Artigo
Da passarela às ruas: como a moda revela a história de um país?
Autora: Cristina Seixas* –
Já dizia o escritor francês Anatole France (1844-1924): “Se eu pudesse escolher apenas um livro entre as publicações impressas cem anos após a minha morte, sabe por qual optaria? Eu escolheria simplesmente uma revista de moda, na qual eu poderia ver como as mulheres estarão vestidas um século após minha partida. E estas roupas me falariam mais sobre a humanidade futura do que filósofos, romancistas, profetas e intelectuais”.
A discussão sobre a moda como fenômeno sociocultural de expressão de um momento, de uma sociedade ou um fenômeno meramente comercial, são algumas questões que emergem frequentemente nos debates sobre esse campo.
O processo de criação na moda passa por transformações, muitas vezes por influência do contexto cultural, histórico e ambiental, cujos valores e significados se revelam na interpretação de sua realidade. Assim, é possível definir a moda como a expressão do momento. Existem determinadas características de estilo que sobressaem e expressam manifestações culturais, tornando a moda um símbolo de comunicação de massa, cujas formas, cores e texturas “contam” o momento histórico social de um país.
Vejamos por exemplo a moda feminina das décadas de 1940 e 1950 na Europa, mais especificamente na França, onde pode-se notar claramente o discurso de cada uma, inserida em seu contexto. 1950 reflete a reação à rigidez da estrutura do vestuário feminino dos anos 1940 e as grandes limitações à moda parisiense, criada sob forte influência das linhas militares e do vestuário masculino, com poucas cores, sem ornamentações, ombros armados e profusão de bolsos e de botões. As saias encurtaram, devido à economia de tecido, e os looks eram complementados por sapatos abotinados e sandálias com plataforma de cortiça. Era o reflexo do rigor das leis protecionistas, que determinavam até a metragem do tecido a ser utilizada. Os países envolvidos no conflito conviveram com o sentimento de despojamento e de simplicidade.
Com o fim da guerra, mais precisamente em 1947, aconteceu uma grande reviravolta no mundo fashion, quando a Dior apresentou sua primeira coleção de alta costura, a Ligne Corolle – rebatizada de New Look por Carmel Snow, pela editora de moda da revista Harper’s Bazaar – com saias amplas de cintura fina e corpetes estruturados. Os modelos chegavam a gastar vinte metros ou mais de tecido para a roda da saia, a exemplo do modelo Dioríssimo, complementados por sapatos altos de salto “agulha” e enormes chapéus. Era uma nova silhueta, em que a moda expressava feminilidade e elegância e que, em contraponto à fase anterior, exibia o reflorescimento da indústria têxtil e das pequenas empresas de acessórios.
A narrativa fashion é um conjunto de signos que envolve do conceito à construção estética e exibe um discurso implícito de um momento, influenciado, por exemplo, por um contexto social, como o comportamento de consumo, as crises ou novos movimentos sociais, e que se reflete no discurso visual.
Por exemplo, um desfile pós-pandemia pode exibir conforto e liberdade, por meio de formas e de tecidos, com a silhueta mais ampla e a modelagem mais fluida. As formas, os materiais e as cores dos modelos podem expressar e/ou questionar padrões corporais e estéticos, tornando-se o espelho de seu tempo.
Em uma rápida análise da moda em Paris, hoje, nota-se a valorização do corpo, unindo simplicidade visual e respeito à silhueta, com conforto e movimento natural, e os elementos que se destacam são a cintura marcada (uso do peplum), texturas ricas, como o couro, em peças principais do look, e os bordados delicados em substituição às estampas.
Realça o “feito à mão”, com técnicas artesanais, em contraponto ao consumo rápido anterior. A moda busca menos “choque” visual e mais pureza nas formas, definidas por modelagens e tecidos que dão o tom natural ao caminhar. Percebe-se o cansaço aos excessos, com a busca de uma estética mais limpa, mais natural, por meio de looks mais sóbrios e duradouros, contrapondo a prática do descarte. Enfim, a moda valoriza o trabalho artesanal e a origem das peças e sinaliza um retorno ao natural e ao chique.
*Cristina Seixas é escritora, jornalista, tradutora, estilista, mestre em Design pela PUC-Rio e autora de “Rabena Karib: jornada entre e o deserto e o mar”, “Casa Canadá: a questão da cópia e da interpretação na produção de moda na década de 1950” e “Estética da moda, Styling & Produção”
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Quem lidera a sala de aula?
Autora: Le Savoldi* –
Em uma mesma aula, o professor apresenta um conteúdo, percebe quem ficou para trás, acolhe uma dúvida e decide como lidar com um conflito. Essas escolhas mostram que ensinar também exige habilidades de gestão. Liderar a sala de aula é criar condições para que a aprendizagem aconteça, com objetivos claros, escuta e decisões ajustadas às necessidades da turma.
O planejamento é o primeiro instrumento dessa liderança. Ao definir o que os estudantes devem aprender, prever etapas e reservar tempo para verificar a compreensão, o docente dá direção à aula. Uma rotina conhecida ajuda os alunos a saberem o que se espera deles. A observação do que acontece permite mudar a estratégia quando ela não funciona. Gerir, nesse contexto, é acompanhar o processo e ajustar o plano.
A comunicação também determina o clima da sala. Regras construídas com clareza, orientações compreensíveis e espaço para perguntas reduzem ruídos e favorecem a participação. Diante de tensões, ouvir os envolvidos e intervir sem humilhação ensina tanto quanto o conteúdo previsto. Ao oferecer devolutivas específicas sobre o que o estudante já consegue fazer e o que precisa desenvolver, o professor transforma a avaliação em orientação.
Essa liderança cresce quando os alunos assumem responsabilidades compatíveis com sua idade. Organizar uma discussão, apresentar soluções para um problema ou colaborar com um colega são oportunidades de exercitar autonomia e respeito. O professor continua responsável pelas decisões pedagógicas e abre espaço para que outras vozes participem. Para isso, precisa de formação, tempo de planejamento e apoio da equipe escolar; problemas estruturais exigem respostas institucionais.
Desenvolver habilidades de gestão deve fazer parte da formação docente e da rotina coletiva da escola. Planejar em conjunto, analisar o que funcionou, negociar estratégias e rever acordos são passos possíveis. Quando o professor tem condições de liderar com clareza e empatia, a sala de aula se torna um espaço em que mais estudantes encontram lugar para aprender, crescer e descobrir que também são capazes de conduzir os próprios caminhos.
*Le Savoldi é escritora, poeta, professora e pesquisadora na área da educação. Ela é autora de mais de 15 obras, entre elas o lançamento “Guia de Coaching Educacional”
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