.

FAMÍLIA UNIDA

Casado com dona Nildez Magalhães Botelho, de família tradicional varzeagrandense, desde 1959, Bugrelo teve três filhos: Paulo Luiz Botelho, Ivan Mário Botelho (Bugrelo dizia, se Ivan emagrecesse 40 quilos seria o melhor meia-esquerda do futebol mundial) (sic) e Lenize Magalhães Botelho.

O progresso de Várzea Grande não fez com que Bugrelo mudasse os seus hábitos. Era considerado o presidente de honra do Beco do Porrete.

Os amigos de Bugrelo ou Fufu-de-veado concretizaram os seus últimos desejos, que era fazer um velório alegre, não queria tristeza, enquanto houvesse uma garrafa de caninha ou Tubaína era para seguir o velório. Outro pedido dele era para que o enterro não fosse em carro de funerária, queria que os amigos carregassem o caixão, cada um em uma alça, passo-a-passo até o cemitério central, contando histórias, causos, piadas e prosas.

E assim foi feito, João Cassiano Botelho, Bugrelo ou Fufu-de-veado, morreu no dia 18 de dezembro de 1999, aos 64 anos.

Portanto, há 20 anos o Beco do Porrete nunca mais foi o mesmo, após a partida de Bugrelo para o andar de cima.

Wilson Pires de Andrade é jornalista em Mato Grosso.

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Artigos

Toró eleitoral

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Autora: Valéria del Cueto*

Quem aguenta essas tormentas intermináveis?

Temos tempestades de todos os jeitos. Para todos os lados.

São borrascas de águas, enchentes de informação, enxurradas de corrupção…

Para pensar positivo considero que o sol apareceu!

Depois de semanas escondido pelas nuvens que, além de enchentes, granizo e tornados, trouxeram (essa é a parte boa) a subida dos níveis dos reservatórios. Andavam abaixo da linha do alerta da insuficiência hídrica.

Melhorar as reservas é essencial ao enfrentamento dos prometidos tempos de El Niño marombado que estão chegando.

Os poucos dias com tempo firme também permitiram que pelo menos as roupas finalmente sequem nos varais. É uma beleza vê-los cheios de adereços. As peças dançando alegremente.

Também fizeram que, mais uma vez, o caderninho entrasse em ação.

Sim, gosto de escrever ao ar livre, se possível ouvindo um barulho de água.

Pode ser na beira do mar esticada numa canga na praia. Ou, como agora, empoleirada nos degraus a caminho da ponte de madeira que une os dois lados do rio no meio do mundo.

Diante do estado de umidade do gramado, esse é o melhor ponto para deixar que o murmúrio do regato (no momento límpido, depois de crescer enlameado durante as últimas semanas) conduza as ideias que vou alinhavando no caderninho.

Foi isso que adiou a entrega do texto da vez.

Era tanta lama de informações atingindo minhas ideias que, mal formulava uma linha de pensamento cronical, já surgiam outras revelações, desatualizando as colocações cuidadosamente buriladas.

Virou um escreve-apaga interminável, com os textos perdendo a validade antes de conseguir fechar as duas laudas de praxe. Elas são definidas pelo espaço que me cabe no Diário de Cuiabá.

Cheguei a pensar em trocar o encadeamento costumeiro por notinhas, tipo uma coluna.

Não consegui dar adeus às crônicas e optei por atrasar o envio do material até ter a chance de encadear os assuntos como sempre fiz.

Mal comparando, se fosse nos tempos das máquinas de escrever, a lata de lixo do lado da escrivaninha estaria transbordando de bolinhas de papel amassadas de trechos inacabados.

A vida está assim, uma lixeira lotada de informações que chegam rápidas em grande quantidade e são descartadas ou absorvidas sem tempo de checagem, de aprofundamento.

Enquanto isso, o Brasil e o mundo não rolam, capotam descontrolados em meio a tiroteios de snipers invisíveis. Dispostos a transformar nossas vidas num inferno agem sempre em causa própria, sem pensar no coletivo.

Querido leitor, teremos eleições daqui a alguns dias!

Dizem os analistas que elas serão decididas, não pelo quesito das propostas, mas por quem tiver menos rejeição.

E dá-lhe tiro, porrada e bomba para desconstruir os adversários.

O povo estarrecido procura se defender das balas perdidas sem ter tempo de atinar, analisar. É hora de procurar os melhores quadros para o poder legislativo. Já escolheu seus representantes?

Se lembra em quem votou para deputado estadual, federal e senador nas últimas eleições?

Não sei você. Vou escolher aqueles que, realmente, pensam no bem comum e não apenas no próprio umbigo e seus interesses familiares e pessoais. BETs, emendas impositivas dirigidas aos apaniguados, entregar o país à tutela de terceiros. Como assim?

São eles, os parlamentares, que poderão fazer a diferença numa busca coletiva de melhorias reais para o povo brasileiro, seus eleitores.

Existem indecisos a serem convencidos, os que definirão os rumos do país nos próximos anos. Cabe a nós trazermos de volta a esperança de que o país deve seguir independente, soberano e altivo, sem se curvar às ingerências externas. É ela que fará os eleitores nortearem suas escolhas.

Sabemos que o céu voltará a ficar limpo, deixando espaço para o sol, a lua e as estrelas, nossas armas para convencer os indecisos de que o mau tempo vai passar. Com a ajuda deles, podemos fazer um toró de esperança, alegria e fé no Brasil chegar às urnas nessa eleição.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica das séries “Não sei onde enquadrar” e do SEM FIM…

delcueto.wordpress.com

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