ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
“Lei Maria da Penha é um marco, mas há um longo caminho para zerar crimes contra a mulher”
Considerada um dos principais marcos no enfrentamento à violência doméstica no Brasil, a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) completou 19 anos nesta quinta-feira (7/8), a norma segue sendo referência na proteção dos direitos femininos e um ponto de partida essencial para refletir sobre os avanços, desafios e a urgência de ações concretas para garantir o direito das mulheres a uma vida livre de violência.
Em suas redes sociais, a deputada federal e jornalista, Gisela Simona, presidente da bancada feminina do União Brasil (UB), na Câmara Federal, e presidente do diretório da legenda, em Cuiabá, celebrou os 19 anos da Lei Maria da Penha [Lei nº 11.340].
Para a parlamentar unista, a entrada em cena da Lei Maria da Penha inaugurou um novo capítulo na proteção dos direitos das mulheres, estabelecendo mecanismos de prevenção, assistência e repressão à violência doméstica.
“Nesta última quinta-feira, 07 de agosto, celebramos um marco na defesa da mulher: os 19 anos da Lei Maria da Penha, Lei nº 11.340, que vem cumprindo sua tarefa de salvar milhares de vida. Principalmente, por meio das medidas protetivas de urgência que são instrumentos fundamentais na proteção imediata das mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. Desde que entrou em cena, a luta ganhou força e tem ajudado nesta escalada de agressões, estupros e mortes“.
A parlamentar lembra, contudo, que apesar dos avanços, há muitos desafios a serem enfrentados para colocar fim a um cenário de massacre das mulheres brasileiras no âmbito da violência doméstica, que tem deixado inúmeras famílias órfãs no país e, em especial, em Mato Grosso.
Ao apontar que reina em sociedades marcadas pelo patriarcalismos estrutural, como o Brasil, o medo feminino de represálias, a vergonha dos maus-tratos e a dependência econômica, levando centenas de mulheres a sofrerem caladas.
“Também é necessário reconhecer que a aplicação da lei encontra entraves em regiões de difícil acesso e em contextos culturais conservadores, resultando em subnotificações e, assim, mascarando os números reais“, diz a parlamentar unista.
A deputada federal mato-grossense, que foi relatora do Pacote Antifeminicídio na Câmara Federal, transformada em lei desde outubro do ano passado, reconhece, porém, que poucas legislações exerceram impacto tão profundo na sociedade quanto a Lei Maria da Penha. Pois assegurou mecanismos importantes para garantir a integridade física, psicológica, patrimonial, sexual e moral das mulheres vítimas de violência, como a concessão de medidas protetivas de urgência, a ampliação das possibilidades de responsabilização do agressor e a institucionalização de políticas públicas voltadas à prevenção.
Sancionada em 7 de agosto de 2006, esta lei conferiu maior segurança, reconhecimento e dignidade às vítimas. E seu surgimento não aconteceu ao acaso. Seu nome homenageia Maria da Penha Maia Fernandes, uma mulher que, após sofrer anos de agressões e duas tentativas de feminicídio por parte do então marido, transformou seu sofrimento em luta.
O caso de Maria da Penha ganhou notoriedade internacional, o que pressionou o Estado brasileiro a adotar medidas concretas para coibir e prevenir a violência doméstica.
“Hoje, quase duas décadas depois, tivemos avanços significativos como a aprovação do Pacote Antifeminicídio, que garantiu 40 anos de prisão a um feminicida. A pena é hoje a maior do código penal brasileiro. Mas sabemos que nossa luta não pode parar, e que precisamos seguir até conseguir zerar os crimes de violência doméstica e familiar contra a mulher“.
Mapa das medidas protetivas em MT
Em 2025, até o início de agosto, foram expedidas 10.528 medidas protetivas para mulheres em situação de violência doméstica e familiar em Mato Grosso. Deste total, quatro mulheres foram vítimas de feminicídio, o que representa 0,038% das medidas vigentes no estado. Ainda dentro desse percentual, destaca-se que três das vítimas de feminicídios, com medida protetiva ativa no momento do crime, haviam permitido a reaproximação dos autores, que eram seus ex-companheiros.
Os dados são do Observatório Caliandra, do Ministério Público, que disponibiliza informações atualizadas sobre feminicídios, medidas protetivas e outros indicadores em parceria com a Polícia Civil de Mato Grosso. O objetivo é traduzir em números a violência de gênero contra as mulheres, além de servir como fonte de informações e apoio para vítimas, familiares e toda a população.

Atualizações da Lei
Em matéria do Ministério Público de Mato Grosso, a instituição aponta que entre as atualizações estão a competência dos Juizados da Violência Doméstica e Familiar para atuar em ações de divórcio, separação, anulação de casamento ou dissolução de união estável relacionadas a casos de violência, bem como a obrigatoriedade de informar as vítimas sobre os serviços de assistência judiciária.
Em 2019, também foram incorporadas medidas como a apreensão imediata de armas de fogo em posse do agressor e a notificação das autoridades competentes para suspensão do porte ou posse dessas armas.
Em 2023, a Lei 14.550/2023 garantiu mais efetividade as MPUs ao estabelecer que as medidas devem permanecer em vigor enquanto persistir o risco à integridade física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral da vítima e de seus dependentes. A lei ainda fortaleceu a autonomia das mulheres, permitindo a concessão das medidas protetivas independentemente da tipificação penal da violência, do ajuizamento de ação penal ou cível, da existência de inquérito policial ou de registro de boletim de ocorrência.
Mais recentemente, a Lei 15.125/2025 implementou a possibilidade de cumulação do monitoramento eletrônico junto às medidas protetivas. Nesse caso, o agressor será obrigado a usar uma tornozeleira vinculada ao dispositivo do “botão do pânico”, que é um aparelho disponibilizado à vítima. Esse dispositivo alerta a vítima caso o agressor se aproxime, oferecendo uma ferramenta de proteção imediata e aumentando as chances de intervenção eficaz em situações de risco.
Política
Conflito institucional acirra disputas de “PODER” e expõe divergências de narrativas em Mato Grosso
O ambiente político do Estado de Mato Grosso transformou-se em um cenário de intensa disputa institucional após o ex-governador Mauro Mendes desferir duras críticas públicas direcionadas ao conselheiro Sérgio Ricardo, atual presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT). O desentendimento, que ultrapassou a esfera meramente administrativa para atingir o campo da retórica política personalizada, evidenciou um racha profundo entre o antigo chefe do Poder Executivo Estadual e a principal autoridade da Corte de Contas Mato-grossense, desestabilizando a aparente harmonia entre as lideranças locais.
Este embate de proporções inéditas eclodiu a partir de questionamentos públicos acerca da qualidade e da execução dos contratos de pavimentação asfáltica em rodovias estaduais que recentemente passaram por processos de concorrência pública, com destaque para a situação crítica da BR-170. O panorama rodoviário estadual, marcado por trechos severamente esburacados e alvo de recorrentes reclamações populares, funcionou como o estopim técnico para que as divergências latentes de bastidores sobre a condução da máquina pública e os limites da atuação fiscalizatória emergissem de forma definitiva na imprensa.
A escalada das tensões e as manifestações públicas mais contundentes concentraram-se na capital, Cuiabá, ecoando imediatamente nas sedes dos poderes constituídos e nos principais veículos de comunicação da região Centro-Oeste. O epicentro geográfico do conflito institucional localiza-se nos gabinetes governamentais e na sede da Corte de Contas, embora os desdobramentos práticos e os discursos políticos das autoridades envolvidas repercutam diretamente ao longo de toda a malha viária do interior do estado.
As declarações incisivas foram proferidas no atual contexto pós-mandato de Mauro Mendes (UB), refletindo o acúmulo de insatisfações com o modelo de controle externo adotado nos últimos meses pelo tribunal sob a nova presidência. A cronologia do confronto demonstra que o desgaste nas relações político-institucionais vinha sendo pavimentado progressivamente, culminando em um ponto de inflexão pública em que as cortesias diplomáticas tradicionais da política foram integralmente abandonadas pelas partes envolvidas.
A principal motivação subjacente ao posicionamento veemente do ex-governador reside no inconformismo com o que ele classifica como espetacularização e excesso de exposição midiática das fiscalizações promovidas pelo órgão de controle.
Mauro Mendes sustenta a tese jurídica de que os conselheiros do Tribunal de Contas deveriam adotar uma postura de estrito recato institucional, semelhante à magistratura judicial, priorizando o silêncio obsequioso e a manifestação técnico-formal nos autos dos processos em detrimento de entrevistas frequentes e pronunciamentos públicos.
Em contrapartida, a presidência do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE/MT), fundamenta sua linha de atuação na premissa da transparência pública ativa e no direito constitucional da sociedade de acompanhar as inspeções de engenharia em tempo real.
Sob a gestão de Sérgio Ricardo, a Corte de Contas adotou um modelo de fiscalização externa marcadamente presencial, transferindo os auditores dos gabinetes climatizados diretamente para os canteiros de obras rodoviárias, utilizando as redes sociais e os canais de comunicação social para dar visibilidade aos relatórios técnicos.
O método utilizado por Mauro Mendes para externar sua contrariedade consistiu em um ataque verbal direto à postura comunicacional de Sérgio Ricardo, exigindo publicamente que a autoridade fiscalizadora substituísse o uso frequente de microfones pela discrição inerente ao cargo.
“Sérgio Ricardo deveria trocar o microfone pelo silêncio institucional“.
Por outro lado, o presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE/MT), reagiu intensificando as vistorias técnicas de campo e reiterando a independência constitucional do órgão, transformando as inspeções em eventos públicos de grande repercussão política para demonstrar que o controle externo não se submeterá a pressões do Executivo.
Os defensores da estratégia adotada pelo Tribunal de Contas argumentam que a visibilidade pública conferida às auditorias rodoviárias funciona como um mecanismo indispensável para constranger empresas inadimplentes e acelerar a reparação das estradas.
Na visão desse grupo multissetorial, a publicidade dos atos administrativos constitui um preceito democrático moderno que assegura a eficiência dos gastos públicos, impedindo que auditorias cruciais sobre o dinheiro dos contribuintes fiquem engavetadas longe do escrutínio da população.
Inversamente, os críticos do atual modelo comunicacional da Corte de Contas, alinhados ao pensamento do ex-governador, alertam para os riscos do protagonismo político excessivo e da contaminação eleitoreira de um órgão estritamente técnico.
Esse segmento político argumenta que prejulgamentos veiculados na imprensa antes da conclusão definitiva dos processos administrativos violam o princípio do devido processo legal e maculam injustamente a imagem de gestores e de concessionárias de serviços públicos.
As consequências imediatas desse espetáculo político de bastidores traduzem-se em uma paralisia no diálogo institucional entre importantes forças políticas de Mato Grosso, onde as palavras assumiram o papel de armas em uma guerra de narrativas pelo controle da opinião pública.
O desfecho dessa disputa de poder permanece incerto, mas analistas políticos convergem na avaliação de que, enquanto o foco estiver centralizado nos microfones e nos relatórios de impacto midiático, o ritmo de recuperação das rodovias continuará secundário diante da velocidade do embate político.
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