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Por um Projeto Estadual de Desenvolvimento para Mato Grosso

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Autor: Allan Kardec Benitez –

Mato Grosso está efusivo com as previsões de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2021, projetado em levantamento feito pela consultoria MB Associados. O estudo demonstra que os estados ligados ao agronegócio registrarão crescimento acima da média do PIB nacional, que gira em torno de 2,6% a 3,17%, segundo o documento. Para Mato Grosso, a taxa de crescimento até o fim do ano será de 4,97%, a maior do Brasil.

Apesar de alcançar a liderança nacional, registrando crescimento do PIB a ritmo chinês, a população mato-grossense ainda sofre com o desequilíbrio na distribuição de renda, mesmo com os esforços do governador Mauro Mendes, como o reequilíbrio das contas públicas, a revisão dos incentivos fiscais e a aprovação do novo Fethab, contando com o apoio da Assembleia Legislativa.

Diante da pandemia no Brasil vimos o agravamento da desigualdade e o crescimento da população em situação de vulnerabilidade social e fome, sem que exista de fato um programa permanente e fortalecido de distribuição de renda mínima.

Haja vista que o Governo do Estado tem feito investimentos na ordem de 15% da receita líquida em obras de infraestrutura, como construção de escolas, hospitais, estradas, pontes, buscando movimentar a economia e gerar empregos diretos, indiretos e oportunidades de trabalho, ainda assim percebemos que são ações insuficientes. Precisamos aprofundar as causas desse desequilíbrio social para estruturarmos um plano estratégico de desenvolvimento.

Quando se fala em modelo de desenvolvimento econômico, estamos a tratar da estrutura da economia produtiva e normativa, além das inter-relações entre todos os agentes que contribuem com a produção estadual.

Por economia produtiva, entende-se a que se relaciona com as relações de produção na prática, enquanto por economia normativa temos o conjunto de regras que tenta orientar como os mesmos devem se comportar. Tenho me dedicado principalmente a essa segunda dimensão. Isso porque acredito que o Poder Público deve ser o indutor do desenvolvimento social e econômico e temos o dever de contribuir com esse processo para garantir maior justiça social e distribuição de renda.

A questão é que a produção calcada apenas na grande produção e exportação de matérias sem valor agregado, apesar de todos os ganhos financeiros para alguns grupos, precisa ser abordada também sob outros ângulos. Digo isto porque há um impacto ambiental que toda essa produção concentrada promove, como o empobrecimento do solo e da biodiversidade. Há ainda uma grande concentração de renda na mão de poucos grupos e uma desvalorização do trabalho do campo.

Esse modelo precisa ser revisto. Em muitos anos, a priorização das grandes monoculturas permitiu o crescimento desses setores em Mato Grosso, inclusive mediante incentivos fiscais e desonerações. Esse modelo econômico é extremamente agressivo com o meio ambiente e agrava ainda mais a desigualdade social.

Inspirado pelo Projeto Nacional de Desenvolvimento, proposto pelo meu correligionário, presidenciável pedetista Ciro Gomes, acredito que é possível consolidarmos um Projeto Estadual de Desenvolvimento para Mato Grosso. O primeiro objeto de trabalho deste plano deverá se concentrar na industrialização de toda a produção do agronegócio.

Mesmo alcançando recordes de produtividade e um grande volume de exportações, beneficiadas pela alta do dólar, o agronegócio em Mato Grosso sobrevive essencialmente de commodities, sem gerar valor agregado à nossa produção. Vendemos matéria-prima sem beneficiamento, o que impede a geração de novos postos de trabalho, que ampliariam a distribuição de renda advinda do agronegócio, contribuindo para o reequilíbrio da justiça social.

Além disso, os insumos necessários para a produção são em sua maioria importados. O Brasil não produz defensivos nem implementos agrícolas, assim como não processa os grãos e frutas que produz, vendendo-os em estado bruto. Dependemos também de tecnologias e de maquinários agrícolas que historicamente são importados.

Penso que é urgente estruturarmos a criação de um complexo industrial do agronegócio no Estado, descentralizado em polos, nos municípios produtores, como as regiões da soja, do milho, da pecuária, ou do algodão, como em Campo Verde.

Porém, para que isso se torne realidade, há um longo caminho de estímulo. Será que conseguiremos avançar num programa de desenvolvimento econômico, com distribuição de renda e preservação do meio ambiente?

  • Allan Kardec Benitez é Professor da rede estadual de Educação, possui mestrado e doutorado em Estudos de Cultura Contemporânea pela UFMT, é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, Deputado Estadual e presidente do Diretório Estadual do PDT-MT.
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Artigos

Como evitar que os fracassos definam nossa identidade?

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Autor: Luis Carlos Marques Fonseca*

A pressão para sermos bem-sucedidos social e economicamente transformou erros e perdas em uma crise de identidade coletiva. Ao observarmos a sociedade atual, percebemos que a angústia de “não atingirmos determinados resultados que desejamos” nasce, em grande parte, da incapacidade de separar nossos resultados de quem essencialmente somos. Por que permitimos que um tropeço se transforme em uma sentença? A resposta, embora complexa, reside na forma como construímos nossa identidade, pois a chave para a liberdade não é a ausência de tropeços, mas a prática consciente da não identificação com as nossas conquistas e fracassos.

A sociedade contemporânea nos empurra para uma fusão perigosa entre o “fazer ou ter” e o “ser”. Se um projeto colapsa, a pessoa se sente inferior; se um papel social se desfaz, ela sente que perdeu a “razão de viver”. No entanto, precisamos resgatar a perspectiva do ator e do personagem. O seu “Eu Real” é o ator; as circunstâncias da vida — o emprego, os sucessos, as posses, as relações sociais, as crises — são apenas papéis no palco. O ator se entrega ao papel com intensidade e responsabilidade, mas ele nunca esquece que, ao fechar das cortinas, sua essência permanece intacta, independentemente de o personagem ter triunfado, fracassado ou perecido.

Para evitar que uma fissura se torne um trauma limitante, é preciso aprender a extrair a essência da experiência, e tornar-se mais consciente de si mesmo. Quando erramos, temos dois caminhos: carregar a dor do “erro” como um trauma que limitará futuras ações ou aprender com ele, tornando-se mais aptos a integrar conscientemente novas situações mais complexas de vida. O fracasso só define a identidade daquele que não é capaz de aprender com os próprios deslizes. Quando assumimos a responsabilidade pelos nossos erros, temos a possibilidade de correção, paramos de culpar a nós mesmo, aos demais ou ao destino e retomamos as rédeas do nosso caminho, de sermos cada vez mais conscientes.

Viver sem apego excessivo aos resultados não significa agir com indiferença, mas sim aproveitar com plenitude cada momento presente. O “Eu Artificial” adora habitar o passado, remoendo mágoas e falhas antigas para justificar o medo do futuro e a responsabilidade de ser o dono do próprio destino. Estar inteiro no agora, fazendo uso de toda experiência acumulada, é a única forma de impedir que a memória negativa e o apego às nossas conquistas e fracassos passados ditem nossos próximos passos.

As conquistas e fracassos, portanto, devem ser vistos como oportunidades de aprendizado. São experiências necessárias para o despertar das virtudes próprias de nossa verdadeira identidade: a Vontade, a Intuição e a Inteligência. Quando deixamos de rejeitar a queda e passamos a observar o que ela nos ensina, a identidade deixa de ser um castelo de cartas vulnerável ao vento das circunstâncias e se torna uma estrutura sólida, forjada na experiência e na sabedoria de quem se identifica com algo em si mesmo que está além de qualquer resultado passageiro.

Não somos o que nos acontece; somos seres conscientes que decidem o que fazer com aquilo que acontece. O palco pode mudar, mas o ator, se estiver consciente de si, jamais se perde na cena.

*Luis Carlos Marques Fonseca é diretor-presidente da Nova Acrópole Brasil Norte e autor do livro Filosofia: O caminho da liberdade (Hanoi Editora).

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