Artigo
Na dor, encontrei minha paixão
Autora: Dra. Camila Beckenkamp*
Primeiramente, quero contar minha história e fazer com que você mesmo sem me conhecer, possa mergulhar no mar do Caribe cheio de experiência junto comigo.
Desde pequena, brincava com uma amiga de infância com brinquedos de consultório médico. Logo, consegui realizar o sonho e seguir o caminho da medicina. Um caminho que não foi fácil.
Sou de Cuiabá, e em 2008 aos 19 anos de idade, fui para Cuba estudar medicina na Escola Latinoamericana de Medicina (ELAM), uma universidade pública internacional cubana com sede em Havana, Cuba, fundada em 1999 e localizada ao nordeste da capital.
O primeiro ano foi de muita adaptação, como aprender um novo idioma, lidar com desastres naturais, conviver em república, e relacionar-se com pessoas de outras nacionalidades. Eram em torno de 2500 alunos estrangeiros, de aproximadamente 23 países participando do projeto ELAM nos dois primeiros anos da faculdade.
O local em que morávamos, lembrava um quartel naval, até porque pertenciam à Academia Naval “Granma”, que era marcada por sua beleza, cercado de praia azul turquesa e ao fundo canal de água verde musgo. A vista da biblioteca era uma vista memorável.
Passamos por período de desastres naturais no ano de 2008, e naquela ocasião, meu primeiro contato com furacão, pude presenciar a solidariedade e acolhimento de perto diante de uma contexto de estar morando em outro país, longe da minha família e sendo acolhida por um país que me sentia em casa.
Nesse momento, pude ter a experiência de ser uma estudante brasileira vivendo em Cuba.
Dividia o apartamento com 5 estudantes de medicina. Uma parte do meu mundo, tinha apenas 2 metros, dentro dele estava a minha cama, na qual eu colocava uma cortina adaptada e desfrutava meu espaço, onde dormia, estudava em uma mesa de madeira, assistia filme ou escutava músicas caribenha e muitas vezes, brasileira. Me lembro de uma felicidade que não cabia em mim, o momento em que eu comprei meu ventilador, após 1 ano de faculdade, era uma emoção como se estivesse comprado um carro.
No final do quinto ano de faculdade, em meados de julho de 2013 antes de sair de férias, iniciei um processo de emagrecimento, perdi cerca de 10 kg em aproximadamente 3 meses. Eu estava em um momento de modificação de estilo de vida, negando qualquer patologia até retornar ao Brasil de férias e meus pais me verem no aeroporto e afirmarem que não estava bem e sim com problemas de saúde.
Então, decidi realizar exames de rotina e me lembro bem de estar na casa da minha tia-mãe, aonde me ligaram do laboratório para pegar o resultados de exames, veio glicemia de jejum de 319 mg/dl e hemoglobina glicada (HbA1C) de 16,4%, associado a quadro de anemia ferropriva, sem presença de sangramento. Naquele momento, busquei atendimento médico especializado e foi meu primeiro contato com a especialidade de endocrinologia.
Iniciado investigação para a diabetes e doença celíaca, sendo confirmado o diagnóstico. Nesse momento conclui, que não estava bem. E com isso, aprendi a lidar com dois novos diagnósticos de uma só vez. Por outro lado, pude sentir a emoção de me ver sentada na cadeira como médica endocrinologista atendendo pacientes com o mesmo diagnóstico e compartilhando minha experiência de vida.
Desde o diagnóstico, precisei usar insulina e uma dieta restrita, pude me adaptar e entender os pontos positivos do tratamento.
Recebi o apoio dos meus pais, e a segurança para ficar ao lado deles, mas decidi voltar para o meu objetivo, e realizar o meu sonho e da minha família de ser médica.
Então, voltei para Cuba após as férias em setembro de 2013, com a certeza que esses anos iriam passar, e escolhi que fosse da melhor forma.
Em 2014 retornei ao Brasil, para minha cidade natal. Momento que exigiu uma nova realidade, enquanto esperava o processo de revalidação, ajudei meus pais no comércio da família, nossa sorveteria. E com um ano dedicando integralmente para a revalidação, consegui revalidar meu diploma de medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Após revalidação, no início de 2016, fui aprovada no processo seletivo em Nova Mutum-MT. E, no meu primeiro dia de trabalho, conheci meu amor.
Optei por trabalhar por quase 3 anos em posto de saúde, plantões de urgência e emergência, grupo de tabagismo, remoções hospitalares e atendimento pré-hospitalar para me preparar financeiramente para a residência médica.
Em 2019, fui aprovada na residência de Clínica Médica no Hospital de Câncer de MT (HCAN-MT). Conclui a residência em 2021, logo em seguida, fui aprovada no serviço de Endocrinologia e Metabologia do Hospital Federal Servidores do Estado do Rio de Janeiro (HFSE) com previsão de conclusão em Fevereiro de 2023.
Hoje, 10 anos após o diagnóstico de diabetes e doença celíaca, aos 33 anos de idade, meu sentimento é de gratidão por cada experiência vivida, e tenho a convicta certeza que na minha dor, encontrei minha paixão.
*Camila Beckenkamp é médica, residente de Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital Federal Servidores do Estado do Rio de Janeiro (HFSE/RJ). Especialista em clínica médica, membro residente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia-SBEM, formada pela Escola Latino-Americana de Medicina – ELAM / Cuba.
Artigos
Como evitar que os fracassos definam nossa identidade?
Autor: Luis Carlos Marques Fonseca* –
A pressão para sermos bem-sucedidos social e economicamente transformou erros e perdas em uma crise de identidade coletiva. Ao observarmos a sociedade atual, percebemos que a angústia de “não atingirmos determinados resultados que desejamos” nasce, em grande parte, da incapacidade de separar nossos resultados de quem essencialmente somos. Por que permitimos que um tropeço se transforme em uma sentença? A resposta, embora complexa, reside na forma como construímos nossa identidade, pois a chave para a liberdade não é a ausência de tropeços, mas a prática consciente da não identificação com as nossas conquistas e fracassos.
A sociedade contemporânea nos empurra para uma fusão perigosa entre o “fazer ou ter” e o “ser”. Se um projeto colapsa, a pessoa se sente inferior; se um papel social se desfaz, ela sente que perdeu a “razão de viver”. No entanto, precisamos resgatar a perspectiva do ator e do personagem. O seu “Eu Real” é o ator; as circunstâncias da vida — o emprego, os sucessos, as posses, as relações sociais, as crises — são apenas papéis no palco. O ator se entrega ao papel com intensidade e responsabilidade, mas ele nunca esquece que, ao fechar das cortinas, sua essência permanece intacta, independentemente de o personagem ter triunfado, fracassado ou perecido.
Para evitar que uma fissura se torne um trauma limitante, é preciso aprender a extrair a essência da experiência, e tornar-se mais consciente de si mesmo. Quando erramos, temos dois caminhos: carregar a dor do “erro” como um trauma que limitará futuras ações ou aprender com ele, tornando-se mais aptos a integrar conscientemente novas situações mais complexas de vida. O fracasso só define a identidade daquele que não é capaz de aprender com os próprios deslizes. Quando assumimos a responsabilidade pelos nossos erros, temos a possibilidade de correção, paramos de culpar a nós mesmo, aos demais ou ao destino e retomamos as rédeas do nosso caminho, de sermos cada vez mais conscientes.
Viver sem apego excessivo aos resultados não significa agir com indiferença, mas sim aproveitar com plenitude cada momento presente. O “Eu Artificial” adora habitar o passado, remoendo mágoas e falhas antigas para justificar o medo do futuro e a responsabilidade de ser o dono do próprio destino. Estar inteiro no agora, fazendo uso de toda experiência acumulada, é a única forma de impedir que a memória negativa e o apego às nossas conquistas e fracassos passados ditem nossos próximos passos.
As conquistas e fracassos, portanto, devem ser vistos como oportunidades de aprendizado. São experiências necessárias para o despertar das virtudes próprias de nossa verdadeira identidade: a Vontade, a Intuição e a Inteligência. Quando deixamos de rejeitar a queda e passamos a observar o que ela nos ensina, a identidade deixa de ser um castelo de cartas vulnerável ao vento das circunstâncias e se torna uma estrutura sólida, forjada na experiência e na sabedoria de quem se identifica com algo em si mesmo que está além de qualquer resultado passageiro.
Não somos o que nos acontece; somos seres conscientes que decidem o que fazer com aquilo que acontece. O palco pode mudar, mas o ator, se estiver consciente de si, jamais se perde na cena.
*Luis Carlos Marques Fonseca é diretor-presidente da Nova Acrópole Brasil Norte e autor do livro Filosofia: O caminho da liberdade (Hanoi Editora).
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