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HÁ 106 ANOS NASCIA, GONÇALO DOMINGOS DE CAMPOS E SEUS SEGREDOS

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Autor: Wilson Pires de Andrade*

Foi vereador e presidente da Câmara Municipal, quando Napoleão José da Costa era prefeito de Várzea Grande. Por muitos anos, resistiu à tentação de ser candidato à Prefeitura Municipal e, em 1969, lançou a candidatura do seu filho mais velho Ary Leite de Campos, que mais tarde seria deputado estadual e presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso. Trata-se do comerciante Gonçalo Domingos de Campos, irmão de Júlio Domingos de Campos – o seo Fiote e tio dos ex-governadores Júlio e Jayme Campos. Vale ressaltar que Gonçalo Domingos de Campos era avô do ex-deputado estadual e também conselheiro do Tribunal de Contas, Gonçalo Domingos de Campos Neto.

Gonçalo Domingos de Campos, nasceu em Nossa Senhora do Livramento no dia 11 de janeiro de 1916, há 109 anos e foi casado em 1940 com dona Dirce Leite de Campos, filha do coronel João Vicente Pedro de Barros, líder que comandou a política por muitos anos naquela cidade, nas décadas de 30, 40 e 50. O casal teve oito filhos, quatro homens e quatro mulheres: Ary Leite de Campos, Terezinha Catarina de Campos Monteiro, Gonçalo Domingos de Campos Filho, Atair Leite de Campos, Maria Nazarello de Campos, Antonina Leite de Campos e Marisa Leite de Campos. Deles, o mais velho Ary Leite de Campos decidiu suceder o pai na vida pública.

Sempre foi comerciante, estava no ramo desde os 16 anos de idade. O primeiro empório que teve foi na travessa 24 de maio, vendendo secos e molhados. Depois ampliou a sua empresa e montou uma máquina de beneficiamento de arroz, uma das primeiras da Baixada Cuiabana.

Naquele tempo, tudo era difícil, observava Gonçalo Domingos, lembrando que havia apenas um ônibus ligando Várzea Grande até Cuiabá.

VIDA PÚBLICA

De família tradicional na política mato-grossense, Gonçalo Domingos de Campos sempre acompanhou as disputas eleitorais na Cidade Industrial. Porém, durante toda a sua carreira política ele foi adversário de seu irmão, seo Fiote. Gonçalo pertenceu à UDN e Fiote ao PSD.

Somente em 1969, quando Ary Campos foi lançado candidato a prefeito de Várzea Grande a família Campos se uniu novamente. Ary venceu o candidato da então prefeita Sarita Baracat, Antonino Costa. Em 1972, a família Campos continuou unida e o recém-formado engenheiro agrônomo Júlio José de Campos, sobrinho de Gonçalo e filho de Fiote, se elegeu prefeito de Várzea Grande vencendo o empresário Rubens dos Santos e o jornalista Almerindo Costa (MDB). Ele se orgulhava de ter coordenado todas as campanhas de Ary Leite de Campos, a prefeito de Várzea Grande e três para a Assembleia Legislativa, todas vitoriosas. Em 1982, Ary Leite de Campos foi o deputado estadual mais votado de Mato Grosso, tendo recebido quase vinte mil votos.

VELHOS TEMPOS

Ele se considerava um privilegiado por ter acompanhado o processo de desenvolvimento de Várzea Grande, Gonçalo de Campos recordava que no passado os tempos eram bem mais difíceis. Ele lembrava que quando foi vereador na Cidade de Várzea Grande: faltava tudo. Energia elétrica era escassa e beneficiava menos de 20% da população e não existia rede de água tratada. A água era retirada dos tradicionais poços de fundo de quintal, perfurados “no muque”, com ferramentas rudimentares.

Até 1942, para se chegar em Cuiabá, era apenas de balsa. Então foi construída a Ponte Júlio Muller, batizada de “Ponte Velha”, ligando Cuiabá e Várzea Grande. Mesmo assim, o transporte continuou deficiente. Passou de charretes para um ônibus que passava a maior parte do tempo “desconcertado”, aguardando peças de reposição do Rio de Janeiro. O ônibus tinha três horários de partida para Cuiabá: as 7, 11 e 17 horas.

Mas o principal meio de transporte continuou sendo a charrete até o final da década de 60, quando começaram a circular os ônibus convencionais. Primeiro, da empresa Rápido Noroeste, que depois passaria a se chamar Estrela D’Alva.

DIVERSÃO

A maior diversão da época eram as corridas de cavalo. No antigo Morro Vermelho, onde mais tarde foi instalada a Grande Veículos e a Trescinco Caminhões, havia uma raia para corridas de cavalos. As arquibancadas de madeira comportavam aproximadamente duas mil pessoas e as apostas eram altas. O comerciante Ulysses Pompeo de Campos, possuía na época os melhores cavalos de Várzea Grande. Com o cavalo “Brinde”, Pompeo de Campos dominou as corridas por quase dez anos na Cidade Industrial.

“Quando Brinde” corria era fácil ganhar: em várias ocasiões ganhei dinheiro apostando nesse cavalo”, rememorava Gonçalo Domingos de Campos.

Os desportistas de Várzea Grande se dividiam em dois grupos: os que gostavam de futebol e aqueles que se dedicavam as corridas de cavalos. Os adeptos do futebol, mais tarde, ajudaram Rubens dos Santos a fundar o Operário de Várzea Grande, em 1949. Mas Gonçalo Domingos pertencia ao grupo apaixonados pelas corridas de cavalos.

*Wilson Pires de Andrade é jornalista em Mato Grosso.

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Quando despertaremos?

Publicados

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Autora: Soraya Medeiros*

Temos sido mais generosos com os mortos do que com os vivos. Diante da ausência, multiplicamos elogios, resgatamos fotografias, enumeramos virtudes e encontramos palavras que, em vida, tantas vezes economizamos. É como se precisássemos perder alguém para finalmente enxergá-lo. A pergunta incômoda é: por que o reconhecimento quase sempre chega atrasado?

A história está cheia de exemplos. Antônio Vivaldi morreu longe do prestígio que sua música alcançaria. Johann Sebastian Bach foi reconhecido em seu tempo como organista e mestre, mas a dimensão de sua obra ganharia maior projeção posteriormente. Mozart também enfrentou dificuldades, apesar de uma genialidade que hoje ninguém questiona.

Os séculos passaram. Nós mudamos tanto assim?

Vivemos na sociedade da exposição. Nunca mostramos tanto, opinamos tanto e tivemos tantas ferramentas para dizer o que sentimos. As redes sociais transformaram reconhecimento em curtidas e seguidores. A tecnologia encurtou distâncias e a inteligência artificial colocou respostas em nossas mãos. Ainda assim, continuamos com dificuldade para enxergar quem está ao lado.

Queremos ser reconhecidos. Mas sabemos reconhecer?

O psicanalista e filósofo social Erich Fromm, em A Arte de Amar, tratou o amor não como algo que simplesmente acontece, mas como uma arte que exige aprendizado e prática. Para ele, amar envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. Uma reflexão atual porque enxergar verdadeiramente o outro também exige disposição.

Talvez esteja justamente aí o problema.

Na pressa diária, naturalizamos presenças. A mãe que cuida parece apenas cumprir sua obrigação. O pai que sustenta a casa precisa continuar forte. O profissional eficiente raramente é elogiado, mas rapidamente lembrado quando erra. O amigo que sempre escuta quase nunca é perguntado se também precisa falar.

Acostumamo-nos tanto com algumas pessoas que deixamos de perceber o tamanho delas em nossas vidas.

Quando a ausência chega, tudo muda. O telefonema antes ignorado faz falta. O conselho que incomodava ganha sentido. A fotografia esquecida vira lembrança preciosa. E surgem homenagens carregadas de palavras que poderiam ter sido pronunciadas antes.

Para os cristãos, Jesus de Nazaré talvez seja o exemplo mais contundente dessa contradição. Pregou amor, misericórdia, justiça e paz, acolheu os excluídos e enfrentou os interesses de seu tempo. Recebeu a cruz. Para a fé cristã, porém, a sexta-feira da dor não encerrou a história: veio o domingo da ressurreição.

Não precisamos esperar nossas próprias perdas para compreender essa mensagem.

Reconhecer alguém em vida não exige discursos ou grandes homenagens. Às vezes, cabe em um telefonema, um abraço, um agradecimento ou numa frase simples: “Você é importante para mim“.

Fromm nos ajuda a perceber que amar também pressupõe ação — e reconhecer o outro talvez seja uma de suas manifestações mais bonitas. Precisamos aprender a elogiar antes da despedida, agradecer antes da saudade e valorizar antes que a ausência nos ensine aquilo que a presença tentou mostrar todos os dias.

Olhe para quem caminha ao seu lado. Talvez existam pessoas esperando não por aplausos, mas apenas pela certeza de que foram vistas.

Afinal, quantas ausências ainda serão necessárias para valorizarmos as presenças?

Quando despertaremos?

*Soraya Medeiros é jornalista.

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