BUSCA DE SOLUÇÕES PARA O PANTANAL
Comissão reúne especialistas em busca de solução contra os incêndios e destruição no Pantanal
A Comissão Temporária Externa do Pantanal inicia nesta quarta-feira, 30, uma série de debates com técnicos e especialistas visando buscar uma solução contra os incêndios florestais na região. Focos de fogo castigam duramente o santuário ecológico desde meados do ano, causando destruição de plantas e animais e comprometendo seriamente a vida no bioma.
De acordo com plano de trabalho, participarão da audiência pública remota representantes do Ibama/Prevfogo; da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR). Um dos convidados é o presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim.
O presidente da Comissão do Pantanal, Senador Wellington Antonio Fagundes, do Partido Liberal (PL-MT), informou que também foram convidadas entidades representantes da sociedade civil. São elas: Centro de Pesquisa do Pantanal (CPP); Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato); e, Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul).
“Temos hoje uma situação de emergência no Pantanal. Muito triste, dolorosa para todos nós, que aprendemos a admirar as belezas desse patrimônio natural da humanidade. E o que queremos é preservá-lo, dentro de suas características. Para isso, precisamos avançar, especialmente no tocante a uma legislação que possa contemplar todos os seus personagens. Daí a importância dessas audiências públicas”, frisou Fagundes.
Segundo o plano de trabalho aprovado, serão feitas pesquisas, análises de dados e avaliações por entidades públicas e privadas; a identificação de atores sociais e agentes econômicos que atuam ou sofreram danos com os incêndios; audiências públicas com especialistas e agentes envolvidos ou afetados pelos incêndios e mais visitas às regiões atingidas pelas queimadas.
Além do Senador Wellington Fagundes, presidente, a Comissão Temporaria Externa do Pantanal é formada pelos senadores Nelsinho Trad (PSD-MS), Simone Tebet (MDB-MS) e Soraya Tronicke (PSL-MS), Jayme Campos (DEM-MT), Carlos Favaro (PSD-MT), Espiridião Amim (PP-SC) e Fabiano Contarato (Rede-ES).
Além da audiência pública desta quarta-feira, a Comissão Temporária Externa do Pantanal deverá realizar ainda uma diligência ao Pantanal de Mato Grosso do Sul no próximo dia 3. Nessa inspeção, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ja confirmou sua presença. Os senadores e autoridades deverão visitar a região de Corumbá, município que detém o recorde de focos de incêndios florestais.
Pouco alívio
Wellington Fagundes ressaltou que a chuva do último fim de semana aliviou um pouco o calor e o tempo seco do Pantanal, mas não o suficiente para frear o avanço do fogo. Setembro bateu a marca de mês com maior número de focos de incêndio do bioma, atingindo 6.048 uma semana antes de adentrar outubro. Anteriormente o mês com mais incêndios era agosto de 2005, com 5.993, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que iniciou o monitoramento da região em 1998.
Este ano já foram registrados 16.201, ante 12.536 registrados em 2005. Se compararmos com o ano passado, quando houve 10.025, o fogo já aumentou 62%. A área queimada também soma grandes proporções.
Os dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Lasa-UFRJ), revelam que já são 3,1 milhões de hectares em todo o bioma. Desse total, 1,9 milhão em Mato Grosso e 1,2 milhão em Mato Grosso do Sul, equivalente a 22% de todo o território.
Destaques
Ação Judicial de R$ 110 milhões contra Energia redefine parâmetros de litígio climático no Brasil
O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma detalhada ação civil pública contra a Energisa Mato Grosso – Distribuidora de Energia S.A., com o objetivo de responsabilizar juridicamente a concessionária pelo incêndio de grandes proporções que devastou a Estação Ecológica Serra das Araras. O órgão ministerial requer a condenação da empresa ao pagamento de indenizações que perfazem o montante expressivo de R$ 109,8 milhões, além do cumprimento imediato de obrigações de fazer. A petição inicial fundamenta-se na responsabilidade civil objetiva por danos ambientais, na qual a degradação sistêmica do ecossistema impõe o dever de reparação integral, independentemente da demonstração de dolo corporativo.
O grave desastre socioambiental ocorreu em agosto de 2024, período caracterizado por severa estiagem e condições climáticas propícias para o alastramento célere de focos de calor na região Centro-Oeste. A deflagração das chamas coincidiu com o ápice da estação seca, momento em que a vulnerabilidade dos biomas locais exige vigilância redobrada e manutenção preventiva rigorosa das infraestruturas circundantes. A documentação técnica anexada aos autos demonstra que o impacto inicial coincidiu com o agravamento da crise climática regional, potencializando os efeitos destrutivos do fogo sobre a cobertura vegetal nativa e sobre a fauna silvestre protegida.
O cenário geográfico da devastação ambiental concentra-se na Estação Ecológica Serra das Araras, uma unidade de conservação de proteção integral situada no Estado de Mato Grosso, além de abranger diversas propriedades rurais vizinhas afetadas. A área protegida constitui um relevante refúgio biológico e zona de transição ecológica, cuja integridade sofreu severo comprometimento devido à dispersão descontrolada do incêndio florestal. A delimitação territorial do dano técnico estende-se por uma região de difícil acesso, fator que impôs obstáculos adicionais às operações de combate executadas pelas brigadas de incêndio e pelas Forças de Segurança Pública.

Aproximadamente 4.500 hectares de vegetação nativa foram completamente consumidos pelas chamas, resultando em uma perda imensurável de biodiversidade e na destruição de habitats de espécies endêmicas e ameaçadas de extinção. Além da supressão direta da flora, o evento provocou a emissão massiva de gases de efeito estufa na atmosfera, comprometendo significativamente os sumidouros naturais de carbono da região.
O dano ecológico mensurado pela perícia técnica reflete-se na degradação profunda das funções ecossistêmicas locais, cujos efeitos deletérios na regulação hidrológica e na estabilidade do solo perdurarão por décadas.
Laudos periciais detalhados, elaborados por especialistas da Polícia Federal, identificaram de forma inequívoca que um dos pontos primários de ignição do incêndio florestal localizava-se exatamente na faixa de servidão da rede de média tensão. A infraestrutura elétrica sob concessão e responsabilidade técnica direta da Energisa Mato Grosso funcionou como o vetor inicial do sinistro, após a ocorrência de falhas operacionais específicas na linha de distribuição. A investigação oficial constatou que o contato direto da vegetação sem manutenção com os condutores energizados propiciou as faíscas necessárias para o início do desastre.
A causa determinante da tragédia ambiental residiu na omissão crônica e na negligência operacional da concessionária no tocante à manutenção preventiva de sua rede de distribuição elétrica. O exame minucioso das atividades da empresa revelou que, de 51 ordens de serviço emitidas para a localidade sul da Estação Ecológica, apenas uma referia-se a ações estritamente preventivas.
O descumprimento dos deveres legais de poda regular, limpeza adequada da faixa de domínio e criação de aceiros protetivos ao redor dos postes de madeira e concreto viabilizou o cenário de alto risco.

O Ministério Público Federal estruturou a demanda judicial com base em relatórios técnicos de auditoria, depoimentos de brigadistas e análises de imagens de satélite que mapearam a progressão cronológica do fogo. Sob a coordenação do Procurador da República, Gabriel Infante Magalhães Martins, o órgão coligiu evidências da conduta negligente da distribuidora, demonstrando o nexo de causalidade entre a ausência de fiscalização da linha e o dano consolidado. A iniciativa ministerial visa não apenas a punição pecuniária, mas o estabelecimento de um precedente pedagógico para o setor de utilidade pública.
Para mitigar a iminência de novos episódios correlatos, a peça jurídica exige que a Justiça Federal determine à Energisa a apresentação e execução de um plano emergencial estruturado no prazo peremptório de 30 dias. A medida liminar pleiteada obriga a implementação de um cronograma contínuo de manejo da vegetação na faixa de servidão que intercepta a unidade de conservação pelos próximos cinco anos.
Os relatórios de conformidade técnica deverão ser submetidos anualmente ao escrutínio do Poder Judiciário, assegurando que a operação da infraestrutura não represente ameaça constante à segurança ambiental.
A vultosa indenização financeira de R$ 109,8 milhões foi meticulosamente segmentada em três categorias distintas de responsabilização civil, de modo a garantir o princípio da reparação integral do dano. O MPF estipulou R$ 53,6 milhões a título de danos materiais decorrentes da perda real da cobertura florestal e R$ 26,8 milhões por danos morais difusos sofridos pela coletividade. Complementarmente, foram fixados R$ 29,4 milhões destinados especificamente à compensação dos danos climáticos, mensurados a partir do impacto volumétrico de carbono liberado na atmosfera durante a queima.

O plano de destinação dos recursos financeiros assegura que as verbas arrecadadas revertam-se diretamente na recomposição do patrimônio público e no fomento à pesquisa científica regional. O modelo de partilha estabelece o repasse de 40% do montante ao ICMBio e 20% ao Ibama para o fortalecimento da fiscalização e gestão de unidades de conservação.
Outros 20% subsidiarão o Corpo de Bombeiros Militar no combate a incêndios florestais, enquanto os 20% remanescentes financiarão projetos acadêmicos da UFMT e da Unemat dedicados ao estudo dos impactos do fogo nos Biomas Cerrado e Pantanal.
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