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Maria Augusta Ribeiro: – Do Youtube à Literatura dos Booktubers. 

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                Do Youtube à Literatura dos Booktubers.

Por: Maria Augusta Ribeiro –  

Booktubers, mas o que é isso? São pessoas que leem livros, falam sobre eles em seus canais no Youtube, e vêm modificando o mercado editorial como conhecemos. É um número cada vez maior de celebridades que explode em visualizações na internet pelo conteúdo que leem e compartilham, incentivando novas gerações de leitores.

Confesso, quando comecei a pesquisa sobre o tema, entrei pensando naqueles livros sem sentido de algumas celebridades que ficaram famosas via canal de Youtube e vendem milhões sei lá por quê.

Mas, aos poucos, o universo de gente que gosta de literatura e divide esse conhecimento me fez pensar em novos modelos de ensino e negócios. Afinal de contas, não há nada de errado em um jovem de 20 anos ser bem sucedido financeiramente fazendo da leitura sua profissão.

Estamos formando pessoas que gostam da experiência de ler um livro e, pasmem, na sua versão original, de papel. Nenhum dos canais que acessei tem booktubers fazendo indicações do que estão lendo em versões digitais.

A moçada é tão antenada que segmenta mercado se especializando pelo gênero que gosta de ler. E as editoras sacaram isso, e pagam para eles lerem suas publicações e fazer resenhas online, beneficiando as vendas.

O grande sucesso dos booktubers não se repete no universo literário, onde grandes editoras e bookstores fecham suas portas pela pouca procura. E alguma coisa nessa conta nos alerta para uma equação errada. Se tem mais gente lendo significa que deveríamos ter mais livros sendo vendidos, certo?

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Sem entrar em mimimi de que não há incentivos a educação, cultura e os altos impostos, o que acontece com o universo dos booktubers é que eles leem livros, compartilham conteúdo, porém, nem todo mundo que assiste seus canais sai de casa para comprar um.

E assim acarreta um novo cenário: o da turma super bem informada, porém pouco aprofundada. E erros de grafia, conhecimento e pesquisa continuam a ser encontrados com grande frequência nas provas estudantis de todo o país.

Do outro lado podemos dizer que essa turma antenada criou formatos de compartilhamento de conteúdo mais atrativos aos mais jovens, e sem dúvida desperta interesse. Talvez não por todos os 16 livros em média que os booktubers leem no mês, mas por um.

Há ainda booktubers especializados em conteúdo para Enem, Toffel e exame da Ordem dos Advogados. O que não retira a responsabilidade do estudante em estudar, mas de alguma forma complementa o aprendizado.

Outra curiosidade dessa geração youtubers é que em sua maioria distribuem os livros que já leram, e raramente têm Instagram hiper bombados, pois acabam por dedicar grande parte de seu tempo à leitura.

Fui da última geração nascida sob os ventos do analógico e acredito que, quando proporcionamos formatos digitais onde o objetivo é o compartilhamento de conteúdo através da experiência de pegar um livro de papel e ler, acho fascinante.

Segundo dados do CIEPCentro Integrados de Educação Pública, mais de 800 mil escolas no país não tem qualquer acesso à tecnologia. Porém, se imaginarmos que pelo smartphone uma criança ou jovem desestimulado pela educação se interessar pela leitura porque encontrou quem o incentive num booktuber, isso pode ser uma alternativa complementar à escola.

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Quanto mais incentivarmos pessoas diferentes, de idades distintas e de realidade completamente adversa a se unir para trocar experiências, tanto no físico como no digital, teremos mais gente capaz de reter conhecimento, em vez de apenas ter uma informação instantânea, rasa ou sem benefício para a formação de outros valores.

Penso que os pais e professores deveriam embarcar nessa. Vá lá assistir um booktuber e aprenda a reconhecer a importância desse canal de comunicação efetiva. Não há nada de errado em aprender algo sobre um livro no Youtube, junto com seus filhos ou seus alunos e depois ir juntos a um sebo, livraria ou mesmo comprar online o livro e ler.

Somente juntos seremos responsáveis por desenvolver habilidades digitais e físicas, que serão experimentadas em conjunto e lembradas para a vida toda como agentes da mudança que tanto falamos por aí. Lembre-se: Internet não é vilão, é ferramenta de transformação, e você também pode. Divirta-se.

Aqui tem uma lista de booktubers bem bacana veja:

Tatiana G Feltrin

Juliana do Nuven Literaria

Geek Freak

Ler antes de morrer

Literature-seEduardo Cilto

Cabine literaria

Maria Augusta Ribeiro. Profissional da informação, especialista em Netnografia e Comportamento Digital – Belicosa.com.br

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Quando despertaremos?

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Autora: Soraya Medeiros*

Temos sido mais generosos com os mortos do que com os vivos. Diante da ausência, multiplicamos elogios, resgatamos fotografias, enumeramos virtudes e encontramos palavras que, em vida, tantas vezes economizamos. É como se precisássemos perder alguém para finalmente enxergá-lo. A pergunta incômoda é: por que o reconhecimento quase sempre chega atrasado?

A história está cheia de exemplos. Antônio Vivaldi morreu longe do prestígio que sua música alcançaria. Johann Sebastian Bach foi reconhecido em seu tempo como organista e mestre, mas a dimensão de sua obra ganharia maior projeção posteriormente. Mozart também enfrentou dificuldades, apesar de uma genialidade que hoje ninguém questiona.

Os séculos passaram. Nós mudamos tanto assim?

Vivemos na sociedade da exposição. Nunca mostramos tanto, opinamos tanto e tivemos tantas ferramentas para dizer o que sentimos. As redes sociais transformaram reconhecimento em curtidas e seguidores. A tecnologia encurtou distâncias e a inteligência artificial colocou respostas em nossas mãos. Ainda assim, continuamos com dificuldade para enxergar quem está ao lado.

Queremos ser reconhecidos. Mas sabemos reconhecer?

O psicanalista e filósofo social Erich Fromm, em A Arte de Amar, tratou o amor não como algo que simplesmente acontece, mas como uma arte que exige aprendizado e prática. Para ele, amar envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. Uma reflexão atual porque enxergar verdadeiramente o outro também exige disposição.

Talvez esteja justamente aí o problema.

Na pressa diária, naturalizamos presenças. A mãe que cuida parece apenas cumprir sua obrigação. O pai que sustenta a casa precisa continuar forte. O profissional eficiente raramente é elogiado, mas rapidamente lembrado quando erra. O amigo que sempre escuta quase nunca é perguntado se também precisa falar.

Acostumamo-nos tanto com algumas pessoas que deixamos de perceber o tamanho delas em nossas vidas.

Quando a ausência chega, tudo muda. O telefonema antes ignorado faz falta. O conselho que incomodava ganha sentido. A fotografia esquecida vira lembrança preciosa. E surgem homenagens carregadas de palavras que poderiam ter sido pronunciadas antes.

Para os cristãos, Jesus de Nazaré talvez seja o exemplo mais contundente dessa contradição. Pregou amor, misericórdia, justiça e paz, acolheu os excluídos e enfrentou os interesses de seu tempo. Recebeu a cruz. Para a fé cristã, porém, a sexta-feira da dor não encerrou a história: veio o domingo da ressurreição.

Não precisamos esperar nossas próprias perdas para compreender essa mensagem.

Reconhecer alguém em vida não exige discursos ou grandes homenagens. Às vezes, cabe em um telefonema, um abraço, um agradecimento ou numa frase simples: “Você é importante para mim“.

Fromm nos ajuda a perceber que amar também pressupõe ação — e reconhecer o outro talvez seja uma de suas manifestações mais bonitas. Precisamos aprender a elogiar antes da despedida, agradecer antes da saudade e valorizar antes que a ausência nos ensine aquilo que a presença tentou mostrar todos os dias.

Olhe para quem caminha ao seu lado. Talvez existam pessoas esperando não por aplausos, mas apenas pela certeza de que foram vistas.

Afinal, quantas ausências ainda serão necessárias para valorizarmos as presenças?

Quando despertaremos?

*Soraya Medeiros é jornalista.

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