FECHAMENTO DO LIXÃO
Catadores de recicláveis estão apreensivos sobre o fim de suas fontes de renda
Quando se fala de catadores nos referimos às pessoas que cuidam do ambiente da nossa sociedade. Eles desempenham um papel fundamental na gestão de resíduos sólidos, atuando, em sua maioria, nas atividades da coleta seletiva, triagem, processamento e comercialização destes materiais recicláveis.
Dados da pesquisa feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) apontam que, no Brasil, o número dessa classe de trabalhadores varia entre 400 e 600 mil. Invisíveis aos olhos da sociedade e diretamente envolvidos com o processo de reciclagem, os catadores vêm lutando para obter reconhecimento e direitos na sociedade brasileira. O “lixo” possui grande valor para aqueles que tiram dele seu sustento.
De sol a sol buscam pelas ruas latas e lixões que contêm materiais de possível aproveitamento, reformados ou reciclados industrialmente. Além disso, coletam, separam, adicionam e transportam, tornando o que antes era visto como lixo pronto para ser descartado, em mercadoria com valor de uso e de troca. Todavia, esse trabalho é cansativo, e como se dá na rua, expõe os catadores à diversos riscos para a saúde, os quais derivam do contato com matérias contaminadas e do peso para puxar as carroças.
Este grupo é composto por sua maioria de adultos, com familiares dependentes financeiros e baixo nível educacional, e por uma baixa porcentagem de idosos, que visam complementar sua aposentadoria.
O Grupo de Atuação Estratégica na Defesa dos Catadores de Recicláveis (Gaedic/Catadores) pedirá reunião com o Prefeito de Várzea Grande, Kalil Baracat, e a equipe responsável pela Assistência Social e Serviços Urbanos do Município para conhecer como será feito o processo de inclusão dos catadores de recicláveis e a coleta seletiva na cidade, a partir do fechamento do lixão e da implantação do aterro sanitário no local.
O prazo legal para que o Município de Várzea Grande encerre as atividades no aterro controlado é agosto de 2022, de acordo com a Lei 14.026/2020, que estabelece o novo marco legal do saneamento básico no Brasil. Diante do prazo, a empresa Welfare Ambiental, que busca o licenciamento para o empreendimento, apresentou em audiência pública o Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), no auditório da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema).
A audiência foi virtual e dela participaram mais de 70 catadores que trabalham no lixão. Eles estão apreensivos sobre o fim do trabalho com o qual ganham dinheiro e sobrevivem e assistiram ao evento para acompanhar o processo. Os trabalhadores se reuniram no auditório da sede administrativa da Defensoria Pública de Mato Grosso, após solicitarem auxílio da defensora pública que atua em Várzea Grande, Cleide Nascimento.
“Pedimos ajuda porque existe uma movimentação para encerrar os trabalhos no lixão e se o material parar de ser levado para lá, perderemos o nosso ganha-pão da noite para o dia. E ninguém nos diz nada, um empurra a responsabilidade sobre como continuaremos a atuar para o outro e precisamos saber o que está acontecendo“, pontuou a presidente da Associação Mato Grosso Sustentável (Asmats), Maria Aparecida do Nascimento, a Cidinha.
Após a apresentação do EIA/RIMA, a defensora Cleide Nascimento apresentou a preocupação das mais de 200 famílias de catadores que trabalham no lixão e que querem saber como serão incluídas, pela empresa, no processo.
“Gostaria que a empresa explicasse como fará a inclusão dos catadores, já que essa informação não está no EIA, nem no RIMA, mas num material complementar e nele, não fica claro como será feito“, questionou a defensora.
Responsabilidade
O representante da Welfare Ambiental, Fernando Abrahão, explicou que a contribuição deles será voluntária, já que a atribuição da inclusão dos catadores, não seria responsabilidade da empresa, mas do Poder Público e da sociedade civil organizada, segundo a lei.
“Nos locais onde nós prestamos serviço, buscamos alternativa para a inclusão social e nos lugares onde contribuímos para o desenvolvimento e para que a municipalidade buscasse alternativa para os catadores, chegamos a elevar a renda dessas pessoas de R$ 400 para mais de R$ 4 mil por mês. Mas, isso não depende apenas de nós. Precisamos que a atuação seja conjunta“, disse.
Para a catadora Dulcineia Nascimento, que participou da audiência do auditório, a empresa não apresentou solução para as angústias dos trabalhadores, já que deixou claro que o trabalho dela será o de viabilizar o aterro sanitário.
“O trabalho deles será o de enterrar o lixo, eles deixaram isso bem claro. Agora, precisamos que a Prefeitura atue para que o material reciclável seja separado do que vai para o aterro, do contrário, a Prefeitura vai pagar para enterrar dinheiro junto com o lixo e vai nos deixar desempregados“, avaliou a catadora.
Após Cleide Nascimento pedir mais esclarecimento, o representante da Welfare afirmou que a coleta seletiva precisará ser incluída no município pela Prefeitura Municipal, pois a empresa fará o trabalho de ponta, atuando apenas com o rejeito. E que ela não atuará com a coleta, nem com o transporte do material.
“O município precisa da coleta seletiva e um apoio, tanto do Poder Público, como da sociedade, para que a população faça a segregação prévia do material que os catadores devem receber em lugar adequado, licenciado, com equipamento e segurança de trabalho. Nós, não temos responsabilidade com essa fase. Mas, voluntariamente, vamos disponibilizar um galpão, com estrutura para ser uma unidade de triagem de resíduos sólidos, após a Prefeitura indicar um terreno“.
Necessidade
Após a explicação da empresa, a defensora afirmou que todas as fases do processo devem funcionar coordenadas.
“Nossa preocupação é que, antes dos contratos serem firmados com as empresas que vão gerir o aterro, a responsabilidade social da empresa seja assegurada, de forma a garantir que ali, será implantada a coleta seletiva, com a inclusão social. Para nós essa preocupação deve ser uma condicionante. Visitei alguns aterros e percebi que vários resíduos que não deveriam estar no aterro, estavam. E esses resíduos poderiam ter gerado renda para uma população vulnerável, mas o município não tinha coleta seletiva, nem educação ambiental“, afirmou Cleide.
Histórico
A coordenadora do Gaedic, Carolina Renée, lembrou que um dos motivos de preocupação da Defensoria é que, as prefeituras que estão implantando aterros nos vários municípios de Mato Grosso, não estão fazendo o trabalho de inclusão dos trabalhadores.
“O que buscamos é o reconhecimento de um serviço público que eles já prestam. Os catadores são verdadeiros agentes ambientais. Eles são responsáveis por mais de 90% dos materiais que são reciclados. Estamos acompanhando essa situação no Estado inteiro e infelizmente os municípios não estão fazendo a inclusão sócio-produtiva dos catadores e o que pedimos é que eles sejam ouvidos e considerados“.
Para Carolina, a participação dos trabalhadores na audiência foi motivo de emoção, pois foi iniciativa deles buscar ajuda na Defensoria. Ela avalia isso como reflexo do trabalho desenvolvido com eles e do reconhecimento deles, como agentes ambientais necessários. A defensora ainda lembrou que a partir de agora, o Gaedic começará a gestão para que a Prefeitura cumpra com a sua atribuição legal, por meio de medidas administrativas.
“Caso o município não cumpra a lei, vamos buscar a via judicial“, informou.
Ao final das apresentações, os catadores apresentaram suas dúvidas e participaram do evento com questionamentos. Além disso, eles puderam enviar perguntas e depoimentos que foram lidos ao final. O representante da empresa ainda se comprometeu a atuar em parceria com a Defensoria para auxiliar na implantação da coleta seletiva em Várzea Grande e convidou um representante de cada associação para conhecer a experiência de coleta seletiva em Campo Grande, onde a empresa auxiliou a prefeitura no processo.
O vídeo da audiência está disponível no YouTube e também, logo abaixo.
Destaques
A consolidação conservadora na 29ª Marcha para Jesus em Cuiabá
O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República pelo Partido Liberal (PL), confirmou formalmente sua participação na 29ª edição da Marcha para Jesus de Cuiabá, transformando o tradicional evento religioso em um estratégico palco de articulação política. A presença do parlamentar fluminense que retorna a Mato Grosso menos de dois meses após cumprir compromissos em feiras do agronegócio no interior acentua o caráter ideológico da manifestação e consolida a aproximação das lideranças da direita com o eleitorado evangélico. O acontecimento estampa a fusão de discursos morais e plataformas eleitorais, evidenciando a relevância do voto religioso no cenário contemporâneo.
A expressiva mobilização popular ocorrerá no dia 20 de junho de 2026, iniciando-se no período vespertino e estendendo-se até o encerramento das pregações e dos shows musicais previstos para a noite. A escolha estratégica da data insere-se no calendário de mobilizações nacionais do segmento cristão e coincide com o período de intensas costuras de bastidores que antecedem as convenções partidárias para o pleito geral. A definição do cronograma atende tanto ao calendário litúrgico das igrejas envolvidas quanto ao planejamento logístico das comitivas políticas que se deslocarão de Brasília e de outras capitais brasileiras.
A complexa engrenagem organizatória do ato público é capitaneada pelo Conselho de Ministros Evangélicos Cristãos de Mato Grosso (Comec), entidade jurídica que congrega dezenas de denominações de matriz protestante operantes no estado. Sob a liderança executiva do Pastor Senna, presidente do conselho, a instituição coordenou a logística, os alvarás municipais e a contratação de atrações musicais de renome nacional. O grupo religioso divide o protagonismo técnico com a liderança do apóstolo Estevam Hernandes, fundador internacional do movimento e presidente da Igreja Renascer em Cristo, que supervisionará as atividades doutrinárias.

A principal motivação subjacente à vinda da liderança bolsonarista a Cuiabá repousa na necessidade imperiosa de consolidar palanques regionais e estreitar laços com uma das bases eleitorais mais fiéis ao espectro conservador. Diante das eleições que se avizinham, o Partido Liberal busca demonstrar força política, coesão ideológica e capilaridade social no Centro-Oeste, região considerada estratégica devido à pujança do Agronegócio.
Para os organizadores eclesiásticos, por sua vez, a presença de autoridades federais confere prestígio institucional ao evento, amplifica a visibilidade das pautas confessionais e atrai maior atenção dos meios de comunicação de massa.
O trajeto geográfico da manifestação terá início na histórica Orla do Porto, espaço público situado às margens do Rio Cuiabá que servirá como ponto de concentração para os trios elétricos e para a multidão de fiéis. Desse local histórico, a caminhada percorrerá importantes avenidas da capital mato-grossense até atingir o seu destino final, estabelecido no amplo estacionamento da Arena Pantanal, complexo esportivo multiuso edificado para o Mundial de Futebol.
A escolha desse itinerário visa garantir a segurança dos pedestres, minimizar os impactos no tráfego urbano e oferecer uma infraestrutura adequada para o acolhimento de milhares de caravanas vindas do interior.
As estimativas oficiais dos órgãos de segurança pública e da própria coordenação do Comec apontam para uma expectativa de público superior a 50 mil participantes ao longo de todo o percurso programado. Essa impressionante massa humana será composta por fiéis de diferentes estratos socioeconômicos, pastores de variadas agremiações locais, além de uma robusta comitiva de prefeitos, deputados e vereadores da Baixada Cuiabana.

O volume projetado de cidadãos confirma o evento como a maior concentração pública de caráter religioso no estado, justificando o interesse de agentes políticos em associar suas imagens ao movimento.
O financiamento e o suporte operacional da estrutura festiva envolvem recursos privados decorrentes de doações voluntárias de fiéis, patrocínios de empresários do comércio local e o apoio logístico institucional de órgãos públicos. Por ser reconhecida por Lei Municipal e Estadual como patrimônio cultural imaterial, a Marcha para Jesus conta com a governança da Polícia Militar, do Corpo de Bombeiros e dos Agentes de Trânsito para a garantia da ordem.
Além disso, as próprias igrejas evangélicas investiram vultosos aportes para assegurar a contratação de sistemas de som de alta potência e a vinda de artistas renomados da música gospel nacional.
A realização da marcha materializar-se-á por meio de uma caminhada pacífica ritmada por cânticos e orações, intercalada por pronunciamentos de líderes eclesiásticos em cima de trios elétricos de grande porte. No ponto culminante do trajeto, no estacionamento do estádio, o público assistirá a exibições musicais da cantora Juliany Souza, do tradicional grupo Renascer Praise e de diversos artistas gospel de expressão regional. O ápice institucional ocorrerá durante a proclamação das bênçãos oficiais à nação, momento no qual o senador Flávio Bolsonaro e o apóstolo Estevam Hernandes partilharão o microfone para discursar aos milhares de presentes.
Os desdobramentos imediatos desse megaevento estendem-se muito além do encerramento das atividades espirituais, projetando reflexos diretos na organização das forças políticas que disputarão os cargos majoritários e proporcionais no estado. Espera-se que a demonstração de força e unidade da direita evangélica balize o tom das futuras campanhas eleitorais e acelere a formação de Coligações Partidárias em Mato Grosso.
O alinhamento explícito demonstrado no palco servirá como um termômetro preciso para medir o grau de influência que os discursos baseados em valores familiares e pautas conservadoras exercerão sobre os eleitores da capital.
Diante do exposto, o panorama político que emerge desse encontro religioso sinaliza uma consolidação irreversível da intersecção entre discursos de fé e estratégias partidárias na dinâmica democrática do país. Especialistas e analistas de cenários eleitorais apontam que a capital mato-grossense reafirma, com esse ato, sua posição como um dos principais bastiões do conservadorismo nacional.
A 29ª Marcha para Jesus cumpre, portanto, um duplo papel na contemporaneidade: renova os votos espirituais de uma comunidade vibrante e, simultaneamente, desenha os contornos ideológicos que guiarão os debates políticos nos próximos meses.

Detalhes de Bastidores: Declarações Oficiais
“Será um grande prazer estar em Cuiabá celebrando o nome do Senhor em um dia tão especial. Estamos preparando um momento de muita fé, comunhão e adoração. Esperamos todos vocês para esta grande festa cristã”, ressaltou o apóstolo Estevam Hernandes.
“Depois de 29 edições, teremos a honra de receber em Cuiabá o apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Marcha Para Jesus, um homem que faz parte da história desse movimento em todo o mundo. E também teremos a presença do senador Flávio Bolsonaro, somando-se a milhares de cristãos que estarão reunidos para declarar sua fé e buscar a bênção de Deus para nossas famílias e para a nossa nação”, afirmou o Pastor Senna, presidente do Comec.
“Quero fazer um convite especial para todos. No dia 20 de junho estarei em Cuiabá participando da Marcha Para Jesus e espero encontrar milhares de pessoas celebrando esse momento tão importante de fé. Vejo vocês lá”, declarou o senador Flávio Bolsonaro ao confirmar sua vinda ao Estado.
-
Artigos3 dias atrásAntes da mina, vem a ciência: como um geólogo encontra ouro?
-
Política3 dias atrásA complexa engenharia de alianças entre “PL e MDB” frente ao conservadorismo regional
-
Política5 dias atrásEx-secretário de Educação coloca Abilinho em rota de colisão no “passeio ciclístico”
-
Artigos7 dias atrásA IGREJA, MARX E A JORNADA 6 X 1
-
Política3 dias atrásDéjàvu de 1998 na disputa eleitoral de 2026? Reviravolta na Câmara de Cuiabá
-
Artigos5 dias atrásGestão da Emoção: despertando o gigante adormecido
-
Política4 dias atrásComo a nova configuração partidária redefine a corrida para o Senado em Mato Grosso
-
Artigos4 dias atrásNão sei você…






“
“
“