Artigo
O que MT vai fazer com o seu subsolo
Autora: Pamela Alegria* –
A nova Política Estadual de Geologia, Mineração e Transformação Mineral abre uma porta que ficou fechada por décadas. O que virá depois dela é que vai definir o tamanho dessa mudança.
Nos últimos anos passou a ser comum o produtor rural procurar orientação depois de receber a visita de uma empresa interessada em pesquisar minério dentro da fazenda dele. As perguntas se repetem. Ele é obrigado a permitir a entrada? O que está assinando? A lavoura continua? Quem responde se algo der errado? Essas conversas, que há dez anos eram raras em Mato Grosso, dizem sobre o momento do Estado mais do que qualquer estatística de produção.
A mineração mudou de tamanho por aqui. Ganhou espaço no debate econômico, atraiu investidores que antes olhavam apenas para outras regiões do país e trouxe para a mesa temas que ficavam restritos a quem já atuava no setor. Isso não aconteceu por acaso. Mato Grosso tem território extenso, diversidade geológica e ocorrências relevantes de ouro, cobre, zinco, calcário, fosfato e terras raras, em um mundo que passou a tratar mineral estratégico como questão de segurança econômica, e não apenas como commodity.
É nesse contexto que a sanção da Lei Estadual nº 13.559/2026, que institui a Política Estadual de Geologia, Mineração e Transformação Mineral, merece ser lida com atenção. Vejo nela menos um texto normativo isolado e mais uma mudança de postura. Durante muito tempo tivemos potencial mineral sem política pública organizada para ele. Havia geologia, havia projetos, havia arrecadação, mas faltava planejamento, produção de conhecimento e uma estrutura capaz de pensar o setor além da demanda do dia seguinte. A nova lei começa a ocupar esse espaço vazio, e o faz tratando a mineração como estratégia de desenvolvimento.
Existe uma questão elementar do setor que raramente chega ao debate público: saber que uma região tem potencial mineral não é a mesma coisa que conhecer o território. Pesquisa mineral custa caro, demora e envolve risco alto de não encontrar nada aproveitável. Quanto melhor a informação geológica disponível, menor esse risco e maior a chance de o projeto sair do papel. Por isso considero decisivo que a política estadual trate de levantamentos geológicos, geofísicos e geoquímicos e da organização das informações sobre os recursos minerais do Estado.
Mato Grosso ainda tem muito a conhecer sobre o próprio subsolo, e esse conhecimento não serve apenas às mineradoras. Serve ao Estado, que planeja o território, aos municípios, que precisam saber o que esperar da própria economia, e à sociedade, que tem o direito de discutir com informação o que será feito de um bem que pertence à União e produz efeitos locais permanentes.
O segundo ponto que destaco na lei é a inclusão da transformação mineral. Se a conversa sobre desenvolvimento terminar na retirada do minério do solo, ela termina cedo demais. Beneficiamento, indústria, tecnologia e agregação de valor significam fornecedores instalados aqui, empregos qualificados, arrecadação e riqueza que permanece no Estado depois que a jazida se esgota. Mato Grosso conhece bem essa lógica. O agronegócio se tornou o que é não porque plantou mais, mas porque construiu ao redor da lavoura uma rede de logística, armazenagem, pesquisa, serviços e indústria. A mineração precisa ser pensada com a mesma ambição.
Esse debate tem uma característica que é nossa. A mineração avança sobre um território onde o agronegócio já está consolidado, e as duas atividades vão se encontrar cada vez mais. Já se encontram. Projetos minerários alcançam áreas produtivas e abrem discussões sobre acesso, indenização, convivência entre lavoura e pesquisa, recuperação do solo, passivo ambiental e implantação futura de lavra. Tratar esse encontro apenas como conflito é desperdiçar uma oportunidade rara. Fosfato, calcário e remineralizadores fazem parte da rotina do campo, o Brasil segue dependente da importação de fertilizantes, e um Estado que é potência agrícola tem tudo a ganhar com uma política que aproxime as duas cadeias.
Isso não significa fingir que não existem tensões. Elas existem e se resolvem com contratos equilibrados, responsabilidade ambiental efetiva, recuperação adequada das áreas e previsibilidade para os dois lados. O produtor precisa saber exatamente o que está autorizando e o que recebe em troca. Quem investe precisa saber que o acordo firmado hoje vai valer daqui a cinco anos. O que não se sustenta é a ideia de que uma atividade só cresce à custa da outra.
Chego então ao ponto que considero indispensável. Não existe investimento mineral relevante sem segurança jurídica. Entre a pesquisa, os estudos, o licenciamento, a implantação e a primeira tonelada produzida pode se passar uma década. São decisões tomadas olhando para trinta anos à frente. Por isso, tão importante quanto conhecer nosso potencial é construir um ambiente em que as regras sejam claras e o caminho seja compreensível antes do primeiro real investido.
A regulamentação da nova lei será decisiva nisso, e é onde mora o principal risco. Uma política criada para estimular o setor pode virar mais uma camada de burocracia se os cadastros e instrumentos de controle forem desenhados sem conversar com o que já existe. A tecnologia disponível permite integrar as bases da ANM, da SEMA, da SEDEC e dos demais órgãos. Exigir do empreendedor um dado que o próprio Poder Público já tem guardado é retrabalho, não é fiscalização. Simplificar não é reduzir controle. É fazer controle melhor, com informação confiável e no tempo certo.
A lei é o começo. O Plano Estadual de Geologia e Recursos Minerais precisa sair do papel. O Conselho Estadual precisa funcionar de fato e reunir quem conhece a realidade da mineração, incluindo o pequeno e o médio empreendedor e a atividade garimpeira, que fazem parte do nosso setor mineral tanto quanto os grandes projetos. Os recursos destinados ao desenvolvimento mineral precisam voltar em conhecimento geológico, estrutura e melhoria do ambiente de negócios. E o Estado precisa se aproximar da União, especialmente da Agência Nacional de Mineração, além de trazer municípios, universidades e produtores rurais para a construção.
Mato Grosso não precisa copiar o modelo de nenhum outro Estado. Temos distâncias enormes, gargalos logísticos, áreas geologicamente pouco conhecidas e uma economia rural forte. Nossa política mineral tem que partir daí. Durante anos discutimos se havia potencial no nosso subsolo. Há. Agora começamos a ter instrumentos para discutir outra pergunta, mais difícil e mais interessante: o que Mato Grosso vai fazer com ele.
*Pamela Alegria é advogada especialista em Direito Minerário e Ambiental e atua no setor mineral em Mato Grosso.
Artigos
Entre o anabolizante e o autocuidado: a divisão que vai definir o futuro do bem-estar
Autor: Nelson Lins* –
Passei mais de uma década observando por que as pessoas decidem se cuidar. E, se eu tivesse que resumir o momento atual, diria que o setor de saúde e bem-estar está dividido como nunca esteve. De um lado, cresce uma pressão estética cada vez mais intensa e, muitas vezes, perigosa. Do outro, ganha força uma parcela de pessoas que descobriu uma relação mais madura com o próprio corpo.
Essas duas forças convivem hoje, puxando o comportamento do consumidor em direções opostas, e a forma como essa disputa se resolver vai definir a próxima década do setor.
Vamos começar pela parte incômoda, porque ignorá-la seria desonesto. A busca pelo corpo perfeito não acabou. Em alguns grupos, ela está mais agressiva do que nunca. O uso de anabolizantes sem acompanhamento cresce, inclusive entre jovens. Padrões irreais se multiplicam nas redes sociais, e a estética virou, para muita gente, uma corrida sem linha de chegada, movida por comparação e ansiedade.
Isso é um problema de saúde pública, não uma tendência de mercado a ser celebrada. Quem trabalha com saúde tem a responsabilidade de dizer isso com clareza: nenhum resultado estético justifica colocar o corpo em risco.
Mas há um movimento paralelo, mais silencioso, que me parece igualmente real e é sobre ele que quero chamar atenção, porque ele aponta um caminho melhor.
A virada que vem acontecendo
Uma parcela crescente de pessoas está deixando de treinar por estética e passando a treinar por outra coisa: disposição, saúde mental, alívio do estresse, qualidade de sono, longevidade. Os dados mostram isso.
No início do ano, uma pesquisa realizada pela Vitha, apontou que 67% dos brasileiros pretendiam investir mais em saúde mental ao longo de 2026, praticamente no mesmo patamar do interesse por exercício físico e alimentação saudável. Para esse grupo, os três pilares viraram partes de uma coisa só. Não é sobre emagrecer para o verão. É sobre viver melhor o ano inteiro.
A diferença entre essas duas motivações é mais profunda do que parece. Quem se movimenta movido por culpa ou por um padrão inatingível tende a desistir, porque a régua é externa e nunca se alcança. Já quem se movimenta pelo bem-estar que sente no dia a dia tende a se manter, porque o resultado aparece todos os dias: no humor, no sono, na energia.
Do ponto de vista de quem constrói hábitos de forma sustentável, a segunda lógica é incomparavelmente mais saudável, física e emocionalmente.
Isso não significa que cuidar da aparência seja um problema. Autoestima e autocuidado são legítimos e importantes. O ponto é a régua. Cuidar de si para se sentir bem é diferente de se destruir para atingir um ideal imposto. A primeira relação constrói. A segunda adoece.
Agosto, o segundo janeiro
Existe um momento do ano que revela bem esse comportamento, e ele é agora. Agosto é o que eu chamo de “segundo janeiro”. As pessoas voltam das férias de julho, reorganizam a rotina e sentem vontade de recomeçar, só que sem a euforia irreal do início do ano. É um recomeço mais realista. E é exatamente aí que mora a escolha entre os dois caminhos.
Porque o erro de janeiro se repete todo agosto quando a motivação é a errada. A pessoa quer dar conta de tudo de uma vez: treino diário, dieta radical, mudança completa. E, previsivelmente, desiste, às vezes partindo para atalhos perigosos na busca por resultados rápidos.
O que funciona é o oposto. Pequenos hábitos consistentes valem mais do que grandes intervenções pontuais. Uma caminhada, mais um copo de água, dormir um pouco mais cedo. A constância vence a intensidade, e faz isso sem cobrar um preço da saúde.
O que o mercado precisa escolher
A economia do bem-estar movimenta cerca de US$ 2 trilhões por ano no mundo, segundo a McKinsey, e não para de crescer. Mas esse crescimento coloca uma responsabilidade sobre quem atua no setor.
Dá para faturar explorando a insegurança das pessoas, alimentando padrões impossíveis e prometendo resultados milagrosos. E dá para construir algo mais duradouro, ajudando as pessoas a se relacionarem melhor com o próprio corpo. São dois modelos de negócio, e dois efeitos completamente diferentes sobre a saúde de quem consome.
Eu aposto no segundo, não só por convicção, mas porque acredito que é ele que vai se sustentar. O consumidor está amadurecendo. Uma parte dele já entendeu que saúde não é sobre parecer bem a qualquer custo, e sim sobre viver bem ao longo do tempo.
O setor que entender essa diferença, e resistir à tentação de lucrar com a pressão estética, vai liderar a próxima década. E, mais importante do que liderar um mercado, vai fazer bem às pessoas.
*Nelson Lins, especialista em wellness, fundador da Selfit Academias e da Face Doctor Franchising, especialista em Franquias, Equity, M&A e Expansão.
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