LUTA PELA PRESERVAÇÃO
Audiência Pública reuniu pesquisadores, ambientalistas e povos tradicionais para debater PEC que proíbe novas UCs em MT
A importância das unidades de conservação (UC) para regular o clima e a necessidade de cuidar das UCs estaduais de Mato Grosso foram debatidas na Audiência Pública realizada pelo deputado estadual Lúdio Cabral (PT) na Assembleia Legislativa, para discutir a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 12/22, que proíbe a criação de novas UCs em Mato Grosso. A PEC foi aprovada em 1ª votação e ainda vai passar pela 2ª votação.
A proposta do governador condiciona a criação de novas unidades à existência de orçamento para indenizar os proprietários das áreas e à regularização de 80% da área das UCs já existentes, além de aumentar para 10 anos o prazo para implementação das unidades já criadas. O debate realizado por Lúdio no Dia Mundial do Meio Ambiente, na segunda-feira (5), reuniu representantes do Ministério Público, ambientalistas, pesquisadores, indígenas, quilombolas, ribeirinhos e moradores de comunidades tradicionais.
A pesquisadora Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), alertou que já estamos convivendo com consequências da crise climática.
“Em 40 anos, a temperatura em Mato Grosso aumentou 3,1°C em média nos meses de agosto e setembro. Se comparamos somente o horário das 14h, o aumento de temperatura é de 7°C. O problema não está só no futuro. Já tem gente morrendo. Nascentes estão secando. E não é só parar de desmatar; vamos ter que recuperar uma parte do que já foi destruído“, disse.
A cientista explicou a importância das UCs para regular o clima.
“Os parques não são só para lazer. Árvore é fábrica de chuva. A quantidade de vapor d’água é extremamente importante para o controle do clima. Quando as árvores estão evapotranspirando, elas ‘roubam’ energia do ambiente em forma de calor, e por isso é mais fresco em áreas de floresta. Nós costumamos pensar que é por causa da sombra. Ao desmatar, estamos esquentando a superfície da Terra“, concluiu.
Biviany Rojas, do Instituto Socioambiental (ISA), destacou o papel das UCs para preservação ambiental.
“Apesar de todos os problemas na implementação das UCs, elas são os instrumentos mais eficientes para conter o desmatamento, depois das terras indígenas. Por que vamos abrir mão do melhor instrumento fundiário que temos para conter o desmatamento em Mato Grosso? Não tem sentido em termos de emergência climática, de prioridade social, ecológica e humana proibir novas unidades de conservação. Estamos numa corrida contra o tempo. Temos que sair da defensiva e partir para a ofensiva, criando UCs via Legislativo“, afirmou.
“A luta pela preservação dos nossos rios e da Mãe Terra garante nossa preservação como humanos, garante nosso futuro. A gente só existe porque a Terra deixa a gente viver. Ela dá a vida. E por isso que a gente chama de Mãe Terra. Essa palavra é do mestre espiritual Ailton Krenak. A gente quer floresta em pé, água limpa, e ambiente bom. Temos que lutar por isso“, disse a representante da Federação dos Povos Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt), Maria Anarrory Yudja.
Abandono das UCs estaduais
O secretário-executivo do Fórum Popular Socioambiental de Mato Grosso (Formad), Herman Oliveira, listou a situação das UCs de Mato Grosso.
“Das 47 unidades de conservação estaduais, apenas 12 têm conselho gestor e 14 têm plano de manejo e, se fizer um cruzamento, só cinco têm plano de manejo e conselho gestor. E temos dúvidas de que essas cinco estejam funcionando em sua integralidade. Nem de longe a regularização fundiária é o principal problema das UCs. Os maiores problemas são desmatamento, incêndio, grilagem, garimpo, contaminação da água, pesca ilegal, caça ilegal“, disse.
“A comissão do zoneamento indica áreas que devem se tornar UCs, mas o Estado proíbe a criação de UCs por 10 anos. Como vai funcionar isso? Unidade de conservação não é um espaço vazio, é espaço de produção de água e preservação da vida, inclusive da vida humana. A água que a gente consome na agricultura e nos centros urbanos é produzida. Quando uma área é desmatada, a água deixa de se infiltrar no lençol freático“, explicou o analista ambiental do Observatório Socioambiental de Mato Grosso (Observa), Rafael Nunes.
O deputado Lúdio Cabral afirmou que vai trabalhar pela rejeição da PEC, pela retirada ou arquivamento.
“Depois de superar essa etapa, vamos passar para a etapa seguinte, que é propor novas unidades de conservação, algumas inclusive previstas no Zoneamento Socioeconômico e Ecológico. Além disso, cobrar o governo de Mato Grosso para cuidar das unidades já existentes. Temos 47 UCs estaduais, e a maioria está abandonada, sem servidores, sem conselho gestor, sem plano de manejo. Essas unidades precisam funcionar plenamente, e essa é a grande urgência“, disse.
PEC é inconstitucional
O promotor de Justiça Marcelo Vacchiano destacou a inconstitucionalidade do projeto do governador.
“Essa PEC tem alguns vícios. Não entendo o porquê da PEC. O gestor tem discricionariedade para criar unidade de conservação e, se ele não quiser, não cria. Além disso, ele extrapola ao inviabilizar que municípios criem UCs. Esperamos que a Assembleia ouça a ciência e os juristas na votação desse projeto“, disse, sinalizando com a possibilidade de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI).
A consultora jurídica do Observa, Edilene Fernandes, reforçou que a PEC contraria a Constituição Federal.
“Ela ultrapassa a competência do Estado para legislar, pois retira das prefeituras e do Legislativo a possibilidade de criar UCs. Nem todas as unidades dependem de indenização, mas o governo quer usar a mesma régua para todas“, disse.
“Se as UCs estaduais estão tão abandonadas, por que o governador pede a estadualização do Parque Nacional de Chapada dos Guimarães, que já tem plano de manejo estruturado, trilhas de visitação? O Mirante é uma área de proteção estadual e está completamente abandonado“, completou.
Os participantes da audiência fizeram ainda homenagens à professora Michèle Sato, referência em Educação Ambiental em Mato Grosso, que faleceu no dia 16 de maio; e ao indigenista Bruno Pereira e ao jornalista britânico Dom Phillips, assassinados em 5 de junho do ano passado, ao investigar crimes ambientais na Amazônia.
Destaques
“CPI da Saúde” em Mato Grosso enfrenta obstáculos e revela cenário de tensão institucional
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Saúde da Assembleia Legislativa de Mato Grosso voltou ao centro das atenções após uma série de acontecimentos que ampliaram a complexidade das investigações. O presidente da comissão, deputado Wilson Santos (PSD), destacou que os trabalhos enfrentam resistência política, sigilos judiciais, ataques cibernéticos e até a morte de um servidor, compondo um quadro que exige maior vigilância.
A CPI é presidida por Wilson Santos e conta com parlamentares da Assembleia Legislativa Mato-grosense. A investigação tem como alvo a Secretaria de Estado de Saúde (SES), seus contratos, fornecedores e servidores. Além disso, órgãos como a Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor), a Controladoria Geral do Estado (CGE) e a Procuradoria-Geral do Estado (PGE) também participam do processo, fornecendo informações e apoio técnico.
Os episódios mais recentes se desenrolaram nos últimos meses, com destaque para o ataque hacker ocorrido no início do ano e revelado apenas três meses depois. A morte do servidor da área de tecnologia da informação foi registrada no final de março, coincidindo com os problemas enfrentados nos sistemas da SES. As convocações de empresários foram aprovadas recentemente, marcando a nova etapa da investigação.
Os trabalhos da CPI acontecem na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, em Cuiabá, mas os fatos investigados estão diretamente ligados à Secretaria de Estado de Saúde. Os sistemas da pasta, alvo de ataque cibernético, armazenavam documentos essenciais para a apuração, o que ampliou a preocupação dos parlamentares.
A Comissão foi criada para apurar possíveis irregularidades em contratos da SES, envolvendo compras de equipamentos, prestação de serviços e repasses milionários. O objetivo é identificar desvios de recursos públicos, responsabilizar os envolvidos e propor mecanismos de recuperação financeira para o Estado.
Segundo Wilson Santos, a sequência de acontecimentos, ataque hacker, suicídio de servidor e resistência política, formou um “quebra-cabeça” que reforça a necessidade da investigação. Apesar das dificuldades, o parlamentar assegura que a CPI seguirá avançando, buscando acesso a documentos e depoimentos que possam esclarecer os fatos.
Entre os entraves enfrentados estão o sigilo judicial que impede a divulgação de informações da Deccor, a perda temporária de dados devido ao ataque cibernético e a resistência de setores políticos. Delegados convocados pela CPI chegaram a permanecer em silêncio durante sessões, amparados por orientações jurídicas.
O ataque hacker comprometeu centenas de milhares de arquivos, gerando insegurança sobre a integridade das provas. A morte do servidor ampliou a repercussão do caso, ainda que não haja ligação oficial entre os episódios. Além disso, empresários ligados a contratos suspeitos foram convocados, o que pode trazer novos desdobramentos.
A CPI entrará em uma fase estratégica, ouvindo empresários que mantiveram relações comerciais com a SES. Há suspeitas de sobrepreço, entrega parcial de produtos e descumprimento de obrigações contratuais. Após essa etapa, servidores e gestores da própria secretaria também deverão prestar depoimentos.
Wilson Santos garante que a comissão não recuará diante dos obstáculos. O compromisso, segundo ele, é oferecer respostas à sociedade sobre o destino dos recursos públicos destinados à Saúde. A expectativa é que, ao final dos trabalhos, a CPI consiga esclarecer responsabilidades e propor medidas para evitar novos desvios.
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