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Os cuidados que devemos ter com o uso das Lentes de Contato
Autor: Dr. Renan Ferreira –
A ideia de aplicar lentes corretivas diretamente na superfície do olho foi proposta pela primeira vez em 1508 por Leonardo da Vinci, e ideias similares surgiram com René Descartes em 1636, mas foi somente em 1887 que o fisiologista alemão Adolf Eugen Fick construiu as primeiras lentes de contato e desde que chegaram, possuem papel importante na saúde visual de muitas pessoas. Esse acessório atua como adjuvante ao uso dos óculos de grau, corrigindo os principais distúrbios refrativos: como a miopia, a hipermetropia, o astigmatismo e/ou a vista cansada e, deste modo, facilitando a vida de muitas pessoas.
As lentes de contato evoluíram significativamente nos últimos anos proporcionando mais segurança, conforto e satisfação visual aos seus usuários. Segundo a Sociedade Brasileira de Lentes de Contato e Córnea (SOBLEC) existe um aumento progressivo na adesão ao corretivo ocular, e estima-se que, atualmente, 1% de brasileiros são usuários frequentes, o equivalente a cerca de dois milhões de pessoas.
A contraindicação ao uso das lentes de contato é incomum e sua popularidade deve acompanhar medidas saudáveis a fim de garantir maior segurança, eficácia e satisfação duradoura, portanto, algumas medidas básicas são mandatórias:
1. Não dormir com as lentes de contato: medida simples que, ainda assim, é ignorada por muitas pessoas, já que as lentes de contato devem ser retiradas antes de dormir todos os dias, e seu uso não deve ultrapassar 12-14 horas/dia, ou seja, devem ser colocadas pela manhã e retiradas ao fim do dia. Dormir com elas no olho aumenta significativamente o risco de infecção secundária e determina hipóxia crônica da superfície ocular, causando enorme desconforto.
2. Manusear corretamente as lentes de contato: outro detalhe importante para quem usa lentes é prestar atenção à maneira correta de retirá-las e colocá-las nos olhos. A manipulação com atenção minimiza as chances de troca de lentes entre os olhos e de se colocar a lente invertida, o que pode prejudicar a qualidade visual e proporcionar irritações.
3. Lavar as mãos antes de tirar e colocar as lentes: todo o processo descrito anteriormente deve ser feito com as mãos limpas para não contaminar o estojo e as lentes de contato. A higiene das mãos diminui a chances de que partículas como as de poeira possam grudar nos olhos e nas lentes, provocando irritações.
4. Fazer a limpeza regular com solução apropriada: as lentes também devem ser conservadas em recipiente próprio e de maneira adequada. É muito importante usar solução oftálmica apropriada para cada tipo de lente de contato, sendo sua limpeza realizada diariamente. O uso de soro fisiológico ou água filtrada NÃO é recomendado como conservante de lente de contato, por não remover totalmente as substâncias que ficam acumuladas na superfície da lente e, principalmente, por favorecer o crescimento de colônias de bactérias, protozoários e fungos.
5. Limpar o estojo das lentes regularmente: da mesma forma que as lentes, os estojos também devem ser higienizados diariamente. Assim, depois das mãos, lave o estojo com a mesma solução oftálmica usada para as lentes, enquanto elas estiverem sendo usadas. Deixe secar naturalmente, sem usar uma toalha ou um papel.
6. Respeitar a data de validade das lentes: de modo geral, existem lentes de uso diário (descarte diário), lentes de uso mensal (descarte mensal) e lentes de uso anual (descarte anual). As lentes são fabricadas com tecnologias específicas, sendo desenvolvidas com propriedades diferentes, de acordo com o modelo e o fabricante. Cada lente tem durabilidade e eficácia garantida de acordo com o fabricante. Dessa forma, respeite a validade e tenha maior segurança e conforto visual.
Consulte regularmente o seu oftalmologista e tenha a certeza da orientação mais assertiva sobre qual a melhor indicação de correção refrativa para você. Cuide-se!
- Dr. Renan Ferreira (CRM MT 9034) é médico oftalmologista, especialista em Retina e Vítreo. @oftalmologistamt / Verbelo Oftalmologia: Rua Alves de Oliveiras, 1875 – Cristo Rei – Várzea Grande-MT; Telefones: (65) 99207-3884/ (65)2137-0880.
Artigos
A doçura perdida no tempo: o que a infância ainda tem a nos ensinar
Autora: Soraya Medeiros* –
Há uma doçura na infância que o tempo não consegue apagar completamente. Ela pode ficar escondida sob as responsabilidades, as decepções e a pressa da vida adulta, mas permanece dentro de nós. Basta uma música antiga, o cheiro de uma comida, uma fotografia ou uma brincadeira esquecida para que aquela criança desperte novamente.
Quando éramos pequenos, a felicidade parecia morar nas coisas mais simples. Estava em correr descalço, brincar de esconde-esconde, pega-pega, amarelinha, pular corda, andar de bicicleta ou transformar qualquer objeto em brinquedo. Um quintal podia virar um universo inteiro. Uma caixa de papelão se transformava em casa, carro ou castelo. Bastava imaginação.
E havia os doces. Uma bala, um pirulito, um pedaço de bolo, um chocolate recebido de alguém especial. Talvez o sabor nem fosse tão extraordinário, mas aquele gesto carregava algo maior. Era cuidado. Era carinho. Era a sensação de ser lembrado. Por isso alguns sabores atravessam décadas e permanecem ligados às pessoas que amamos.
A doçura da criança também estava na forma de enxergar o outro. Fazíamos amizade com uma facilidade que hoje parece impossível. Bastava perguntar: “Quer brincar comigo?”. Pouco depois, dividíamos brinquedos, inventávamos histórias e ríamos juntos como se aquela amizade existisse havia anos.
Criança sabe rir com o corpo inteiro. Ri até perder o fôlego, até a barriga doer, sem se preocupar se alguém está olhando. Chora quando dói, mas muitas vezes, minutos depois, já está brincando novamente. Existe nela uma extraordinária capacidade de estar presente.
Jean Piaget, ao estudar o desenvolvimento infantil, mostrou como a criança constrói sua compreensão do mundo experimentando, perguntando, imaginando e descobrindo. Talvez tenhamos muito a reaprender com essa curiosidade que um dia também foi nossa.
Porque crescemos e, com o tempo, fomos aprendendo a desconfiar, controlar, calcular. Vieram as responsabilidades, as perdas, os boletos, as frustrações e as expectativas. Para não sofrer, construímos defesas. E algumas delas acabaram escondendo também nossa espontaneidade.
Quando foi que paramos de brincar? Quando foi que começamos a acreditar que adulto precisa estar sempre sério, ocupado e preocupado?
Nossa criança interior não pede que abandonemos responsabilidades. Ela apenas nos lembra que viver também é brincar, rir de bobagens, dançar sem saber dançar, cantar desafinado, tomar chuva, fazer algo simplesmente porque nos dá prazer e permitir que a alegria apareça sem precisar de uma ocasião especial.
Resgatar essa criança é também recuperar nossa doçura. Não a ingenuidade que desconhece os perigos, mas a delicadeza de quem ainda consegue se emocionar. É olhar para uma flor, um pôr do sol, um animal brincando ou uma gargalhada e perceber que nem tudo precisa ter utilidade para ter valor.
Talvez amadurecer não seja deixar a infância para trás. Talvez seja aprender a caminhar com ela. Porque, por mais que o tempo passe, aquela criança ainda mora em algum lugar dentro de nós, esperando uma oportunidade para correr, brincar, sorrir e se encantar novamente.
E talvez ela queira apenas nos lembrar de algo que esquecemos enquanto crescíamos: a vida também foi feita para ser saboreada. E um pouco da sua doçura ainda está dentro de nós.
*Soraya Medeiros é jornalista.
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