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A DESORDEM VEM DE CIMA

Cuiabá endurece cerco a empresas e fiação irregular após acidentes graves

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O caos aéreo da fiação urbana, que transita entre o descaso estético e a letalidade física, motivou uma ofensiva administrativa sem precedentes na capital mato-grossense, unindo fiscalização tributária e segurança pública contra o abandono de cabos.

A persistente desordem nos postes de energia elétrica, caracterizada por um emaranhado de fios soltos e inutilizados, deixou de ser meramente uma questão de poluição visual para se tornar uma prioridade de segurança pública em Cuiabá. O problema crônico, que afeta diversas metrópoles brasileiras, ganha contornos de urgência diante dos riscos de choques elétricos, incêndios e, fundamentalmente, acidentes físicos contra cidadãos.

A rede de postes, de propriedade das concessionárias de energia, serve de suporte para uma massa de cabos “mortos” de telefonia e internet que, sem a devida manutenção, transformam-se em armadilhas urbanas suspensas sobre calçadas e ciclovias.

O agravamento do cenário motivou a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Sorp) a utilizar a Tribuna Livre da Câmara Municipal de Cuiabá nesta terça-feira (14). Durante a sessão, a secretária Juliana Palhares anunciou uma ofensiva rigorosa voltada não apenas à organização técnica, mas à legalidade das operações. O foco recai agora sobre empresas clandestinas que utilizam a infraestrutura da concessionária Energisa Mato Grosso de forma irregular. Estas entidades, ao atuarem à margem da Lei, negligenciam as normas de segurança e contribuem diretamente para o acúmulo de fiação abandonada que ameaça a integridade da rede elétrica e a vida dos transeuntes.

A fiscalização municipal, em uma estratégia de pinça, passará a verificar o cumprimento de obrigações administrativas básicas, como a posse de alvará de funcionamento e as licenças municipais exigidas para a prestação de serviços.

A medida visa atingir o cerne do problema: a informalidade no setor de telecomunicações. Segundo levantamentos das equipes técnicas, mais de 600 empresas clandestinas já foram identificadas em atividade na capital.

A meta é garantir que apenas estabelecimentos devidamente licenciados ocupem o espaço público, aplicando-se a interdição imediata daqueles que não recolherem as taxas devidas ou operarem sem autorização oficial.

A responsabilidade pelo ordenamento do espaço aéreo urbano é compartilhada entre as esferas privada e pública. Embora as operadoras de telefonia e os provedores de internet sejam os geradores do resíduo tecnológico, a coordenação da limpeza cabe à concessionária de energia, sob a vigilância do município. A secretária Palhares enfatizou que o enfrentamento ao abandono de cabos exige a aplicação rigorosa de sanções contratuais e multas pesadas. A estratégia de responsabilização dos infratores busca interromper o ciclo de impunidade que permite que cabos inutilizados permaneçam pendentes após o encerramento de contratos de serviço ou falência de empresas.

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O estopim para a intensificação dessas medidas foi o acidente sofrido pelo Secretário Municipal de Esporte e Lazer, Jefferson Neves. Ao conduzir sua motocicleta em via pública, o secretário foi atingido no pescoço por um fio de telefone solto, incidente que reforçou a letalidade potencial dessa negligência. O caso, levado à atenção do Legislativo pela vereadora Michelly de Alencar, serviu como catalisador para que a administração pública acelerasse o rito de fiscalização e punição, transformando uma demanda técnica em uma cruzada pela preservação da vida e pelo respeito ao direito de ir e vir com segurança.

Historicamente negligenciada, a questão dos fios recebeu um tratamento legislativo mais robusto após a atuação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), presidida pelo vereador Eduardo Magalhães. O relatório final da CPI resultou em alterações substanciais na legislação municipal, conferindo maior clareza às competências fiscalizatórias da Secretaria de Ordem Pública. Com o novo arcabouço jurídico, o município dispõe de ferramentas mais ágeis para intervir diretamente na infraestrutura, permitindo que as ações deixem de ser paliativas e passem a ser estruturantes no combate ao descaso das empresas de telecomunicações.

Desde o início da atual gestão na pasta, há dezesseis meses, a prefeitura realizou três operações de grande porte e diversas reuniões técnicas com a concessionária de energia. Entre as ações de destaque, a “Operação Telefone Sem Fio” estabeleceu cronogramas de limpeza em vias arteriais da cidade. A primeira fase, ocorrida em novembro no bairro Recanto dos Pássaros, resultou na retirada de mais de duas toneladas de material. Posteriormente, a mobilização concentrou-se na região central, especificamente na Avenida Isaac Póvoas, demonstrando o compromisso com a despoluição das áreas de maior fluxo comercial e turístico.

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O engajamento social é pilar fundamental da estratégia municipal, sendo operacionalizado por meio do Portal Sorp. Através do endereço eletrônico oficial, os cidadãos podem denunciar a presença de fios soltos, anexando fotografias e coordenadas geográficas precisas. Este canal de comunicação direta permite que a prefeitura mapeie os pontos críticos de forma dinâmica e transparente, possibilitando que o denunciante acompanhe em tempo real o desfecho de sua reclamação. A participação ativa do contribuinte é vista como essencial para cobrir a vasta extensão territorial de Cuiabá e identificar irregularidades em bairros periféricos.

No que tange ao rigor pecuniário, as penalidades tornaram-se significativamente mais onerosas para os infratores. A atualização da legislação elevou a multa mínima de R$ 3 mil para R$ 20 mil, valor que pode escalar até R$ 100 mil em casos de reincidência ou gravidade extrema, além da aplicação de multas diárias por descumprimento de prazos de regularização. Até o momento, o montante acumulado em multas já ultrapassa os R$ 600 mil. Esse endurecimento financeiro visa tornar a negligência com a fiação um custo inviável para as empresas, incentivando a manutenção preventiva em detrimento do abandono sistêmico.

Embora as operações de limpeza possam causar interrupções temporárias nos serviços de internet e telefonia para alguns consumidores, a prefeitura ressalta que o benefício coletivo da segurança prevalece sobre o transtorno individual momentâneo. Em casos de interrupção indevida, a orientação é que o cidadão acione o Procon para garantir seus direitos consumeristas.

O balanço das ações é expressivo: mais de 10 toneladas de fios foram recolhidas das ruas de Cuiabá, sendo 80% desse total apenas no último trimestre, consolidando um novo padrão de zeladoria urbana que prioriza a ordem técnica e a proteção da vida humana.

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Instituições unificam combate ao “Assédio Eleitoral” no ambiente de trabalho

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As instâncias superiores da Justiça, órgãos de controle e representantes dos principais veículos de comunicação de Mato Grosso formalizaram, na última segunda-feira (13), o “Pacto pelo Voto Livre no Trabalho“. A iniciativa surge como uma resposta institucional robusta ao crescimento de práticas abusivas em que empregadores tentam manipular a orientação política de seus colaboradores. O documento estabelece um compromisso ético e jurídico para coibir infrações que, embora modernizadas por ferramentas digitais, remetem ao arcaico “voto de cabresto”, ferindo a liberdade individual e a integridade do processo democrático brasileiro em um ano decisivo para a sucessão política.

O assédio eleitoral manifesta-se quando um superior hierárquico utiliza seu poder de mando para constranger, ameaçar ou oferecer vantagens visando direcionar o voto de subordinados a determinados candidatos ou partidos. Diferentemente do assédio moral ou sexual, esta modalidade foca na supressão da autonomia cívica do trabalhador, ocorrendo mediante a oferta de gratificações extras, promessas de brindes ou, em casos mais graves, a ameaça explícita de demissão. Tais práticas não apenas configuram ilícitos trabalhistas e cíveis, mas também podem ser tipificadas como crimes eleitorais, sujeitando os infratores a sanções severas que variam de multas vultosas à privação de liberdade.

O cenário geográfico central desta mobilização é o Estado de Mato Grosso, onde o Tribunal Regional do Trabalho (TRT/MT) idealizou o pacto após identificar um volume expressivo de ações judiciais decorrentes de pleitos anteriores. A cerimônia de assinatura ocorreu em Cuiabá, reunindo uma coalizão estratégica composta pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE/MT), o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público do Trabalho (MPT-MT) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MT).

A escolha estratégica da capital mato-grossense para o lançamento do pacto reflete a preocupação das autoridades com a manutenção de um ambiente de trabalho profissional e imune a pressões ideológicas indevidas.

A motivação para tal pacto é fundamentada na proteção do trabalhador, cuja vulnerabilidade econômica costuma ser explorada em períodos de instabilidade política e polarização. De acordo com o presidente do TRT-MT, desembargador Aguimar Martins Peixoto, o ambiente laboral deve ser preservado como um espaço de cooperação técnica, e não como um campo de batalha eleitoral. O magistrado ressalta que a intervenção empresarial na escolha do cidadão representa uma violação direta dos direitos fundamentais previstos na Constituição Federal de 1988, exigindo uma postura vigilante das instituições para que o sustento das famílias não seja utilizado como moeda de troca política.

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Os métodos de fiscalização e denúncia serão potencializados por ferramentas digitais e pela atuação coordenada de procuradores e fiscais do trabalho durante todo o ciclo eleitoral de 2026.

A presidente do Tribunal Regional Eleitoral (TRE/MT), Serly Marcondes Alves, anunciou que o aplicativo “Pardal”, plataforma já consolidada para o recebimento de denúncias de crimes eleitorais, terá funcionalidades específicas para acolher relatos de assédio no ambiente corporativo. Além da tecnologia, a Procuradoria Regional Eleitoral, representada por Ludmila Bortoleto Monteiro, confirmou que todas as representações, mesmo aquelas que envolvam práticas sutis de persuasão, serão rigorosamente apuradas para garantir que medidas coercitivas sejam aplicadas tempestivamente.

A operacionalização do pacto prevê que as empresas identificadas em práticas abusivas enfrentem não apenas o pagamento de indenizações por danos morais individuais e coletivos, mas também a obrigação de interromper imediatamente as condutas vedadas. Juridicamente, o empregado vítima de assédio eleitoral possui o direito de pleitear a rescisão indireta do contrato de trabalho a chamada “justa causa do empregador”, o que lhe garante o recebimento de todas as verbas rescisórias integrais. Esta medida visa desestimular o uso de infraestruturas privadas, como o registro não autorizado de imagens e vídeos de funcionários em atos de campanha, para fins de propaganda política institucional.

Para os trabalhadores e gestores, a mensagem das entidades é clara: a subordinação inerente ao contrato de trabalho limita-se estritamente à execução das atividades laborais, jamais alcançando a esfera da consciência cívica.

Gisela Cardoso, presidente da OAB/MT, destaca que a defesa da liberdade do voto é uma cláusula pétrea da democracia e que qualquer extrapolação dessa fronteira deve ser repelida pela advocacia e pelo judiciário.

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O pacto funciona, portanto, como um guia pedagógico e punitivo, estabelecendo que o apoio político deve ser uma manifestação voluntária do cidadão, desvinculada de qualquer promessa de bônus ou receio de represália financeira.

O impacto esperado com essa união de forças é a redução drástica das estatísticas de abusos eleitorais nas empresas de Mato Grosso e a criação de um efeito cascata em outras unidades da federação. Ao envolver diretores de veículos de comunicação no pacto, as instituições buscam amplificar a conscientização social e garantir que as vítimas saibam onde e como buscar auxílio jurídico. A educação corporativa torna-se, assim, uma aliada estratégica, instruindo proprietários de estabelecimentos sobre os riscos reputacionais e financeiros de permitirem que o local de trabalho seja transformado em um comitê político-partidário coercitivo.

No tocante à prevenção, o documento assinado orienta que as empresas devem se abster de organizar eventos com candidatos dentro do horário de expediente, caso isso implique constrangimento ou obrigatoriedade de presença para os empregados. A fiscalização será intensificada em setores onde a dependência econômica do trabalhador é mais acentuada, visando desarticular redes de influência que se utilizam da estrutura hierárquica para fins eleitorais.

O Ministério Público do Trabalho já prepara campanhas de esclarecimento para reforçar que o silêncio do trabalhador diante do assédio não significa anuência, mas sim um sintoma da necessidade de proteção estatal.

Por fim, a assinatura deste pacto reafirma o compromisso de Mato Grosso com a lisura das eleições de 2026, projetando um ambiente onde a cidadania possa ser exercida plenamente. A integridade das relações de trabalho é o pilar que sustenta a paz social e a estabilidade democrática, garantindo que o voto permaneça secreto, livre e soberano. Com a vigilância ativa das seis entidades signatárias e o apoio da imprensa, o estado envia um sinal inequívoco de que a liberdade de escolha é um valor inegociável, protegendo o “sagrado” ambiente de sustento das famílias contra qualquer tentativa de manipulação ou arbítrio político.

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