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O diploma deixou de ser ponto final: a nova transformação do ensino superior
Autor: Jânyo Diniz* –
Durante décadas, o ensino superior foi organizado em torno de uma lógica relativamente estável: escolher um curso, obter um diploma e ingressar em uma carreira que, com variações, acompanharia o profissional por boa parte da vida. Esse modelo já não descreve o mundo real. Nos últimos anos, a transformação do mercado de trabalho, acelerada pela tecnologia, encurtou carreiras, fragmentou ocupações e colocou em xeque a ideia de que a formação superior é um ponto de chegada.
Os dados ajudam a entender essa ruptura. Estudos internacionais indicam que as competências técnicas mais demandadas hoje podem se tornar obsoletas em menos de cinco anos. Ao mesmo tempo, novas funções surgem em ritmo superior à capacidade tradicional de atualização curricular. O resultado é um descompasso estrutural: tecnologias avançam mais rápido do que os currículos e o diploma, isoladamente, já não garantem inserção sustentável no mercado.
Esse cenário impõe uma revisão profunda do papel das universidades. A expansão do acesso, especialmente com o crescimento da educação a distância, foi um avanço relevante. Mas escala, sozinha, não resolve o problema. O desafio contemporâneo é transformar acesso em capacidade contínua de adaptação.
Por isso, reforço aqui que o futuro da educação superior passa por cinco mudanças claras. A primeira é abandonar a lógica restrita da empregabilidade — centrada em preparar para uma vaga específica — e avançar para a trabalhabilidade. Em um mundo de ocupações mutáveis, formar para o trabalho significa desenvolver competências transferíveis: aprender a aprender, resolver problemas complexos, colaborar em ambientes digitais e gerar valor em diferentes contextos produtivos.
A segunda mudança é reconhecer a Inteligência Artificial como nova alfabetização. Assim como ler e escrever foram condições básicas de participação social em outros períodos históricos, compreender, usar criticamente e supervisionar sistemas de IA tornou-se uma competência fundamental. Não se trata de formar programadores em massa, mas cidadãos e profissionais capazes de interagir com algoritmos de forma ética, produtiva e responsável.
O terceiro ponto é a necessidade de currículos mais flexíveis, modulares e empilháveis. O diploma único, linear e fechado perde espaço para trajetórias formativas adaptáveis, que combinam graduação, microcredenciais e certificações intermediárias. Esse modelo permite respostas mais rápidas às mudanças tecnológicas e reduz o custo de atualização profissional ao longo da vida.
A quarta transformação diz respeito à forma como as competências são comprovadas. O mercado começa a valorizar não apenas o título formal isolado mais agregado a portfólios que demonstrem competências reais, projetos desenvolvidos, problemas resolvidos e experiências aplicadas. Avaliar apenas por provas tradicionais já não captura o que realmente importa em ambientes de trabalho complexos.
Por fim, consolida-se a aprendizagem contínua ao longo da vida como eixo estruturante. O ciclo “estudar-trabalhar-encerrar a formação” tornou-se incompatível com a realidade. A educação superior passa a ser uma plataforma permanente de atualização, requalificação e reinvenção profissional e não um serviço consumido apenas no início da vida adulta.
Essas mudanças não são teóricas. Países que avançaram nessa agenda conseguem reduzir o hiato entre formação e trabalho, melhorar a produtividade e proteger seus profissionais em períodos de transição tecnológica. Aqueles que insistirem em modelos rígidos correm o risco de formar para um mundo que já não existe.
Universidades que compreenderem esse movimento não apenas formarão profissionais. Formarão protagonistas, capazes de se reinventar em um ambiente de incerteza permanente. Isso exige coragem institucional, revisão regulatória e disposição para medir resultados reais de aprendizagem e inserção produtiva.
O diploma deixou de ser ponto final. Passou a ser apenas o inicio de uma trajetória que precisa acompanhar a velocidade do mundo. A Instituição de ensino superior que entender isso continuará relevante. A que ignorar, ficará para trás junto com as promessas que já não consegue cumprir.
*Jânyo Diniz, vice-presidente da CONFENEM e CEO do Grupo Ser Educacional
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Sua empresa realmente faz marketing?
Autora: Dayane Nascimento* –
Nem tudo é marketing. E entender isso pode mudar os resultados da sua empresa. É comum ouvir empresários dizendo que precisam “contratar o marketing” quando, na realidade, procuram alguém para administrar as redes sociais, criar anúncios ou produzir conteúdo.
Embora essas atividades sejam importantes, elas representam apenas uma parte do marketing. Confundir essas funções pode parecer apenas um detalhe de nomenclatura, mas costuma gerar desperdício de investimentos e resultados abaixo do esperado.
Essa percepção é reforçada por um levantamento da consultoria Gartner, segundo o qual empresas com elevados níveis de desorganização estratégica são 36% menos propensas a alcançar alto desempenho em marketing e nos resultados do negócio. O estudo indica que, muitas vezes, o problema não está na execução das ações, mas na ausência de uma estratégia capaz de orientar todas elas.
O marketing não é uma ferramenta. É a estratégia que orienta todas as ferramentas. Essa distinção já era defendida por Philip Kotler, considerado um dos principais estudiosos da área. Em Administração de Marketing, ele define marketing como um processo de identificação e atendimento das necessidades humanas e sociais de forma lucrativa.
Em outras palavras, marketing não começa na publicação de um post ou no lançamento de uma campanha. Ele começa muito antes: entendendo o mercado, o comportamento do consumidor, a proposta de valor da empresa e os objetivos do negócio. Quando essa etapa estratégica é ignorada, a comunicação passa a funcionar de forma fragmentada.
A empresa que investe em redes sociais porque “todo mundo está fazendo“, compra mídia paga porque quer vender mais, contrata influenciadores porque virou tendência e reformula sua identidade visual porque acredita que a marca “precisa parecer mais moderna”. São decisões que, isoladamente, podem até ser bem executadas, mas dificilmente constroem um posicionamento consistente.
Não por acaso, Don Schultz, um dos criadores do conceito de Comunicação Integrada de Marketing (Integrated Marketing Communications – IMC), defende que todos os pontos de contato entre empresa e consumidor devem transmitir uma mensagem coerente e alinhada aos objetivos estratégicos da organização. A força da comunicação não está em cada ação individual, mas na capacidade de todas elas trabalharem em conjunto.
Uma analogia simples ajuda a compreender essa diferença. Imagine a construção de um edifício. O pedreiro, o eletricista, o encanador e o pintor exercem funções indispensáveis. No entanto, nenhum deles substitui o projeto arquitetônico. É o projeto que define como cada profissional irá atuar para que o resultado final seja seguro, funcional e coerente. No marketing acontece exatamente o mesmo. Social media, designer, gestor de tráfego, redator, videomaker e assessoria de imprensa são especialistas fundamentais, mas precisam estar conectados por uma estratégia comum.
Esse entendimento também aparece nas organizações que mais se destacam em desempenho. A consultoria Gartner define estratégia de marketing como a disciplina responsável por alinhar todas as atividades de marketing aos objetivos do negócio. A preocupação deixa de ser apenas “o que fazer” e passa a ser “por que fazer”, “para quem fazer” e “como medir o impacto de cada iniciativa”.
Na prática, muitas empresas enfrentam um cenário diferente. Cada fornecedor entrega bem a sua parte, mas ninguém coordena o conjunto. O designer cria peças visualmente atrativas, o social media publica com frequência, o gestor de tráfego otimiza campanhas e a equipe comercial busca novos clientes. Ainda assim, os resultados parecem não acompanhar o esforço.
O problema, muitas vezes, não está na qualidade dos profissionais, mas na ausência de uma direção estratégica que conecte todas essas ações. Essa realidade é especialmente comum em empresas que cresceram rapidamente. À medida que o negócio evolui, surgem novos canais de comunicação, diferentes fornecedores e diversas demandas simultâneas. Sem uma estratégia clara, cada decisão passa a ser tomada de forma reativa, seguindo tendências ou urgências do momento.
Talvez por isso Peter Drucker tenha afirmado que “o objetivo do marketing é tornar a venda supérflua”. A frase não significa que vender deixa de ser importante, mas que, quando o mercado é compreendido, a proposta de valor é clara e a comunicação é consistente, o cliente percebe naturalmente o valor da empresa. A venda passa a ser consequência de um trabalho estratégico bem executado.
As ferramentas continuarão evoluindo. Novas redes sociais surgirão, formatos de conteúdo serão substituídos e tecnologias baseadas em inteligência artificial transformarão novamente a forma de comunicar. Mas a essência do marketing permanecerá a mesma: compreender pessoas, gerar valor e orientar decisões que aproximem empresas e clientes.
No fim das contas, redes sociais, anúncios, vídeos, eventos e campanhas não são o marketing. São instrumentos. Marketing é a estratégia que faz todos esses instrumentos tocarem a mesma música.
*Dayane Nascimento, consultora marketing com formação na UFMT, especialista em economia comportamento pela ESPM/SP e empresária.
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