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Cuiabá, terra rica em afeto e oportunidades

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­Autora: Cristhiane Brandão*

A minha história se entrelaça à trama de amor que construí por Cuiabá nos últimos 40 anos. Imagine a felicidade em chegar aqui aos 9 anos de Santos (SP), depois de ter passado por várias cidades do sul e sudeste, para finalmente “fincar raízes”. Como tantos outros “paus rodados”, nossa família havia encontrado nesta terra o que mais almejava: oportunidades!

Posso escrever páginas e páginas sobre tudo que aprecio na nossa cidade que completa, neste 8 de abril, mais um ano de vida. Mas o que realmente sinto desejo de fazer, neste momento, é uma longa reverência a esta incrível “senhora” que chega aos 305 anos sóbria, cheia de história e cultura, porém com a mente tão aberta, receptiva e cosmopolita.

Aqui, o calor ultrapassa barreiras climáticas e se estende a um gigante coração de mãe, onde sempre cabe mais um, onde sempre há um “jeitinho” de fazer dar certo, onde nos sentimos acolhidos. Desde a descoberta por Miguel Sutil e fundação por Pascoal Moreira Cabral, lá em 1719, Cuiabá sempre teve essa peculiaridade, fazendo jus à sua localização bem no coração da América do Sul.

Um levantamento feito pela Escola Nacional de Administração Pública (Enap), em parceria com a Endeavor Brasil, que mediu as 101 cidades mais populosas do país, apontou Cuiabá entre as 10 melhores cidades brasileiras para empreender. Além disso, em dezembro de 2023, o IBGE divulgou um estudo que colocou a cidade em colocação no ranking do PIB per capita, apontando o aumento da sua riqueza.

Os números mostram que longevidade e crescimento andam juntos em Cuiabá, uma cidade que se mantém viva e em pleno movimento de expansão. Apesar dos inúmeros desafios cotidianos, é inegável o avanço nos últimos 10 anos em todas as áreas: econômica, política, estrutural, social e cultural, o que gerou reflexo positivo no mundo dos negócios, entre eles, a adesão de muitas empresas à governança.

Independente de ter nascido ou não aqui, é comum ouvirmos a expressão “cuiabano de coração”, porque é exatamente assim que muitos de nós, que viemos de fora, se sentem ao falar da cidade. Morar em Cuiabá é sentir que “faz parte”. Esse sentimento de pertencimento é algo notável entre as famílias empresárias tradicionais que tive a honra de atender e que me ensinaram o valor das próprias raízes na busca pelo sucesso.

Nos congressos e cursos que tenho feito pelo IBGC, tem se tornado cada vez mais raro encontrar membros da família atuando diretamente na gestão da empresa. Hoje, eles preferem estar na posição de conselheiros e/ou acionistas, mas, em Cuiabá, acontece o contrário, as empresas preferem que filhos e netos deem continuidade ao legado de forma executiva. Além disso, elas são reflexo de muita dedicação (até mesmo devoção) ao negócio.

Outra característica instigante em Cuiabá é que diariamente temos acesso a figuras públicas com notório saber, seja em programas de televisão ou de rádio. Pessoas como o jornalista Onofre Ribeiro, que compartilham conosco conhecimento em política, economia, meio ambiente e tantos outros temas complexos, fazendo-os parecer simples. Quanta riqueza!

Somos ainda um berço de grandes artistas, uma terra que transpira musicalidade, arte, artesanato, onde nasceram grandes empresas e instituições como a União Nacional do Etanol do Milho (Enem), com sede em Cuiabá, mas abrangência em todo Brasil e no mundo. Outras organizações da cadeia produtiva do agronegócio vêm trilhando esse mesmo caminho (quem bom!).

Claro que nem tudo são flores neste caldeirão multicultural. Há alguns anos, li um livro que me despertou para a importância de respeitar a cultura cuiabana para além do olhar turístico. Descolonizar o nosso olhar. Para tanto, temos que estar atentos às falas preconceituosas que ligam o povo cuiabano a “vadiagem” ou a “preguiça”.

Hoje, mais do que nunca, é compreensível o hábito de tirar a sesta após o almoço ou até se sentir menos disposto vivendo em condições climáticas inóspitas, como tem sido o calor de Cuiabá que bateu o recorde de cidade mais quente do país (e do mundo) várias vezes no ano passado. O calor realmente afeta a saúde, sobretudo de crianças e idosos.

Quero terminar minha homenagem dizendo que quem julga não tem tempo para amar. Então, que possamos deixar de lado o que nos separa, para construir um futuro juntos, mais um ciclo de prosperidade, desta vez, valorizando o verdadeiro ouro dessa terra, que é a sua natureza exuberante e as pessoas que aqui vivem. Viva Cuiabá! Nós te amamos!

*Cristhiane Brandão, Conselheira de Administração, Consultora em Governança para Empresas Familiares e Coordenadora do Capítulo Brasília/Centro Oeste do IBGC

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Artigos

O Papa Leão XIV e os dilemas da tecnologia

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Autor: Ives Gandra da Silva Martins*

Ciência, ética e fé: a encíclica Magnifica humanitas como um guia para o bem comum

A Encíclica Magnifica humanitas (em português: Magnífica humanidade), primeiro documento papal de Leão XIV, publicada em maio deste ano, deve ser lida não só por nós, católicos, mas por todos aqueles que realmente se interessam pela evolução do gênero humano.

O documento pontifício mostra, em primeiro lugar, que para a Igreja não há incompatibilidade entre a ciência e a religião. O texto faz uma menção direta e profunda à Encíclica Rerum Novarum (“Das Coisas Novas”), de Leão XIII, publicada em 1891, que debateu a grave situação dos trabalhadores gerada pela Revolução Industrial, propondo uma via que rejeitava tanto os excessos do capitalismo quanto as propostas do socialismo. Considero que o primeiro grande documento a apresentar soluções de convivência entre a liberdade econômica e a justiça social foi a referida encíclica e não os livros daqueles autores do século XIX que propugnavam a luta de classes.

As diversas encíclicas escritas a partir da Rerum Novarum revelam como a Igreja tem demonstrado compatibilidade e preocupação não só com o ser humano em sua relação com Deus, mas também com o papel de cada indivíduo na convivência com seus semelhantes.

G. K. Chesterton (1874–1936), escritor inglês e defensor da fé e da tradição católica, dizia que nós não vemos o plano de Deus porque estamos do lado de trás de uma tapeçaria, vendo apenas a cordoalha (o avesso da tapeçaria) que lá existe. Mas Deus está vendo o desenho que fez para cada um de nós, a beleza da tapeçaria que está à frente d’Ele.

O que a Encíclica Magnifica humanitas procura mostrar sintetiza-se em três pontos: os desafios contemporâneos da sociedade; a plena compatibilidade entre a ciência e a religião; e, finalmente — sendo este o aspecto mais relevante —, os dilemas trazidos pela inteligência artificial.

O documento pondera tanto os seus benefícios quanto o risco de sua exploração negativa contra a humanidade, alertando especificamente para o perigo de a tecnologia anular o discernimento moral e desumanizar as relações de trabalho, assim como a Revolução Industrial ameaçou o operariado na época da Rerum Novarum. Mostra, enfim, que devemos aprender a utilizar essa poderosa ferramenta tecnológica para o bem comum, protegendo o gênero humano de seus efeitos nocivos.

Ao traçar esse paralelo histórico, o Sumo Pontífice nos recorda que o progresso técnico, isolado de uma sólida moldura ética, tende a converter o ser humano em mero insumo produtivo. Se no século XIX a máquina a vapor ameaçava subjugar a força física do operário, no alvorecer deste milênio os algoritmos e os sistemas autônomos colocam em xeque a própria singularidade do intelecto e do livre-arbítrio.

A mensagem de Leão XIV, portanto, não se reveste de um teor de oposição à tecnologia; ao contrário, ela nos convoca a resgatar a primazia da pessoa humana sobre a técnica, assegurando que a inteligência artificial sirva como instrumento de emancipação e de justiça distributiva, e nunca como vetor de novas e mais profundas desigualdades sociais.

Desse modo, a leitura desta encíclica transcende o debate estritamente teológico para fixar-se como um autêntico tratado de Direito Natural e de preservação da dignidade humana. Diante de uma realidade cada vez mais fragmentada pelo relativismo e pela velocidade das transformações digitais, o documento papal surge como um guia de lucidez e de esperança.

Tenho a impressão de que é uma encíclica que todos devemos ler, crentes ou não, católicos ou de outras convicções, pois ela apresenta os grandes problemas da atualidade, de toda a humanidade, trazendo sugestões muito interessantes para a convivência pacífica e harmoniosa, inclusive na busca de que o bem triunfe sobre o mal.

Vale, pois, a pena ler esse importante documento, que é a Encíclica Magnifica humanitas, do Papa Leão XIV.

*Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).

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