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Artigo

A medicina não resistiu à tecnologia

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Autor: Dr. Victor Sano*

Por décadas, consolidou-se no imaginário da gestão hospitalar a ideia de que o corpo clínico é o principal entrave à inovação tecnológica. No entanto, o relatório “The 2025 Physicians AI Report”, publicado em outubro de 2025 que entrevistou mais de mil médicos de 106 diferentes especialidades, destrói esse mito e revela uma realidade muito mais complexa: o médico não resiste à tecnologia.

Estamos vivendo o que o estudo chama de “O Grande Desalinhamento”. Enquanto 67% dos médicos já utilizam Inteligência Artificial (IA) diariamente em sua prática e 84% acreditam que ela os torna melhores profissionais, a gestão implementa tecnologias sem consultar os profissionais de saúde, diminuindo muitas vezes a aderência e o engajamento.

O paradoxo é claro: o médico está pronto para o futuro, mas a governança hospitalar parece presa a processos de avaliação que levam 18 meses para aprovar ferramentas que o corpo clínico já validou na linha de frente. Esse atraso não é apenas uma questão de eficiência; é um risco à segurança de dados, uma vez que a falta de soluções oficiais empurra os profissionais para ferramentas de nível de consumidor.

A desconexão torna-se ainda mais evidente quando analisamos as prioridades. Enquanto empresas de tecnologia e diretores focam no lado mais “hypado” da IA — diagnósticos complexos e suporte à decisão clínica, o médico clama por alívio administrativo.

Para 65% dos profissionais, a prioridade número um é a eliminação da documentação manual. Eles querem que a IA cuide dos cliques inúteis e da burocracia para que possam, finalmente, restaurar a “Arte da Medicina”: o contato visual, a intuição e a conexão humana que os sistemas de prontuário eletrônico ajudaram a destruir.

Há, contudo, um temor legítimo. 30% dos médicos temem que a IA seja “armada” por administradores e fontes pagadoras para priorizar o lucro e o volume de pacientes em detrimento do cuidado e da autonomia clínica. Existe o medo jurídico: ser processado se usar uma IA que erra, ou ser processado por não usar uma IA que teria evitado o erro.

Para que a saúde realmente avance, o modelo de governança precisa mudar. A tecnologia deve ser focada no médico e não nas instituições. Isso significa dar ao corpo clínico influência real na escolha das ferramentas — algo que 71% dos médicos sentem não ter hoje, segundo o estudo publicado pela offcall empresa especializada em orientar os profissionais nas áreas de finanças e qualidade de vida.

A IA não vai substituir o médico; 87% dos profissionais rejeitam essa ideia. Pelo contrário, ela tem o potencial de salvar a profissão do burnout, que é um estado de exaustão física, emocional e mental causado por estresse frequente causado pelo trabalho.

Mas, para isso, as organizações precisam parar de impor ferramentas de cima para baixo e começar a ouvir quem realmente está ao lado do leito, o médico. O futuro da medicina exige tecnologia de ponta, mas sua alma ainda depende da autonomia de quem a pratica.

*Dr. Victor Sano é radio-oncologista com atuação na Oncomed-MT, Professor Universitário na Univag e Mestre em Educação em Saúde.

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Artigos

Toró eleitoral

Publicados

em

Autora: Valéria del Cueto*

Quem aguenta essas tormentas intermináveis?

Temos tempestades de todos os jeitos. Para todos os lados.

São borrascas de águas, enchentes de informação, enxurradas de corrupção…

Para pensar positivo considero que o sol apareceu!

Depois de semanas escondido pelas nuvens que, além de enchentes, granizo e tornados, trouxeram (essa é a parte boa) a subida dos níveis dos reservatórios. Andavam abaixo da linha do alerta da insuficiência hídrica.

Melhorar as reservas é essencial ao enfrentamento dos prometidos tempos de El Niño marombado que estão chegando.

Os poucos dias com tempo firme também permitiram que pelo menos as roupas finalmente sequem nos varais. É uma beleza vê-los cheios de adereços. As peças dançando alegremente.

Também fizeram que, mais uma vez, o caderninho entrasse em ação.

Sim, gosto de escrever ao ar livre, se possível ouvindo um barulho de água.

Pode ser na beira do mar esticada numa canga na praia. Ou, como agora, empoleirada nos degraus a caminho da ponte de madeira que une os dois lados do rio no meio do mundo.

Diante do estado de umidade do gramado, esse é o melhor ponto para deixar que o murmúrio do regato (no momento límpido, depois de crescer enlameado durante as últimas semanas) conduza as ideias que vou alinhavando no caderninho.

Foi isso que adiou a entrega do texto da vez.

Era tanta lama de informações atingindo minhas ideias que, mal formulava uma linha de pensamento cronical, já surgiam outras revelações, desatualizando as colocações cuidadosamente buriladas.

Virou um escreve-apaga interminável, com os textos perdendo a validade antes de conseguir fechar as duas laudas de praxe. Elas são definidas pelo espaço que me cabe no Diário de Cuiabá.

Cheguei a pensar em trocar o encadeamento costumeiro por notinhas, tipo uma coluna.

Não consegui dar adeus às crônicas e optei por atrasar o envio do material até ter a chance de encadear os assuntos como sempre fiz.

Mal comparando, se fosse nos tempos das máquinas de escrever, a lata de lixo do lado da escrivaninha estaria transbordando de bolinhas de papel amassadas de trechos inacabados.

A vida está assim, uma lixeira lotada de informações que chegam rápidas em grande quantidade e são descartadas ou absorvidas sem tempo de checagem, de aprofundamento.

Enquanto isso, o Brasil e o mundo não rolam, capotam descontrolados em meio a tiroteios de snipers invisíveis. Dispostos a transformar nossas vidas num inferno agem sempre em causa própria, sem pensar no coletivo.

Querido leitor, teremos eleições daqui a alguns dias!

Dizem os analistas que elas serão decididas, não pelo quesito das propostas, mas por quem tiver menos rejeição.

E dá-lhe tiro, porrada e bomba para desconstruir os adversários.

O povo estarrecido procura se defender das balas perdidas sem ter tempo de atinar, analisar. É hora de procurar os melhores quadros para o poder legislativo. Já escolheu seus representantes?

Se lembra em quem votou para deputado estadual, federal e senador nas últimas eleições?

Não sei você. Vou escolher aqueles que, realmente, pensam no bem comum e não apenas no próprio umbigo e seus interesses familiares e pessoais. BETs, emendas impositivas dirigidas aos apaniguados, entregar o país à tutela de terceiros. Como assim?

São eles, os parlamentares, que poderão fazer a diferença numa busca coletiva de melhorias reais para o povo brasileiro, seus eleitores.

Existem indecisos a serem convencidos, os que definirão os rumos do país nos próximos anos. Cabe a nós trazermos de volta a esperança de que o país deve seguir independente, soberano e altivo, sem se curvar às ingerências externas. É ela que fará os eleitores nortearem suas escolhas.

Sabemos que o céu voltará a ficar limpo, deixando espaço para o sol, a lua e as estrelas, nossas armas para convencer os indecisos de que o mau tempo vai passar. Com a ajuda deles, podemos fazer um toró de esperança, alegria e fé no Brasil chegar às urnas nessa eleição.

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica das séries “Não sei onde enquadrar” e do SEM FIM…

delcueto.wordpress.com

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