Artigo
Querer ouvir
Autora: Glenda Cury* –
De tempos em tempos nos deparamos com afirmações como “ele não sabe ouvir”, “ela não deixa a gente falar”. Fato é que a escuta consiste em um dos componentes mais valiosos do processo de comunicação. No entanto, mesmo tendo caráter essencial, ela vem sendo progressivamente negligenciada, potencializando equívocos e provocando conflitos quase insolúveis. O ato de escutar o outro parece ter se tornado um fardo, talvez porque requeira tempo e atenção, elementos raros na rotina agitada em que vivemos.
E é aí que mora o perigo: quando o ouvir não é valorizado, a qualidade das interações despenca, impactando negativamente relações pessoais e profissionais.
Somos dotados de “ferramentas” que nos capacitam a prestar atenção no outro, no contexto e no ambiente. Nossos sentidos, sentimentos e raciocínio nos instrumentalizam, sendo fortalecidos, ainda, por quatro importantes capacidades humanas: autoconhecimento, consciência, imaginação e poder de escolha. Este último, a experiência nos mostra, é determinante quando falamos de relações interpessoais.
Ouvir o outro, perceber o entorno e compreender o contexto apenas vão acontecer se houver, primeiramente, vontade, visto que as escolhas derivam – quase sempre – do querer. Deste modo a empatia (onde habita a valorização da escuta ativa), que não entra em cena sem ser convidada, só passa a compor hábitos comportamentais diante de um genuíno querer. Assim como ‘é preciso saber viver’, é preciso querer ouvir.
Faço parte de uma empresa de Comunicação que atua em diversas áreas, dentre as quais treinamentos. Em nossos conteúdos e explanações, priorizamos recomendar aos clientes que busquem se dedicar a ouvir as pessoas, passo fundamental ao aperfeiçoamento dos processos comunicacionais com todos os públicos, porta adentro e porta afora das organizações.
Nas conversas com os participantes, frequentemente chega-se à conclusão que todos nós temos ouvido muito pouco, a começar em nossos lares. O tempo é escasso, a sobrecarga é grande e a paciência, curta. O imediatismo impera e passamos escutar cada vez com menos atenção e foco, com tendência a valorizar a presunção em lugar da compreensão. Ou seja: temos dado pouquíssimo valor ao que o outro tem a dizer. Por consequência, cometemos erros operacionais e (mais grave) estratégicos.
Recentemente assisti algumas análises de pesquisas de opinião pública. “A população está frustrada. Não se sente ouvida pelo governo”, afirmavam, em coro, renomados especialistas. Entre os significados de “ouvir” o dicionário traz “dar atenção” e “atender”. Neste sentido, fica evidente que, no cenário político, negligenciar a escuta de qualidade pode gerar danos irreparáveis, fragilizando reputações e diminuindo intenções de voto. No mercado, é um dos caminhos que levam à perda progressiva de clientes e negócios. Na esfera pessoal, produz abismos relacionais muitas vezes perpetuados por gerações.
O desafio, então, é conseguir dar prioridade à escuta, dedicando-se a ela com disciplina e zelo. É possível que sejamos rapidamente surpreendidos com bons frutos, até porque o ato de ouvir tende a ser solidário: quanto mais entregamos, mais recebemos – e todos nós, certamente, desejamos e precisamos ser ouvidos.
*Glenda Cury é jornalista e sócia da Íntegra Comunicação Estratégica
Artigos
Nova droga aprovada pela Anvisa controla fogachos e outros sintomas associados à menopausa
Autora: Giovana Fortunato* –
Ainda sem data de lançamento no mercado, o medicamento fezoniletanto apresentou resultados satisfatórios em estudos clínicos realizados com mais de 3 mil mulheres.
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou uma nova medicação não hormonal para controlar ondas de calor e suores noturnos, sintomas associados à menopausa que afetam cerca de 80% das mulheres entre 40 e 65 anos.
O medicamento é uma alternativa para quem não pode se beneficiar ou não responde efetivamente ao tratamento de reposição hormonal. Apesar do aval da Anvisa, ainda não há definição de preço nem data oficial de lançamento da nova droga no mercado brasileiro.
O medicamento fezoniletanto, que chega ao mercado com o nome de Veoza, foi desenvolvido pelo laboratório Astellas Farma.
A nova droga atua no sistema nervoso, limitando manifestações vasomotoras, como fogachos, em mulheres que estão na transição para a menopausa e mesmo na pós-menopausa. No Brasil, mais de um terço delas apresenta ocorrências de moderadas a intensas, justamente o alvo do novo tratamento.
Os principais incômodos do climatério, associados à paralisação na produção de hormônios femininos pelos ovários, são ondas de calor, suores frios, alterações de humor e também do sono. O declínio hormonal tem repercussão nos circuitos cerebrais que regulam a temperatura corporal, gerando os chamados sintomas vasomotores.
As ondas de calor e/ou suores noturnos associados à menopausa têm duração mediana de 7,4 anos. Em algumas mulheres podem persistir por uma década ou mais, comprometendo atividades diárias, qualidade do sono e de vida.
A aprovação da Anvisa considerou três estudos clínicos sobre o fezoniletanto que envolveram mais de 3 mil participantes. A medicação reduziu significativamente a frequência das ondas de calor e/ou suores noturnos.
A dosagem ministrada em 4 semanas levou à redução de 55% da frequência dos sintomas vasomotores. Em 12 semanas, o estudo revelou resultados ainda melhores: 64%. Como evidência, considerou-se que o medicamento diminuiu a intensidade média dos sintomas vasomotores para níveis leves a moderados.
Como benefícios adicionais, observados na quarta e na décima segunda semanas, mulheres que fizeram uso da nova droga apresentaram melhora na qualidade do sono, diminuição no comprometimento das atividades diárias e do trabalho e ganhos em qualidade de vida.
O fezoniletanto desponta como alternativa para mulheres que não podem fazer reposição hormonal, devido a contraindicações como câncer de mama, infarto e histórico de trombose, e mesmo a pacientes que não obtiveram sucesso com terapia de hormônios.
*Dra. Giovana Fortunato é ginecologista e obstetra, especialista em endometriose e infertilidade, e professora da UFMT.
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