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AS PERIFERIAS EXISTENCIAIS

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Autor: JUACY DA SILVA*

Existem diferentes tipos de periferia, incluindo a econômica, financeira, cultural, social e espiritual. Mas o Papa Francisco vem nos exortando em relação a uma periferia que as vezes nós não percebemos ou em nossa hipocrisia de um falso cristianismo ou de uma religiosidade alienada, teimamos em fechar os olhos.

Esta é a periferia existencial, que conecta a realidade material da vida, marcada pela exclusão, a pobreza, a miséria, pela fome, peladiscriminação, pela violência em todas as suas formas que continuam fazendo vitimas inossentes, com a periferia existencial, esta é a conexão entre o mundo material e a dimensão transcendental da vida humana

O Papa Francisco recebeu no final de agosto de 2021 um grupo de membros da Associação Francesa Lázaro, dedicada às pessoas vulneráveis. Na ocasião, Francisco reforçou o seu apelo em favor do que chama de “periferias existenciais”. Ele declarou: “Num ambiente cheio de indiferença, individualismo e egoísmo, vocês nos fazem entender que os valores da vida autêntica se encontram em acolher as diferenças, respeitar a dignidade humana, escutar, cuidar e servir aos mais humildes“.

O Papa também destacou a respeito das periferias existenciais: “Elas estão frequentemente cheias de solidão, tristeza, feridas interiores e perda do gosto pela vida. Na sociedade vocês podem se sentir isolados, rejeitados e sofrer exclusão, mas não desistam, não se desanimem. Sigam em frente, cultivando no coração a esperança da alegria contagiante“.

Com frequência costumamos esquecer a mensagem de Jesus quando falou “eu vim para que tenham vida e vida em ambundância”, isto significa que todas as pessoas tem o direito, como seres humanos, a uma vida digna em sua plenitude, jamais viverem como “lixo humano”, seja na dimensão material ou existencial.

Tradicionalmente, o termo periferia era aplicado apenas para identificar grupos populacionais e assentamentos humanos que viviam fora dos limites das cidades, sem a proteção e a qualidade de vida que a população urbana desfrutava.

Vale a pena recordar que ao longo da história as cidades eram cercadas por muros e outros sistemas de proteção aos “donos do poder” e seus vassalos, contra conquistadores que os ameaçavam sempre. Quem visita a Europa ainda pode ver resquícios dessas muralhas e castelos, mas jamais podemos imaginar o sofrimento de quem vivia nas periferias existenciais desde milênios da história humana.

Posteriormente, o conceito também passou a ser aplicado a quem vive `a margem da sociedade, os pobres, miseráveis, famintos, os sem teto, sem trabalho, sem direitos, sem acesso `a saúde física e mental, sem cidadania, `a população de rua, aos migrantes e refugiados que são forçados a saírem de suas terras, de seus países pelas mais variadas razões/causas, principalmente pelos horrores dos conflitos armados, das guerras e das crises climáticas.

Para muitas dessas pessoas , em caráter emergencial, o que pode mitigar sua fome e outras necessidades materiais, não são apenas palavras de conforto mas sim, alimentos/comida, roupas e outros bens que lhes agasalhem ante as intempéries e sofrimento que estão experimentando.

Todavia, tanto entre bilhões de excluídos mundo afora, cujas imagens `as vezes transmitidas pelos meios de comunicação nos chocam, como crianças, idosos e outros grupos de pessoas esquálidas, praticamente cadáveres que perambulam sem rumo, sem destino e sem esperança e milhões que meramente sobrevivem diariamente em cada país, inclusive no Brasil; quanto em tantos outros grupos abastados, que vivem na opulência, desfrutando de uma vida marcada pelo consumismo, pelas pompas , pelo desperdício, pela ganância que busca apenas a acumulação de bens materiais, também encontramos enormes contingentes que vivem no que são denominadas de periferias existenciais.

Diante desta complexidade da vida humana em que as necessidades materiais se entrelaçam com as necessidades emocionais e espirituais, precisamos compatibilizar as formas de enfrentarmos esses desafios, tanto no plano individual quanto organizacional, principalmente em relação `a definição e implementação de políticas públicas voltadas a esses grupos populacionais.

Neste contexto, muitas vezes não basta “dar o pão e o agasalho” ou medidas de proteção física, mas também identificar os liames da vida humana e também reconhecermos que não bastam palavras de apoio, de solidariedade tentando imaginar que um aconselhamento resolve tudo. Sempre é bom lembrarmos que existem diferentes tipos de fome: fome de pão/alimento, fome de justiça e fome de apoio emocional e espiritual e, principalmente, fome de esperança e dignidade!

Para aprofundarmos nosso entendimento das diferentes periferias que nos cercam, precisamos compreender que existem no mundo, por exemplo, mais de 310 milhões de pessoas que sofrem (2023) com depressão e que esta é uma das causas que levam mais de 710 mil pessoas a cometerem suicídio a cada ano.

Essas pessoas vivem seus dramas, que para muita gente é “frescura”, coisa sem importância, mas que para quem é acometido por esta doença é extremamente grave, pois vivem em um labirinto difícil de encontrar a saída e como um ato extremo colocam fim `a própria vida, imaginando que a morte, a auto-destruição seja na verdade uma libertação do sofrimento.

Estima-se, por exemplo, que no Brasil existem mais de 11,5 milhões de pessoas que sofrem de depressão e ou outros distúrbios mentais, enquanto o caos na saúde pública em geral e na saúde mental é a marca registrada da política de saúde em nosso país.

Estima-se que bilhões de pessoas, em diferentes faixas etárias, mas principalmente pessoas idosas que vivem na solidão, no abandono e muitas vezes sofrendo todos os tipos de violência.

A propósito, estamos em pleno JUNHO VIOLETA e dentro de poucos dias será o Dia Mundial de Conscientização da violência contra a pessoa idosa.

Outro tipo de periferia existencial é a situação em que vivem quase 12 milhões de pessoas que estão privadas de liberdade, encarceradas, cuja realidade é extremamente degradante, que para muita gente pode ser caracterizada como a “ante sala” do inferno.

Outro grupo que também vive na periferia existencial é representado por mais de 258 milhões de viúvas e viuvos, 10% das/dos quais vivem na extrema pobreza, isolados, abandonados sofrendo não apenas as carências materiais, mas também e principalmente as carências afetivas, grande parte sem qualquer perspectiva de uma vida futura com dignidade, diante do envelhecimento e de violência física, psicológica, patrimonial, financeira e emocional a que as vezes são submetidas/submetidos.

Neste quadro das periferias existenciais também precisamos incluir bilhões de pessoas que estão internadas em hospitais, casas de atendimento paliativo, milhões em estado terminal, acometidos por doenças degenerativas, incuráveis, sem condições `as vezes sequer de adquirem medicamentos ou de receberem atendimento que minorem seus sofrimentos.

É preciso também referirmos `a questão da mortalidade em geral e da mortalidade por grupos demográficos e sociais específicos, que em 2022 foi de aproximadamente 59 milhões de pessoas.

Bem sabemos o impacto que a morte traz para familiares, muitas vezes deixam não apenas um drama existencial, mas também diversas carências materiais para as famílias, principalmente quando esta perda recai sobre crianças e adolescentes.

Basta lembrarmos do drama recente da pandemia da COVID-19 que atingiu mais de 500 milhões de pessoas mundo afora e ceifou mais de seis milhões de vida, com destaque para o que aconteceu no Brasil. Quanto sofrimento cujas consequências ainda estão presentes e atingem enormes contingentes populacionais, que sofrem com as sequelas da Covid-19, cujos dramas jamais são conhecidos plenamente.

Além da precariedade no atendimento, falta de vacinas e o negacionismo dos governantes de plantão durante a pandemia em vários países, inclusive no Brasil, a COVID -19 representou e impôs um sofrimento humano muito grande, uma humilhação que afetou profundamente a dignidade humana.

Nesta reflexão sobre as periferiais existenciais não podemos deixar também de mencionar a situação de 55 milhões de pessoas que vivem (2023) com algum tipo de demência, principalmente, com Alzheimer’s, o mais prevalente, cujas projeções indicam que este contingente deve chegar a 78 milhões em 20230 e em torno de 140 milhões em 2050.

Só quem acompanha de perto a evolução da demência, principalmente, em um ente querido sabe o quão profundo é este sofrimento, não apenas para a pessoa diagnosticada com esta doença neurológica (como tantas outras) progressiva e incurável. Aos poucos isto afeta dramaticamente a família toda e deixa marcas profundas em termos psicológicos e emocionais.

Finalmente, nesta caracterização dos contingentes humanos que vivem nas periferias existenciais, onde as necessidades físicas, materiais se entrelaçam com as necessidades de apoio psicológico, psiquiátrico, emocional e espiritual, é importante chamar a atenção para o drama humano de mais de 100 milhões de migrantes que, em decorrência dos horrores dos conflitos armados e das guerras, são obrigados a deixaram suas casas, seus estados e até seus países para buscarem asilo em países distantes.

Neste processo de migração forçada, famílias são abandonadas, desestruturadas, separadas. O Alto Comissariado da ONU para refugiados tem estudos demonstrando que 50% desses mais de 100 milhões de refugiados são constituídos de mulheres e crianças e no caso da Guerra na Ucrania (devido `a invasão Russa) este contingente chega a 90%.

Diante deste drama existencial humano é que o Papa Francisco nos exorta e nos interpela ao dizer recentemente que “as periferias existenciais estão repletas de solidão”, ao que podemos acrescentar, de ansiedade, tristeza, injustiças, discriminação, opressão, violência e a falta de esperança na caminhada.

So assim,podemos avançar como nos exorta o Papa Francisco para uma Igreja Sinodal, onde , como irmãos devemos caminhar juntos; mas também uma Igreja verdadeiramente samaritana, amorosa, profética, que denuncia as injustiças e vai `as raízes das periferias materiais e existenciais e que também anuncia a boa nova do Evangelho, uma boa nova que seja capaz de revolucionar a nossa forma de pensar, sentir e agir e construirmos ou reconstruirmos “um novo céu”, mas também uma NOVA TERRA, onde não exista exploração, usura, desrespeito aos direitos dos trabalhadores e trabalhadores, onde a natureza, a Casa Comum seja plenamente respeitada; sejam reconhecidos os Direitos Humanos e a dignidade de todas as pessoas; e também que reconheçamos o direito das próximas gerações viverem em um mundo onde todos tenham, de fato, igualdade de oportunidades e nao caminhem sem esperança.

Vale a pena refletir também sobre esta outra exortação do Papa Francisco “Na realidade, de todos se pode aprender alguma coisa, ninguém é inútil, ninguém é supérfluo. Isto implica incluir as periferias. Quem vive nelas tem outro ponto de vista, vê aspetos da realidade que não se descobrem a partir dos centros de poder onde se tomam as decisões mais determinantes“ Fratelli Tutti, 215.“

Essas são algumas dimensões quando nos debruçamos sobre a realidade humana que nos interpela e nos fustiga para sairmos de nossa “zona de conforte” e nosso mundo individual, familiar ou mesmo paroquial!

*Juacy da Silva, professor universitário aposentado UFMT, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista. Articulador da Pastoral da Ecologia Integral.

Email – [email protected]

Instagram @profjuacy

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Do piso ao descanso digno: os direitos da Enfermagem precisam ser respeitados

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Autor: Celso Silva dos Santos* –

Trabalhar na Enfermagem é conhecer de perto uma rotina de muita responsabilidade. Estamos ao lado dos pacientes durante todo o cuidado, em plantões que exigem atenção permanente, preparo técnico, equilíbrio emocional e disposição física. Por isso, quando falamos em valorização da Enfermagem, não podemos falar apenas de reconhecimento. Precisamos falar de direitos — e, principalmente, do cumprimento deles.

A criação do piso salarial nacional foi uma conquista histórica da categoria. A Lei nº 14.434/2022 estabeleceu o piso de R$ 4.750 para enfermeiros, com o equivalente a 70% desse valor para técnicos de enfermagem e 50% para auxiliares e parteiras. Mas ter uma lei não encerra a luta. O que precisamos é garantir que esse direito seja efetivamente respeitado e que chegue aos profissionais.

Em Mato Grosso, como em outras partes do país, ainda existem questionamentos e relatos relacionados à aplicação do piso. É justamente por isso que precisamos continuar atentos. Uma conquista dessa dimensão não pode permanecer sujeita a interpretações que, na prática, façam o trabalhador receber menos do que lhe é devido. O piso precisa significar segurança e valorização para quem está na ponta.

Mas salário digno é uma parte das condições necessárias para exercer a profissão.

Quem trabalha na assistência sabe o impacto de uma equipe insuficiente. Quando faltam profissionais, aumenta a sobrecarga sobre quem permanece no plantão. São mais pacientes para atender, menos tempo para cada cuidado e maior desgaste físico e emocional. O dimensionamento adequado das equipes não interessa somente aos trabalhadores: ele está diretamente relacionado à segurança e à qualidade da assistência prestada à população.

Condições dignas de trabalho envolvem estrutura, materiais e equipamentos adequados, segurança, respeito às jornadas e ambientes que permitam ao profissional desempenhar suas funções sem colocar a própria saúde em risco. Não podemos naturalizar a exaustão como se ela fizesse parte da profissão. Cuidar de pessoas exige condições para cuidar.

E existe outro direito que ainda precisa ser mais conhecido e, principalmente, cumprido: o descanso digno.

Desde 2023, a Lei nº 14.602 determina que instituições de saúde públicas e privadas ofereçam aos profissionais de Enfermagem condições adequadas de repouso durante o horário de trabalho. A própria legislação estabelece que esses espaços devem ser destinados especificamente ao descanso, ser arejados, contar com mobiliário adequado, conforto térmico e acústico, instalações sanitárias e dimensão compatível com o número de profissionais em serviço.

Isso não é luxo. Não é privilégio. E não deveria depender da boa vontade de uma instituição. É direito.

Depois de horas cuidando, medicando, acompanhando pacientes, respondendo a intercorrências e lidando com situações que muitas vezes envolvem dor e sofrimento, ter um espaço adequado para o período de repouso é uma questão de dignidade profissional. É, inclusive, uma forma de proteger a qualidade do cuidado prestado.

Como técnico de enfermagem, acredito que nossa categoria precisa conhecer seus direitos, defendê-los e cobrar para que sejam respeitados. Não podemos aceitar que aquilo que foi conquistado por lei permaneça distante da realidade de parte dos profissionais.

Do piso salarial ao descanso digno, passando por equipes adequadamente dimensionadas, segurança e boas condições de trabalho, estamos falando de direitos que se complementam.

Valorizar a Enfermagem é garantir que quem passa a vida cuidando das pessoas possa trabalhar com remuneração justa, estrutura, segurança, respeito e dignidade.

Direito conquistado precisa ser direito cumprido.

*Celso Silva dos Santos é técnico de enfermagem e atua há 18 anos na saúde em Mato Grosso.

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