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105 anos da insulina: a descoberta que mudou a história do diabetes

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Autora: Mariana Ramos*

Há 105 anos, uma das maiores descobertas da história da medicina começou a transformar o destino de milhões de pessoas em todo o mundo. Em 1921, a insulina mudaria para sempre a história do diabetes. A descoberta, liderada pelos pesquisadores canadenses Frederick Banting e Charles Best, com a colaboração de John Macleod e James Collip, representou uma das maiores revoluções da história da ciência. Pela primeira vez, pacientes com diabetes, especialmente aqueles com diabetes tipo 1, passaram a ter uma chance real de viver.

Antes da insulina, o diagnóstico de diabetes era praticamente uma sentença de morte. Crianças e jovens sobreviviam apenas alguns meses após o aparecimento da doença, muitas vezes submetidos a dietas extremamente restritivas na tentativa de prolongar a vida por um curto período. A chegada da insulina mudou completamente esse cenário, permitindo que milhões de pessoas com diabetes passassem a viver mais e melhor, estudassem, trabalhassem, formassem famílias e envelhecessem com qualidade de vida.

Mais de um século depois, a insulina continua sendo um dos pilares do tratamento do diabetes, especialmente para quem vive com diabetes tipo 1 e para muitos pacientes com diabetes tipo 2 em fases mais avançadas da doença.

Ao longo dessas décadas, a evolução foi impressionante. As primeiras insulinas, de origem animal, deram lugar às insulinas humanas produzidas por engenharia genética e, posteriormente, aos modernos análogos de ação rápida, prolongada e ultrarrápida, que proporcionam maior controle da glicemia, menor risco de hipoglicemia e mais qualidade de vida. Paralelamente, tecnologias como bombas de infusão, sensores de glicose e sistemas de monitorização contínua da glicose revolucionaram o acompanhamento da doença, permitindo um tratamento cada vez mais personalizado.

No entanto, apesar de tantos avanços, ainda enfrentamos um grande desafio: o diabetes continua crescendo em todo o mundo. Mudanças no estilo de vida, o envelhecimento da população e o aumento da obesidade e do sedentarismo fazem com que a doença alcance números cada vez mais preocupantes. Estima-se que mais de 800 milhões de pessoas vivam atualmente com diabetes no mundo, muitas delas sem sequer saber que têm a doença.

Embora o diabetes tipo 1 não possa ser prevenido, muitos casos de diabetes tipo 2 podem ser evitados ou adiados com hábitos de vida saudáveis, como alimentação equilibrada, prática regular de atividade física e manutenção do peso adequado.

Esse dado merece atenção porque o diabetes nem sempre apresenta sintomas em suas fases iniciais. Quando não diagnosticado ou tratado adequadamente, pode comprometer diversos órgãos, aumentando o risco de doenças cardiovasculares, insuficiência renal, perda da visão, neuropatias e amputações. Felizmente, boa parte dessas complicações pode ser evitada com diagnóstico precoce, acompanhamento médico regular e tratamento adequado.

O tratamento do diabetes vai muito além dos medicamentos. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, sono de qualidade, controle do peso e acompanhamento multiprofissional fazem parte do cuidado e ajudam a manter a glicemia controlada, prevenir complicações e preservar a saúde a longo prazo.

Também é necessário combater alguns mitos que ainda cercam o uso da insulina. Muitos pacientes acreditam que iniciar esse tratamento significa que a doença “piorou” ou que houve um fracasso no tratamento anterior. Na realidade, a indicação da insulina faz parte da evolução natural de muitos casos de diabetes e representa uma estratégia para proteger o organismo das consequências da hiperglicemia prolongada. Quando indicada corretamente, ela não é motivo de medo, mas sim uma importante aliada no controle da doença e na preservação da saúde.

Celebrar os 105 anos da descoberta da insulina é, acima de tudo, reconhecer o valor da ciência, da pesquisa e da inovação. É lembrar que grandes avanços médicos são capazes de transformar vidas e que investir em conhecimento continua sendo essencial para enfrentar os desafios da saúde pública.

Ao mesmo tempo, essa data reforça uma mensagem importante: o diabetes ainda não tem cura, mas pode ser muito bem controlado. Com diagnóstico precoce, tratamento individualizado, acompanhamento especializado e o compromisso do próprio paciente com seu autocuidado, é possível viver com qualidade, prevenir complicações e manter uma vida plenamente ativa.

A insulina representa muito mais do que um medicamento. Ela simboliza a esperança que a ciência é capaz de oferecer quando conhecimento, pesquisa e cuidado caminham juntos. Mais de um século após sua descoberta, continua salvando vidas todos os dias e permanece como um dos maiores avanços da medicina moderna.

*Dra. Mariana Ramos é endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá-MT.

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Artigos

O adversário que mora em nós

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Autora: Soraya Medeiros*

É confortável acreditar que nossos maiores inimigos estão do lado de fora. São pessoas que nos decepcionaram, colegas que nos provocaram, palavras que nos feriram ou injustiças que atravessaram nossa história. Procurar culpados costuma ser mais fácil do que admitir uma verdade desconfortável: algumas das batalhas mais importantes da vida acontecem dentro de nós.

O combate mais persistente não anuncia sua chegada. Ele se manifesta na repetição de pensamentos que nos fazem mal, na irritação alimentada como se fosse virtude, no ressentimento que insiste em permanecer e nas desculpas que usamos para adiar mudanças que sabemos necessárias.

Sob uma perspectiva espiritualista, não chegamos à vida como páginas em branco. Trazemos experiências, tendências e aprendizados ainda inacabados. Cada existência representa uma oportunidade de crescimento e de transformação interior.

Talvez por isso certas situações pareçam atingir sempre as mesmas feridas. Mudam as pessoas, os ambientes e as circunstâncias, mas algumas reações permanecem. Basta uma crítica, um comentário ou um gesto mal interpretado para despertar emoções antigas que acreditávamos superadas.

O estímulo pode vir de fora, mas a resposta nasce dentro. O outro até aperta o botão, porém o botão já existia.

O psiquiatra Viktor Frankl ensinava que entre o estímulo e a resposta existe um espaço, e nesse espaço reside a liberdade de escolher como agir. Essa escolha define muito mais o nosso futuro do que as circunstâncias que enfrentamos.

Na mesma direção, Carl Gustav Jung observava que quem olha para fora sonha; quem olha para dentro desperta. Enquanto buscamos apenas culpados, continuamos prisioneiros dos mesmos padrões. O verdadeiro despertar começa quando aceitamos conhecer aquilo que carregamos em nosso íntimo.

Aquilo que cultivamos cresce. A vingança mantém vivo o que desejávamos esquecer. A culpa, quando não produz reparação, paralisa. O orgulho transforma um pedido de desculpas em derrota. E o ressentimento permite que pessoas que já partiram continuem governando nossas emoções.

Olhar para dentro exige coragem. Quantas vezes chamamos de personalidade forte aquilo que é apenas dificuldade de reconhecer limites? Quantas vezes usamos a sinceridade como justificativa para ferir? A transformação não nasce da autopunição, mas da lucidez. Começa quando reconhecemos nossos limites, assumimos responsabilidade e decidimos interromper a repetição.

A irritação perde força quando deixamos de obedecê-la. O egoísmo diminui quando aprendemos a enxergar além de nós mesmos. O orgulho enfraquece quando conseguimos dizer “eu errei”. E o ressentimento desaparece quando deixamos de alimentá-lo diariamente.

Existem vitórias silenciosas que ninguém aplaude. Elas acontecem quando somos provocados e escolhemos o equilíbrio; quando poderíamos guardar rancor e preferimos o perdão; quando reconhecemos um erro sem procurar alguém para dividir a culpa.

A maior evolução talvez aconteça quando a vida nos coloca diante da velha oportunidade de repetir o mesmo comportamento e, pela primeira vez, escolhemos diferente.

O maior adversário raramente está no mundo ao nosso redor. Muitas vezes, ele habita nossos impulsos, nossos medos e nossos velhos hábitos. E é justamente nesse território invisível que começa a mais importante de todas as conquistas: vencer a si mesmo.

*Soraya Medeiros é jornalista.

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