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Artigo

Medo e coragem

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Autor: Francisney Liberato*

Nesse instante Jesus disse: Coragem! Sou eu! Não tenham medo!“. Mateus 14:27

Medo e coragem não são sinônimos, mas andam lado a lado. Às vezes, o medo é o que nos leva à coragem; já em outros momentos, a coragem dissipa o medo. Você é corajoso? Como lida com os medos da vida?

Pedro era conhecido por sua liderança, força, autenticidade e coragem. Cada um de nós temos características próprias, na dosagem certa para que possamos lidar com os medos.

Um dos grandes milagres mais conhecidos de Jesus Cristo mostra que Ele andou sobre as águas. Vejamos o relato de Mateus 14:22-33, que também está registrado em Marcos 6:45-52 e João 6:15-21:

Logo depois, Jesus ordenou aos discípulos que subissem no barco e fossem na frente para o lado oeste do lago, enquanto ele mandava o povo embora. Depois de mandar o povo embora, Jesus subiu um monte a fim de orar sozinho. Quando chegou à noite, ele estava ali, sozinho. Naquele momento o barco já estava no meio do lago. E as ondas batiam com força no barco porque o vento soprava contra ele. Já de madrugada, entre as três e as seis horas, Jesus foi até lá, andando em cima da água. Quando os discípulos viram Jesus andando em cima da água, ficaram apavorados e exclamaram: — É um fantasma! E gritaram de medo. Nesse instante Jesus disse: — Coragem! Sou eu! Não tenham medo! Então Pedro disse: — Se é o senhor mesmo, mande que eu vá andando em cima da água até onde o senhor está. — Venha! — respondeu Jesus. Pedro saiu do barco e começou a andar em cima da água, em direção a Jesus. Porém, quando sentiu a força do vento, ficou com medo e começou a afundar. Então gritou: — Socorro, Senhor! Imediatamente Jesus estendeu a mão, segurou Pedro e disse: — Como é pequena a sua fé! Por que você duvidou? Então os dois subiram no barco, e o vento se acalmou. E os discípulos adoraram Jesus, dizendo: — De fato, o senhor é o Filho de Deus!”.

Esse milagre ocorreu depois de outro milagre, a qual foi presenciado pelos discípulos, o milagre da multiplicação de apenas cinco pães e dois peixes, que serviu de alimento para aproximadamente cinco mil homens. Se acrescentarmos pelo menos um cônjuge e uma criança para cada homem presente nesse milagre, nós teríamos aproximadamente 15 mil pessoas alimentadas. Creio que nesse milagre, deveria ter aproximadamente essa quantidade ou mais de pessoas.

Jesus foi orar por horas sozinho no monte, mas não perdeu de vista os seus discípulos. Mesmo aparentemente longe de nós, saiba que Jesus nos observa e está atento para dispensar todos os cuidados necessários para você e para mim. Os discípulos estavam sozinhos dentro de um barco, no mar, que partiam para Cafarnaum. Eles remaram aproximadamente cinco quilômetros, devido à intensidade do vento (João 6:19). O vento tinha curso contrário do local para aonde estavam indo. Eles estavam distantes, mas Jesus sabia das circunstâncias.

Já era de madrugada e o vento soprava forte sobre o barco. Além da noite densa, a tempestade impactava sobremaneira a vida daqueles discípulos e eles sentiram medo.

Apesar de seguidores de Cristo, até aquele momento, os discípulos não compreendiam em perfeita magnitude a vinda do Salvador e a missão de cada um deles nesse contexto missionário. Seus corações, em perfeito ritmo com aquele vento que soprava em contrário ao destino da missão, ansiavam por vontade humana que Cristo estabelecesse um reino nesta terra. É importante destacar que, ainda que sejamos seguidores de Jesus, o “mar” da vida pode nos impactar e nos causar medo e temor, pois o nosso mundo terrestre será passageiro.

O mar e a tempestade literais foram a providência divina para acalmar a tempestade que havia no interior de cada um deles. A mar tempestuoso da nossa vida, é também um motivo para redirecionarmos os nossos propósitos à vontade do Mestre Jesus.

No livro “O desejado de todas as nações”, de Ellen G. White, enfatiza-se essa situação:

O plano deveria ser impedido sem demora. Chamando os discípulos, Jesus ordena-lhes que tomem o barco e voltem imediatamente para Cafarnaum, deixando-O para despedir a multidão. Nunca antes uma ordem de Cristo parecera tão impossível de cumprir. Os discípulos haviam esperado muito tempo por um movimento popular para colocar Jesus no trono; não podiam suportar a ideia de que todo esse entusiasmo viesse a dar em nada”.

Aqui vai uma lição para nós: mesmo que tenhamos experiências de vida, como milagres, dedicação à Palavra, ajuda ao próximo, ainda assim não estamos imunes ao medo, o qual nos coloca em posição de submissão ao Pai eterno.

Apesar daquele dia ter sido de grandes demonstrações de Poder e milagres, ao estarem sozinhos, sem o Mestre, o barco estava suscetível ao naufrágio. Naquele momento, o milagre anterior, já tinha sido esquecido pelos discípulos, devido ao medo sentido.

O medo turva a nossa mente e nos paralisa. O medo nos distrai. O medo nos torna fracos. O medo destrói a nossa motivação. O medo nos distancia dos nossos objetivos. Porém, o medo pode ser o melhor momento para ressignificar a nossa vida.

Jesus viu os seus amados com medo. O Mestre se alimentou da espiritualidade primeiro, para depois ir ao barco. Jesus foi ao encontro deles e andou sobre às águas numa demonstração de fé e coragem que somente em Deus podemos ter.

Os discípulos se imbuíram de maior medo, após verem Jesus sobre o mar. Até então, eles não sabiam quem era e pensavam ser um fantasma. Os discípulos ainda tinham a crença há época sobre fantasmas. Esses discípulos gritaram duas vezes, a primeira com medo e a segunda, para que Cristo os salvasse. O fato é: se estamos com medo, a nossa tendência é potencializar o medo.

Ao ver aquele cenário, Jesus simplesmente disse: Não tenham medo! A sua palavra doce foi penetrada na mente dos discípulos e eles confiaram no comando do Mestre. A mesma palavra hoje nos é direcionada. Se estamos cansados, sobrecarregados, com medo, e quem sabe até apavorados pelas dificuldades da vida, lembremo-nos: Jesus está em nossos corações e mentes dizendo: filho, eu te conheço, portanto, não tenha medo. Tenha coragem e bom ânimo!

Em meio aos discípulos apavorados, surge então Pedro, o mais corajoso do grupo. Creio que Pedro também estava com medo, porém impulsionado por sua ousadia quis ir até o Mestre, e não se paralisou por isso.

“Se és tu!” Pedro pediu para ir até Jesus. Ele, até então, tinha esquecido das ondas e tempestades. Pedro, naquele momento estava disposto a obedecer a esse chamado.

Pedro então andou sobre as águas da Galileia. Seus pés flutuavam sob a imensidão naquele mar, pelo tempo em que seus olhos permaneceram fixados no Mestre. Quem sabe ele tenha pensado: estou andando sobre as águas e vocês não. Agora tenho uma nova habilidade. Hoje passo a fazer milagres. O velho Pedro estava atuando naquele instante.

Ao olhar para trás e ao entorno, a sua fé vacilou. O orgulho minou a sua fé.

Não precisamos ter medo, se mantivermos o olhar atento a Jesus! A graça e o poder vêm dEle. Mas, se olharmos para o nosso “eu” e para nossa capacidade orgulhando-nos disso, é certo que estaremos fadados ao fracasso.

Pedro se afundou nas águas agitadas. Como pescador experiente ele sabia nadar, mas naquela situação, não conseguiu, e se afogou. “Salva-me, Senhor!”, Pedro lembrou e gritou para Jesus. E Ele prontamente o atendeu. Aliás, Deus sempre atende as nossas preces e pedidos de socorro, mesmo que em algum momento de nossa vida, tenhamos nos esquecidos dEle. Jesus salvou Pedro e depois o censurou pela perda da fé. E ambos subiram na embarcação, agora, com Jesus tomando as rédeas do barco e da vida dos seus discípulos.

No livro supracitado, ainda se relata:

Olhando para Jesus, Pedro caminha firmemente; como satisfeito consigo mesmo, porém, volta-se para os companheiros no barco, desviando os olhos do Salvador. O vento ruge. As ondas encapelam-se, alterosas, e interpõem-se exatamente entre ele e o Mestre; e ele teme. Por um momento, Cristo fica-lhe oculto, e sua fé desfalece. Começa a afundar. Mas ao passo que as ondas prenunciam morte, Pedro ergue os olhos para Jesus e brada: “Senhor, salva-me!” Jesus segura imediatamente a estendida mão, dizendo: “Homem de pequena fé, por que duvidaste?” Andando lado a lado, a mão de Pedro na do Mestre, entraram juntos no barco. Mas Pedro estava agora rendido e silencioso. Nenhuma razão tinha de se vangloriar sobre os companheiros, pois por causa da incredulidade e da exaltação quase perdera a vida. Ao desviar de Cristo o olhar, foi-se-lhe o pé, e ei-lo a submergir-se. Quantas vezes, ao sobrevir-nos aflição, fazemos como Pedro! Olhamos para as ondas, em lugar de manter os olhos fixos no Salvador. Os pés vacilam, e as orgulhosas águas passam por sobre nossa alma. Jesus não disse a Pedro que fosse ter com Ele para que perecesse; não nos chama a segui-Lo, para depois nos abandonar. “Não temas”, diz-nos; “porque Eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és Meu. Quando passares pelas águas, estarei contigo, e quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti. Porque Eu sou o Senhor teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador. Isaías 43:1-3”.

Com Jesus no barco, o mar se acalmou e a tempestade se foi. E as dúvidas e ansiedade do coração dos discípulos também haviam se dissipado. O propósito de Jesus foi atendido. E, mais uma vez, os discípulos reconheceram Jesus como o Messias.

Medo e coragem podem se entrelaçar. Pedro teve coragem e andou sobre as águas, mas a sua fé fraquejou e o seu orgulho desmoronou por confiar demais em suas habilidades. Se Jesus está no nosso barco, não há o que temer!

Tenha coragem!

*Francisney Liberato é Auditor do Tribunal de Contas. Escritor. Palestrante. Professor. Coach e Mentor. Mestre em Educação. Doutor Honoris Causa. Bacharel em Administração, Bacharel em Ciências Contábeis (CRC-MT) e Bacharel em Direito (OAB-MT). Membro da Academia Mundial de Letras.

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Artigos

Os irmãos que a vida permite escolher

Publicados

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Autora: Soraya Medeiros*

O que transforma um desconhecido em alguém que passa a ocupar o lugar de um irmão? O que faz com que duas pessoas, sem qualquer laço de sangue, escolham permanecer lado a lado durante uma vida inteira?

A resposta parece simples. Costumamos dizer que a amizade nasce da afinidade, dos interesses em comum ou da convivência. Mas isso explica apenas o início da caminhada, nunca a sua permanência. Afinal, afinidades mudam, circunstâncias passam e a vida nos conduz por estradas inesperadas. O que faz algumas amizades atravessarem décadas é algo muito mais profundo: a decisão consciente de permanecer. Em outras palavras, a irmandade.

Muito antes de as redes sociais transformarem a palavra “amigo” em um simples botão de conexão, Aristóteles já refletia sobre esse vínculo em sua obra Ética a Nicômaco. O filósofo afirmava que existem amizades baseadas na utilidade, no prazer e na virtude. As duas primeiras desaparecem quando deixam de oferecer benefícios ou diversão. A terceira, porém, resiste ao tempo porque nasce do respeito, da admiração e do desejo sincero pelo bem do outro. É essa amizade virtuosa que mais se aproxima daquilo que chamamos de irmandade.

Os irmãos de sangue compartilham uma história escrita pela biologia. Os irmãos de alma escrevem essa história pela liberdade de escolher. Não existe obrigação, herança ou sobrenome que os mantenha unidos. Existe apenas uma escolha silenciosa de cuidar, acolher e permanecer, mesmo quando a vida oferece motivos para seguir caminhos diferentes. Talvez seja justamente essa liberdade que torna esse vínculo tão extraordinário. Ele não é imposto pelo destino; é cultivado diariamente.

Quando um amigo se torna irmão, as máscaras deixam de fazer sentido. Não é preciso aparentar força o tempo todo, esconder as fragilidades ou disputar reconhecimento. Surge um espaço raro de pertencimento, onde o sucesso é celebrado sem inveja, os erros são corrigidos com sinceridade e os silêncios são compreendidos sem constrangimento. A amizade verdadeira nos oferece aquilo que todos procuram, mas poucos encontram: a certeza de que podemos ser exatamente quem somos.

Vivemos, entretanto, em uma época em que as relações se tornaram rápidas e descartáveis. Colecionamos contatos, seguidores e curtidas como se números fossem capazes de medir afeto. Nunca estivemos tão conectados pela tecnologia e, paradoxalmente, tão expostos à solidão. Descobrimos, muitas vezes tarde demais, que centenas de contatos não substituem uma única pessoa disposta a atender o telefone no meio da madrugada apenas para dizer: “Estou aqui.”

Talvez isso aconteça porque relações profundas exigem justamente aquilo que a cultura da velocidade tenta evitar: compromisso. Ser amigo de verdade é permanecer quando tudo convida ao afastamento. É oferecer acolhimento antes do julgamento, escutar antes de aconselhar e estender a mão sem calcular vantagens. A amizade madura não vive da lógica da conveniência nem da contabilidade dos favores. Ela compreende que haverá momentos em que um sustentará o outro e, depois, os papéis naturalmente se inverterão. É assim que os vínculos verdadeiros amadurecem.

Há amizades que atravessam o tempo, sobrevivem às distâncias e até aos longos silêncios. Elas dispensam explicações constantes, porque foram edificadas sobre confiança, lealdade e respeito. Não precisam da presença diária para continuar existindo. Carregam uma certeza silenciosa: quando a vida apertar, um estará ao lado do outro.

No fim, compreendemos que a família não é formada apenas pelos laços que herdamos, mas também pelos que escolhemos construir. Existem irmãos que chegam pela biologia. Outros chegam pela vida. Estes não compartilham o mesmo sobrenome, mas dividem alegrias, cicatrizes, medos, conquistas e esperanças. Tornam-se porto seguro quando tudo parece incerto e lembram, com sua presença, que ninguém precisa atravessar a existência sozinho.

Porque a verdadeira amizade não nasce do sangue. Ela nasce da decisão diária de permanecer. E talvez seja justamente essa escolha, renovada todos os dias, que transforme um amigo em um irmão para toda a vida.

*Soraya Medeiros é jornalista.

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