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Como o estresse de manejo pode afetar as vacas no período de transição?

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Autora: Nathaly Ana Carpinelli –

O período de transição em vacas leiteiras é compreendido entre as 3 semanas pré e pós-parto, caracterizado por ser uma das fases mais importantes do ciclo de lactação. Durante o terço final da gestação e início da lactação muitas alterações metabólicas e fisiológicas acontecem, devido ao aumento da demanda energética para o final do desenvolvimento fetal e, posteriormente, para produção de colostro e leite.

Em contrapartida, neste mesmo período de alta demanda energética, observa-se uma diminuição no consumo de matéria seca (CMS) dos animais. Durante os 14 dias finais de gestação, vacas de primeira e segunda lactação apresentam uma redução de 25% no CMS, enquanto que o CMS reduz em até 52% para vacas de terceira ou mais lactações (Grummer et al., 2004). O reflexo dessa diminuição no CMS se dá principalmente no pós-parto recente, onde a vaca entra em uma condição fisiológica denominada balanço energético negativo (BEN). O mecanismo fisiológico que provoca a queda no CMS ainda não é bem entendido, entretanto, a redução do tamanho do rúmen e a alta circulação de estrógeno (hormônio esteróide) são fatores envolvidos na diminuição do CMS (Grummer et al., 2004).

O BEN ocorre porque as vacas estão ingerindo menos energia do que elas realmente precisam, ou seja, estão comendo menos. Durante esta condição, a vaca mobiliza ácidos graxos armazenados no tecido adiposo para suprir a alta demanda energética e manter seu metabolismo ativo. Entretanto, períodos prolongados e intensos de BEN podem desencadear o aumento exacerbado de ácidos graxos não esterificados (AGNE) e corpos cetônicos (beta-hidroxibutirato – BHBA) na circulação sanguínea, que predispõem os animais a doenças metabólicas, comprometendo sua produção e reprodução subsequentes.

Em uma revisão recente, Trevisi e Minuti (2018) relataram que além do BEN, vacas no período de transição também podem ser caracterizadas como animais imunocomprometidos, pois têm uma alta probabilidade de experimentar eventos que desafiam seu sistema imunológico. Durante o pré-parto, as vacas tendem a reduzir a produção de células de defesa e concentração de imunoglobulinas no plasma, que poderá afetar a resposta inflamatória desses animais. No pós-parto imediato, a incidência de doenças metabólicas, como mastite, cetose, retenção de placenta, metrite, hipocalcemia e deslocamento de abomaso, podem contribuir para a disfunção imunológica.

Além das mudanças metabólicas e fisiológicas, os animais também passam por situações de estresse durante o período de transição. Por definição, o estresse pode ser caracterizado como qualquer situação que tira o animal de sua zona de conforto (homeostase; Collier et al., 2017). Durante a sua vida produtiva, as vacas leiteiras são submetidas à várias formas de estresse, tais como fatores ambientais (variações de temperatura), sociais (mudança de ambiente/lotes/sistemas de ordenha, hierarquia dos animais) e de manejo (desmame, mochação casqueamento). A resposta a essas situações de estresse, pode ser aguda ou crônica. A fase aguda é caracterizada por mudanças comportamentais, como vocalização, defecação e inquietação. Já a fase crônica pode desencadear uma resposta inflamatória indesejável, causando o aumentando de cortisol e síntese de proteínas de fase aguda (haptoglobina) no plasma, aumento da temperatura corporal e mobilização de tecidos corporais (hepático, muscular e adiposo). Em termos práticos, significa que a vaca está gastando a energia que seria utilizada para a produção de leite e crescimento, por exemplo, para combater o estresse.

Situações de estresse de manejo são bem comuns dentro de uma propriedade leiteira, mas muitas vezes podem passar despercebidas. Um exemplo é a novilha, sendo uma das categorias mais difíceis para adaptação em novos ambientes e mais vulnerável a situações de estresse. Isso acontece porque esse animal esteve submetido a várias condições de estresse durante um curto período de sua vida produtiva, causado inicialmente pelo desmame e mochação, seguido por várias trocas de ambiente/lotes até o início da sua lactação. No caso das vacas, a mudança de lote/ambiente ainda é considerada uma situação de manejo bastante estressante, em virtude do comportamento de dominância dos animais que interferem diretamente no CMS.

No período de transição, tanto vacas quanto novilhas, sofrem com o estresse de manejo causado principalmente pela mudança de ambiente/lotes em torno de 30 dias antes do parto e, no caso das vacas a secagem 60 dias antes do parto. Você consegue imaginar quanto o estresse pode afetar os animais durante esse período? O efeito do estresse de manejo poderá ser refletido em um BEN mais intenso, maior risco de incidência de doenças metabólicas, diminuição na qualidade do colostro, juntamente com efeitos negativos na produção, reprodução e aclimatação deste animal na fase de lactação. Em termos práticos, isso poderá aumentar os custos da propriedade dada a maior ocorrência e, consequentemente, o tratamento de doenças no pós-parto imediato, menor transferência de imunoglobulinas para os bezerros, seguido pela diminuição na produção de leite e em um maior número de dias em aberto desse animal na fase de lactação.

Levando em consideração uma situação hipotética que uma vaca ou novilha tenha uma produção média de leite esperada para 40 L/leite/dia no pós-parto. Supondo que esse animal foi submetido a situações de estresse causada por exemplo, pela mudança ambiente/lotes durante o pré-parto e que esse estresse possa diminuir em torno de 3% a produção de leite na primeira semana pós parto (Phillips & Rind, 2001). Nessa situação, essa perda seria em torno de 1,2 L/leite/dia e 8,4 L/leite/semana. Se esse efeito perdurar até 30d pós-parto, o animal chega a perder 36 L/leite. Isso somente em leite! Mas se esse mesmo animal apresentar sintomas de retenção de placenta ou cetose, por exemplo, a perda do produtor será ainda maior em virtude dos gastos com o tratamento.

Em resumo, podemos considerar que o estresse de manejo durante o período de transição, pode afetar ainda mais a saúde e produtividade dos animais. Algumas estratégias podem ser utilizadas para minimizar os efeitos negativos do estresse, como por exemplo:

Realizar somente o manejo necessário com animais no pré-parto
Minimizar a troca de lotes, para evitar efeitos de dominância entre os animais
Se possível, separar novilhas de vacas no pré-parto e pós-parto recente
Se possível, realizar um lote pós-parto (cerca de 30 dias) para melhor aclimatação dos animais
Acompanhar a incidência de doenças no pós-parto recente
Acompanhar o CMS dos animais no pré e pós-parto
Adotar práticas de bem estar animal
Investir em novas tecnologias para redução de estresse, tais como o SecureCattle®

Nathaly Ana Carpinelli – Zootecnista, UFPel, Ms. Produção Animal, SDSU, Coordenadora Comercial, Nutricorp

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Quando despertaremos?

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Autora: Soraya Medeiros*

Temos sido mais generosos com os mortos do que com os vivos. Diante da ausência, multiplicamos elogios, resgatamos fotografias, enumeramos virtudes e encontramos palavras que, em vida, tantas vezes economizamos. É como se precisássemos perder alguém para finalmente enxergá-lo. A pergunta incômoda é: por que o reconhecimento quase sempre chega atrasado?

A história está cheia de exemplos. Antônio Vivaldi morreu longe do prestígio que sua música alcançaria. Johann Sebastian Bach foi reconhecido em seu tempo como organista e mestre, mas a dimensão de sua obra ganharia maior projeção posteriormente. Mozart também enfrentou dificuldades, apesar de uma genialidade que hoje ninguém questiona.

Os séculos passaram. Nós mudamos tanto assim?

Vivemos na sociedade da exposição. Nunca mostramos tanto, opinamos tanto e tivemos tantas ferramentas para dizer o que sentimos. As redes sociais transformaram reconhecimento em curtidas e seguidores. A tecnologia encurtou distâncias e a inteligência artificial colocou respostas em nossas mãos. Ainda assim, continuamos com dificuldade para enxergar quem está ao lado.

Queremos ser reconhecidos. Mas sabemos reconhecer?

O psicanalista e filósofo social Erich Fromm, em A Arte de Amar, tratou o amor não como algo que simplesmente acontece, mas como uma arte que exige aprendizado e prática. Para ele, amar envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. Uma reflexão atual porque enxergar verdadeiramente o outro também exige disposição.

Talvez esteja justamente aí o problema.

Na pressa diária, naturalizamos presenças. A mãe que cuida parece apenas cumprir sua obrigação. O pai que sustenta a casa precisa continuar forte. O profissional eficiente raramente é elogiado, mas rapidamente lembrado quando erra. O amigo que sempre escuta quase nunca é perguntado se também precisa falar.

Acostumamo-nos tanto com algumas pessoas que deixamos de perceber o tamanho delas em nossas vidas.

Quando a ausência chega, tudo muda. O telefonema antes ignorado faz falta. O conselho que incomodava ganha sentido. A fotografia esquecida vira lembrança preciosa. E surgem homenagens carregadas de palavras que poderiam ter sido pronunciadas antes.

Para os cristãos, Jesus de Nazaré talvez seja o exemplo mais contundente dessa contradição. Pregou amor, misericórdia, justiça e paz, acolheu os excluídos e enfrentou os interesses de seu tempo. Recebeu a cruz. Para a fé cristã, porém, a sexta-feira da dor não encerrou a história: veio o domingo da ressurreição.

Não precisamos esperar nossas próprias perdas para compreender essa mensagem.

Reconhecer alguém em vida não exige discursos ou grandes homenagens. Às vezes, cabe em um telefonema, um abraço, um agradecimento ou numa frase simples: “Você é importante para mim“.

Fromm nos ajuda a perceber que amar também pressupõe ação — e reconhecer o outro talvez seja uma de suas manifestações mais bonitas. Precisamos aprender a elogiar antes da despedida, agradecer antes da saudade e valorizar antes que a ausência nos ensine aquilo que a presença tentou mostrar todos os dias.

Olhe para quem caminha ao seu lado. Talvez existam pessoas esperando não por aplausos, mas apenas pela certeza de que foram vistas.

Afinal, quantas ausências ainda serão necessárias para valorizarmos as presenças?

Quando despertaremos?

*Soraya Medeiros é jornalista.

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