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“Deus, eu perdoo os Teus pecados!”: uma reflexão sobre fé, religião e religiosidade

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Autora: Ronailde Braga Guerra*

“Deus, eu perdoo os Teus pecados!” é como termina o desabafo sobre como o cansado mostrara mostrara seu impacto no ato de busca de comunhão com Deus, pois a oração feita ao deitar fica subvertida e, às vezes, nem é concluída. Apesar de não intencional, o erro na prece leva a pensar em como se pode facilmente culpar Deus pelo resultado das nossas escolhas, e vamos, como escreveu C. S. Lewis, pondo Deus no banco dos réus.

Uma destas escolhas é se deixar entrar no automático durante a participação dos protocolos que a igreja segue no culto — o que chamamos de doutrina ou religião — pois, por necessidade de ordem na instituição humana, criam-se sistemas onde nos encaixamos e vamos nos deixando levar pelo hábito.

Esta é a armadilha da religiosidade. Começa pequeno, mas logo vira um abismo entre fé e religião.

É o fazer por fazer, sem que o ato produza reflexão, autoavaliação ou cuidado em quem o executa. É o imitar o que a congregação faz, sem inclinação sincera em participar do movimento. É o ir à igreja só porque toda família vai e não se quer ficar para trás.

Mas termina-se por ficar para trás. Em muitos casos, termina-se em fugir dos protocolos, aumentando a igreja que mais cresce hoje: a dos desigrejados.

Pois se não há fé na obra que se faz, esta obra é tão morta quanto quem a faz. E assim é que muitos vão à igreja, apenas seguindo rituais, presos na rotina e mortos, tal qual aqueles a quem Deus exortou e, ao vir ao mundo, chamou de sepulcros caiados. E chamou-os também de hipócritas, pois faziam o que fora estabelecido por Ele por meio da lei, mas só porque outros os olhavam, sem olharem ao motivo para tais rituais: manter comunhão com Deus.

Em um paralelo, é como escovar os dentes sem saber do objetivo: preservar a saúde bucal. Esta é a situação da criança enquanto os pais ensinam ou escovam por ela, que cumpre o rito e colhe o benefício dele. E este é o papel dos protocolos no começo: ensinar. Aos adultos, seguir escovando sem pensar no porquê é uma escolha pessoal.

E é da falta de se considerar os porquês e de buscar sabedoria e respostas em Deus que cresce o abismo ‘religiosidade’ entre a fé e a religião verdadeira, cujos ritos nos servem de lembretes de que, na busca da saúde espiritual, vale a pena “nos escovarmos” mais que três vezes ao dia, mesmo quando, ao fim dele, o cansaço nos faz tropeçar na oração.

Afinal, Deus perdoou e ainda perdoa nossos tropeços. Já a hipocrisia…

*Ronailde Braga Guerra é escritora e assina como R. B. Guerra. Autora cristã, publicou os livros “Guardiã – Despertar” e “Filhas da Ira”

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Artigos

Como evitar que os fracassos definam nossa identidade?

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Autor: Luis Carlos Marques Fonseca*

A pressão para sermos bem-sucedidos social e economicamente transformou erros e perdas em uma crise de identidade coletiva. Ao observarmos a sociedade atual, percebemos que a angústia de “não atingirmos determinados resultados que desejamos” nasce, em grande parte, da incapacidade de separar nossos resultados de quem essencialmente somos. Por que permitimos que um tropeço se transforme em uma sentença? A resposta, embora complexa, reside na forma como construímos nossa identidade, pois a chave para a liberdade não é a ausência de tropeços, mas a prática consciente da não identificação com as nossas conquistas e fracassos.

A sociedade contemporânea nos empurra para uma fusão perigosa entre o “fazer ou ter” e o “ser”. Se um projeto colapsa, a pessoa se sente inferior; se um papel social se desfaz, ela sente que perdeu a “razão de viver”. No entanto, precisamos resgatar a perspectiva do ator e do personagem. O seu “Eu Real” é o ator; as circunstâncias da vida — o emprego, os sucessos, as posses, as relações sociais, as crises — são apenas papéis no palco. O ator se entrega ao papel com intensidade e responsabilidade, mas ele nunca esquece que, ao fechar das cortinas, sua essência permanece intacta, independentemente de o personagem ter triunfado, fracassado ou perecido.

Para evitar que uma fissura se torne um trauma limitante, é preciso aprender a extrair a essência da experiência, e tornar-se mais consciente de si mesmo. Quando erramos, temos dois caminhos: carregar a dor do “erro” como um trauma que limitará futuras ações ou aprender com ele, tornando-se mais aptos a integrar conscientemente novas situações mais complexas de vida. O fracasso só define a identidade daquele que não é capaz de aprender com os próprios deslizes. Quando assumimos a responsabilidade pelos nossos erros, temos a possibilidade de correção, paramos de culpar a nós mesmo, aos demais ou ao destino e retomamos as rédeas do nosso caminho, de sermos cada vez mais conscientes.

Viver sem apego excessivo aos resultados não significa agir com indiferença, mas sim aproveitar com plenitude cada momento presente. O “Eu Artificial” adora habitar o passado, remoendo mágoas e falhas antigas para justificar o medo do futuro e a responsabilidade de ser o dono do próprio destino. Estar inteiro no agora, fazendo uso de toda experiência acumulada, é a única forma de impedir que a memória negativa e o apego às nossas conquistas e fracassos passados ditem nossos próximos passos.

As conquistas e fracassos, portanto, devem ser vistos como oportunidades de aprendizado. São experiências necessárias para o despertar das virtudes próprias de nossa verdadeira identidade: a Vontade, a Intuição e a Inteligência. Quando deixamos de rejeitar a queda e passamos a observar o que ela nos ensina, a identidade deixa de ser um castelo de cartas vulnerável ao vento das circunstâncias e se torna uma estrutura sólida, forjada na experiência e na sabedoria de quem se identifica com algo em si mesmo que está além de qualquer resultado passageiro.

Não somos o que nos acontece; somos seres conscientes que decidem o que fazer com aquilo que acontece. O palco pode mudar, mas o ator, se estiver consciente de si, jamais se perde na cena.

*Luis Carlos Marques Fonseca é diretor-presidente da Nova Acrópole Brasil Norte e autor do livro Filosofia: O caminho da liberdade (Hanoi Editora).

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